Carta aberta da democracia a todos os cidadãos brasileiros

Que o senso de humanidade prevaleça, e, que se sobreponha ao ódio. Que o amor, que um dia eu senti que vocês tinham por mim, renasça das cinzas feito a Fênix

Carta aberta da democracia a todos os cidadãos brasileiros
Carta aberta da democracia a todos os cidadãos brasileiros (Foto: Ricardo Stuckert)

Prezados,

Tudo bem?

Meu nome é Democracia. Vocês já devem ter ouvido falar sobre mim. Meu nome significa: “Governo do povo, para o povo e com o povo”. Os mais antigos, festejaram o meu nascimento, que aconteceu após um período de muita tristeza para o país.  Eram tempos sombrios, onde muitos filhos perderam pais, muitos pais perderam filhos e o medo da repressão, da perseguição e da morte, rondava  as esquinas, os bares, os colégios, as universidades, as residências.

O cidadão não era livre para ir, vir e existir plenamente, porque os seus direitos estavam cerceados por um grupo de homens fardados, que tomaram o poder e instituiram uma ditadura que durou vinte anos. Eu não vi, porque ainda não havia nascido, mas, segundo me contaram, pessoas eram torturadas e até mortas, apenas por professarem uma ideologia política diferente do regime político vigente no país. Eu não consigo me imaginar vivendo em um contexto tão macabro e impiedoso. Eu não nasci para isso.

Eu fui uma criança muito feliz. Nasci e fui crescendo sentindo o carinho e o amor de muitos pais e muitas mães, que viram em mim uma nova possibilidade de renascimento. Eu alegrei as suas vidas, devolvi –lhes o brilho no olhar, resgatei-lhes a auto-estima, proporcionei-lhes inspiração. Quem me vê falar assim, pensa que eu sou metida a besta. Mas, não é bem isso. Eu apenas reconheço a minha importância na vida de cada cidadão que habita esse país. Eu não sou a última bolacha do pacote. Mas, talvez, eu seja o pacote que abriga todas as bolachas e permite que elas permaneçam seguras, em bom estado de conservação e próprias para o consumo. 

Muitos devem estar se perguntando, por que eu estou escrevendo essa carta para todos os cidadãos desse país. Eu explico. Eu queria fazer-lhes uma pergunta, mas gostaria que fossem sinceros na resposta. Não mintam para mim, porque eu nunca menti para vocês. Vocês não gostam mais de mim? Que mal eu fiz a vocês? Por que vocês estão pensando em me excluir de suas vidas e trazer de volta aquela “pessoa” má, que tanto desgosto deu a vocês no passado? Onde foi que eu errei? Foi a liberdade de expressão que você passaram a ter depois que eu nasci? Foi o direito ao voto para eleger os seus representantes ? Já sei! Foi aquele livro que eu trouxe para vocês? A Constituição. Não gostaram dos direitos que ela assegura a todos vocês?

Não é vitimismo da minha parte, mas eu estou me sentindo discriminada observando metade de vocês apoiando a tortura, a violência, a limitação dos direitos, o preconceito, a intolerância religiosa, o racismo, a homofobia, o machismo e a misoginia. Não foi para combater todas essas coisas que vocês lutaram pela minha chegada? Eu estou confusa com tudo isso. Até a ditadura, que é minha inimiga número um, vocês já pediram de volta. O que está acontecendo com vocês? O que mais eu preciso fazer, para que vocês entendam que, apesar de tudo, eu ainda sou a melhor opção? Sabe aquele ditado que diz: “A gente só dá valor quando perde”? Pois é! Longe de mim, querer fazer chantagem emocional com milhões de pessoas, mas vocês podem se arrepender se me derem um pé na bunda. Pensa bem!

Vocês ainda nem me expulsaram do país, e já estão acontecendo coisas absurdas por aí. Intimidações, censuras, agressões, espancamentos, assassinatos, coisas que aconteciam quando eu ainda não tinha nascido. É isso mesmo que você querem de volta? Até crianças estão sendo usadas para legitimar a violência. Ouvi dizer que muitos estão com ódio do PT. Por que isso? Ele nasceu praticamente junto comigo, fomos criados juntos. Juntos construímos casas para os mais pobres, colocamos comida na mesa de quem não tinha o que comer, investimos em Escolas e Universidades, lutamos por igualdade social e racial. Eu sei que ele errou em alguma coisas. Ninguém é perfeito.

Muitos dizem que ele roubou o país, e, por isso, defendem que é preciso uma mudança radical. Então, se vocês tiverem um filho ladrão, vocês irão expulsá-lo de casa e adotar um assaassino como novo filho? Por falar em assassino, enquanto escrevo essa carta, me chega a notícia de que um jovem foi morto no nordeste do país, por estar me defendendo. Como eu me sinto? Muitos morreram para que eu nascesse. Agora, muitos estão morrendo para impedir que eu também morra. É isso mesmo que vocês querem? Hein, Cristãos? Vocês, que defendem o perdão dos pecados e a salvação eterna. Vocês que sempre juraram seguir os ensinamentos de Cristo. Como podem apoiar a carta branca para matar? Sempre pensei que vocês tivessem apreço por mim. Acho que me enganei.

Nessas horas que podem estar antecedendo a minha morte, gostaria de fazer um último pedido. Não chorem por mim, se amanhã eu não estiver mais aqui. Não me ofereçam flores e nem caminhem contra o vento, sem lenço e sem documento, tentando me encontrar. Não esperem que eu volte na alegria do samba do poeta, porque essa dor não vai passar. Não tentem me encontrar na mensagem subliminar da letra daquela canção, pois eu não estarei mais lá. Não haverá flores, samba ou poesia, que me façam voltar a vida novamente. Contudo, eu ainda tenho uma esperança. Que o senso de humanidade prevaleça, e, que se sobreponha ao ódio. Que o amor, que um dia eu senti que vocês tinham por mim, renasça das cinzas feito a Fênix.

Certa de que sempre fiz de tudo para garantir-lhes liberdade, direitos, dignidade e igualdade, assento-me ao banco dos réus, e submeto-me ao julgamento daqueles pelos quais, eu nasci para defender. Ainda que optem pela minha condenação, saio de cabeça erguida e torcendo para que vocês não sofram muito sem mim, por mais vinte longos anos de chumbo.

Atenciosamente,

A Democracia.

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