Censura a Aquarius mostra a face repressora do governo golpista

Não é mais possível que o MinC esteja submetido ao alpinismo político de um ministro que submete à cultura e os artistas brasileiros ao constrangimento do retorno das formas mais rasteiras de perseguição política à arte e à cultura

Na segunda-feira, dia 12 de setembro, a Comissão Especial nomeada pelo MinC do ministro Marcelo Calero anunciou a indicação do filme que irá representar o Brasil no Oscar e, para a estupefação de todos, o filme indicado não foi Aquarius. A incrível obra cinematográfica de Kléber Mendonça Filho foi preterida pelos membros da comissão, mesmo sendo uma escolha esperada pelo conjunto da comunidade cultural e, sobretudo, pelos cineastas e realizadores do país, dadas as suas virtudes artísticas inequívocas, que fizeram dele um sucesso nacional e internacional de público e crítica.

Esse resultado era uma tragédia anunciada desde que o MinC, em 3 de agosto, anunciou quem seriam os membros da Comissão Especial. Os nomeados pelo ministério de Calero para a composição do grupo que indicaria o representante nacional, sinalizava para mais um caso de intervenção política em instâncias técnicas pelo governo golpista. Por exemplo, o crítico de cinema Marcos Petrucelli atacou duramente Aquarius nas redes sociais, mesmo dizendo que não tinha visto o filme de Kléber Mendonça Filho, pelas posições políticas do diretor e essas declarações absurdas foram premiadas com a nomeação de Petrucelli para a comissão que decidiu o filme a representar o cinema brasileiro no Oscar.

Tão evidente ficou a contaminação política na construção dessa Comissão Especial que dois membros nomeados renunciaram a permanecer como membros da comissão. Primeiramente, o cineasta mineiro Guilherme Fiuza Zenha saiu da comissão; depois a cineasta Ingra Liberatto renunciou, afirmando que como a comissão tinha "sua legitimidade questionada por grande parte de nossa classe" e que ela se retiraria "em respeito à minha própria tribo", lamentando "profundamente esse conflito" e torcendo "para que nova comissão encontre legitimidade" - "nós todos merecemos uma conclusão harmônica nesse processo", disse a atriz.

Diante do cenário politicamente corrompido para a escolha de nosso representante no Oscar, os cineastas Gabriel Mascaro e Anna Muylaert retiraram seus filmes do processo de seleção por acreditarem que, nas palavras de Anna Muylaert, "esse era o ano de Aquarius".

Nenhuma dessas manifestações foi capaz de sensibilizar o grupo nomeado pelo ministro Calero. A solução ao final não foi a harmonia desejada por Ingra, mas a execução de uma eleição que envergonha a história da Comissão Especial para a indicação do representante brasileiro no Oscar, que tem seu histórico marcado por escolhas técnicas e respaldadas pelos fazedores de cinema do Brasil.

É importante mencionar que o atual ministro da cultura Marcelo Calero, que hoje finge ser apartidário para tentar ganhar a simpatia da classe artística, é na verdade um tucano envergonhado. Foi candidato a deputado federal em 2010 pelo Rio de Janeiro com uma plataforma esdrúxula de recriar o Estado da Guanabara, além de ser contra a realização da Copa do Mundo no Brasil e das Olimpíadas do Rio. Fez pouco mais de 2 mil votos. Com o golpe, foi elevado ao cargo de Ministro de Estado diante da negativa de vários representantes reais do mundo da cultura de participar desse governo ilegítimo.

Não é mais possível que o MinC esteja submetido ao alpinismo político de um ministro que submete à cultura e os artistas brasileiros ao constrangimento do retorno das formas mais rasteiras de perseguição política à arte e à cultura.

Calero, frente às atitudes pequenas e mesquinhas que têm marcado sua gestão, seguirá sendo vaiado, não importando o destempero e o despreparo para o contraditório que tem demonstrado. Enquanto o ministro, que posa na figura moderna de jovem diplomata, seguir comandando a gestão das políticas culturais do Brasil com o espírito da velha política, a classe artística e os democratas brasileiros não se calarão. Esse ministro não entende a relação entre cultura e política em uma sociedade democrática.

A situação lamentável dessa eleição de nosso representante para o Oscar foi a culminância de uma trajetória de erros, de equívocos e de manobras que expõe a iniquidade política desse governo ilegítimo. E como em todo ataque à democracia e à liberdade de expressão, essa é uma circunstância em que somente há perdedores. Perdem os artistas, que são submetidos à perseguição mesquinha de um Ministério da Cultura sem legitimidade. Perdem os brasileiros, que não têm mais no MinC representantes com a dimensão republicana do cargo. Perde o filme escolhido, que se vê atacado por estar ocupando o lugar que a comunidade cultural e cinematográfica esperava ser de Aquarius. Perde a arte brasileira, que vê escapar a chance de colocar um filme maravilhoso na disputa por um inédito Oscar para o país.

A arte brasileira não tolera a censura, não suporta a mentira e não se corrompe por migalhas do poder ou por falsos sorrisos. Não é possível que a cultura brasileira volte a ser submetida aos ditames do patrulhamento político, da censura, da perseguição pessoal por posições ideológicas. A arte é exercício da liberdade e o MinC e o Ministro da Cultura deveriam ser os guardiões primeiros da liberdade artística e de expressão, e não seus cerceadores. Como diz Norberto Bobbio o homem da cultura está mais preocupado em disseminar as dúvidas do que em colher certezas. Vivemos tempos sombrios que serão marcados por retrocessos em todas áreas. Resistiremos.

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