China adverte para a ideologização das decisões em relação ao coronavírus

"A China advertiu para o sucateamento da OMS, que tem sofrido cortes de orçamento e fuga de cérebros. Em plena pandemia, Trump propôs cortar 3 bilhões de dólares nos fundos para a saúde global, inclusive reduzir à metade a contribuição anual do país à OMS", escreve a jornalista Cynara Menezes

www.brasil247.com - Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra
Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra (Foto: REUTERS)
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Por Cynara Menezes, no Socialista Morena e para o Jornalistas pela Democracia

O relatório “Cooperação Internacional para o Combate ao Coronavírus: Resultados, Lições e Caminho a Seguir”, divulgado no começo de março pelo SIIS (Instituto de Estudos Internacionais de Xangai), um think tank ligado ao governo da China, adverte para o erro de ideologizar as decisões em relação ao coronavírus e defende que só há três respostas racionais para combater a pandemia: solidariedade, cooperação e empatia. Tudo ao contrário do que Donald Trump e seu fã, Jair Bolsonaro, estão fazendo –o filho do presidente brasileiro, Eduardo, inclusive, criou uma crise diplomática com os chineses ao sugerir que o vírus foi criado no país.

“Ameaçado por uma doença mais contagiosa que a SARS e a MERS, o mundo se unirá em solidariedade para impedir que se torne uma pandemia? Ou o medo crescente as fará adotar políticas predatórias em relação a outros países, enfraquecendo os fundamentos da cooperação global em saúde pública? Este vírus que se espalha rapidamente é um alerta para que a comunidade internacional aja rapidamente e em conjunto para construir um mundo globalizado mais seguro? Ou pressagia ainda mais desglobalização em um mundo já assolado pelo nacionalismo virulento?”, pergunta o presidente do instituto, Chen Dongxiao, adiantando que não há respostas fáceis para estas questões.

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O relatório, preparado por especialistas em relações internacionais, alerta para a crescente xenofobia no mundo contra os chineses e os asiáticos em geral. A China afirma que, por ter sido o primeiro país a enfrentar o vírus, tem muito a colaborar com os demais, e que politizar as decisões (como Trump está fazendo e sendo copiado por Bolsonaro) só vai atrapalhar o combate à doença. Os chineses estão colaborando na prevenção e enviando equipamentos médicos para a Itália, Grécia e Espanha, entre outros países.

“Alguns altos funcionários do governo dos EUA estão olhando para a epidemia através do prisma ideológico, envenenando ainda mais a relação entre os EUA e a China em um momento em que deveriam expressar simpatia e trabalhar com suas contrapartes chinesas para dar início à cooperação bilateral em saúde. O resultado da batalha atual e, por extensão, as perspectivas da cooperação mundial em saúde pública dependem de histórias edificantes prevalecerem ou narrativas negativas dominarem”, advertiu Chen Dongxiao no documento. “Empatia e solidariedade, acredito, são a única resposta racional para lutar contra epidemias globais e levar a humanidade a um mundo globalizado mais seguro.”

Altos funcionários do governo dos EUA estão olhando para a epidemia através do prisma ideológico, envenenando ainda mais a relação entre EUA e China em um momento em que deveriam expressar simpatia e trabalhar com suas contrapartes chinesas para dar início à cooperação bilateral em saúde

O especialista recomenda cinco políticas para conter a epidemia no mundo: intensificar a colaboração entre a China, o Japão e a Coreia do Sul para que os três juntos tenham um papel de liderança na Ásia Oriental e na governança da saúde global; melhorar a assistência à saúde nos países em desenvolvimento, sobretudo nos menos preparados para emergências; aumentar as contribuições multilaterais dos bancos de desenvolvimento para o sistema de saúde internacional; acelerar a implementação de mecanismos conjuntos para melhorar as emergências na saúde pública; e aumentar o compartilhamento de experiências e conhecimento sobre prevenção e controle de epidemias.

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Um dos principais obstáculos do combate global ao coronavírus apontados no relatório é justamente a politização das decisões tomadas pelos diferentes governos. Não ajuda, por exemplo, ver o presidente dos EUA, Donald Trump, chamar a epidemia de “gripe chinesa” ou “vírus chinês”, no que é seguido pelo bolsonarismo no Brasil. Eduardo Bolsonaro chegou a justificar a utilização do termo com a “gripe espanhola”, sendo que, historicamente, a epidemia de 1918 não começou na Espanha e sim provavelmente no Kansas.

Como resultado dos ataques do deputado, faixas ofensivas ao presidente da China foram colocadas por bolsonaristas em frente à embaixada do país em Brasília.

“Muitos países e seu povo expressaram simpatia e apoio aos sofrimentos e medidas de prevenção da China, mas certos países e meios de comunicação, sem nenhum conhecimento sólido das rotas e extensão do vírus e quão mortal poderia ser, acusaram o governo chinês de dar respostas inadequadas”, diz o texto. “Não muito tempo depois que o governo impôs bloqueios e restrições de viagens em áreas atingidas, esses detratores começaram a descrever essas medidas vigorosas como draconianas, enquanto negligenciavam suas próprias medidas de controle, a despeito das recomendações da OMS.”

Não muito tempo depois que o governo impôs bloqueios e restrições de viagens em áreas atingidas, detratores começaram a descrever essas medidas vigorosas como draconianas, enquanto negligenciavam suas próprias medidas de controle, a despeito das recomendações da OMS

O documento informa que os especialistas chineses já estão atuando junto a seus homólogos na comunidade internacional para desenvolver remédios e vacinas efetivas contra o coronavírus. Atualmente, mais de 20 vacinas estão sendo desenvolvidas ao redor do mundo. Em 24 de fevereiro, a Faculdade de Medicina de Harvard anunciou uma pesquisa de 115 milhões de dólares, resultado da colaboração entre a universidade e o Instituto de Saúde Respiratória de Guangzhou. A Fundação Bill & Melinda Gates já havia anunciado em 5 de fevereiro que destinaria 100 milhões de dólares para o combate global ao coronavírus. Parte do fundo será usado para apoiar iniciativas chinesas no desenvolvimento de vacinas, tratamentos e diagnósticos.

O relatório também adverte para a necessidade de fortalecer a liderança global contra a pandemia, que deve ser exercida pela OMS (Organização Mundial de Saúde), mas alertou para o sucateamento da entidade, citando um artigo da revista científica The Lancet de 2014. Segundo a publicação médica britânica, a crise na liderança global em saúde, evidenciada nas falhas no combate ao Ebola, deriva dos cortes no orçamento e fuga de cérebros da OMS, que minou sua capacidade de dar uma resposta rápida ao problema. Em plena pandemia, a administração de Donald Trump propôs em seu orçamento de 2021 cortar mais de 3 bilhões de dólares nos fundos para a saúde global, inclusive cortar pela metade a contribuição anual do país à OMS.

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A China advertiu para o sucateamento da OMS, que tem sofrido cortes de orçamento e fuga de cérebros. Em plena pandemia, Trump propôs cortar 3 bilhões de dólares nos fundos para a saúde global, inclusive reduzir à metade a contribuição anual do país à OMS

Em entrevista coletiva na semana passada, o presidente Trump se recusou a admitir os cortes na saúde e preferiu culpar a China, dizendo que o país demorou “semanas ou até meses” para avisar o mundo do coronavírus, que ele continua a chamar de “vírus chinês”. Na verdade, a China avisou à OMS sobre os casos atípicos de pneumonia no país em 31 de dezembro de 2019.

Com Jair Bolsonaro, o Brasil vai pelo mesmo caminho: o país é hoje o segundo maior devedor das Nações Unidas, com uma dívida de mais de 1,7 bilhão de reais. Fica atrás justamente dos EUA de Trump. “Dados oficiais da secretaria-geral da ONU indicam que, nos oito primeiros meses do mandato, o Palácio do Planalto não destinou nenhum centavo ao orçamento regular da entidade internacional, apesar de se tratar de uma obrigação. No total, o Brasil destinou menos de 1 milhão de dólares em 2019 para arcar com os demais custos previstos pela ONU”, informou o jornalista Jamil Chade em setembro do ano passado.

O relatório chinês conclui lembrando que, como enfrentou primeiro o coronavírus, o país tem toda a experiência necessária para ajudar o mundo. “Como principal campo de batalha na luta contra a epidemia de COVID-19, a China fez os maiores esforços, tomou as medidas mais estritas e obteve a mais larga experiência em primeira mão. A prevenção e o controle da epidemia na China alcançaram resultados notáveis. A China está pronta para compartilhar sua experiência com a comunidade internacional e para melhorar a cooperação com outros países e organizações internacionais, incluindo a ONU e a OMS. Acreditamos que juntar esforços no nível internacional é a chave para vencer a guerra contra a pandemia o quanto antes.”

Em entrevista em Genebra na sexta-feira, 21 de março, o diretor-geral da OMS, Tedros Adnahom Ghebreyesus, reconheceu o êxito do combate à Covid-19 pelo governo chinês em Wuhan, epicentro do surto no país. “É uma mensagem de esperança para muitos outros países de todo o mundo”, disse o chefe da organização.

O governo brasileiro, porém, parece estar mais inclinado, por razões puramente político-ideológicas, a seguir o rumo errático estabelecido por Trump.

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