Cinema: Mães da ausência

O que fazer quando a gravidez aponta para a morte, em vez da vida? Eliza Capai abre sua intimidade e a de outras mulheres em “Incompatível com a Vida”

(Foto: Reprodução)


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Eliza Capai ficou grávida e decidiu filmar um modesto diário de sua gravidez. Com o passar do tempo, tomou conhecimento de que o feto tinha uma malformação que o tornava, segundo o diagnóstico médico, “incompatível com a vida”. Seguiu em frente com o filme, registrando sua consternação, seu sofrimento físico e psicológico, bem como a preparação para um aborto. No Brasil, esse diagnóstico não permite uma interrupção legal da gravidez.

O documentário Incompatível com a Vida fornece um arrazoado sobre esse tema a partir do processo vivido por Eliza e por entrevistas realizadas com outras seis mães que passaram por situação semelhante. Realizado durante a pandemia Covid-19 e o governo de extrema direita, o filme transpira o clima de sufocamento vivido pelo país e se abre como um libelo contra o conservadorismo que ainda penaliza tantas mulheres pobres no Brasil.

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A rigor, nem todos os casos são iguais. Há as mães que optaram pelo aborto diante da perspectiva de ter um filho incapacitado minimamente para a vida e outras que preferiram manter a gravidez até a morte inevitável do bebê. Assunto duro, difícil, que Eliza conduz com certo cuidado, amaciando as sequências com “almofadas” audiovisuais de rotinas domésticas e imagens metafóricas na natureza (especialmente na água, símbolo de fertilidade). Mas ela tampouco foge dos aspectos mais dramáticos, culminando com uma tomada perturbadora do feto recém-extraído em suas mãos. 

Os relatos abrangem sonhos, sensações e dilemas vividos pelas mães e, em alguns casos, por seus maridos. A perda do filho desejado traz uma constelação de sentimentos que envolvem o luto antecipado e eventuais consequências sobre a vida dos casais. A ausência, porém, nem sempre anula a permanência da ligação maternal, como demonstra a comovente cena final.

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Eliza franqueia muito de sua intimidade e procura, nas histórias alheias, elementos que ampliem a sua própria experiência. Nem sempre o filme sustenta sua proposta, perdendo-se em devaneios alusivos que não produzem a empatia esperada. Ainda assim, é um trabalho que merece atenção e respeito pelo que diz sobre a urgente necessidade de se regular essa questão de saúde pública entre nós. O júri do Festival É Tudo Verdade reconheceu qualidades suficientes para dar-lhe os prêmios de melhor filme da competição nacional e melhor montagem de longa ou média-metragem (Daniel Grinspum) em 2023.  

>> Incompatível com a Vida está nos cinemas.

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O trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=mlptPNbD8Cc 

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