Coisa do Diabo

“Precisamos levar a sério o que está por aí mesmo sendo desanimador com os dirigentes que temos. Resta ficar em casa lendo, vendo filmes na tv, olhando olho no olho de quem vive com você, se informando nos jornais. É um novo tempo com novos hábitos, novas medidas e espero novas resoluções para o futuro” , por MIguel Paiva

(Foto: Miguel Paiva)

Por Miguel Paiva, para o Jornalistas pela Democracia - Foi o bispo Macedo, mentor religioso e ideológico do Bolsonaro, quem disse que o coronavírus não é essa coisa toda, é invenção de Satanás. Imaginem o povo todo evangélico ouvindo isso e ainda assistindo ao presidente da república circular entre seus eleitores dando a mão e dividindo o mesmo espaço estando ele em quarentena?

Temos um quadro de tragédia anunciada e não precisa ir longe. Da janela da minha casa vejo o povo passando para o trabalho, as pessoas conversando ombro a ombro, os coletivos cheios e a vida que segue como se nada tivesse acontecendo. Pessoas pensam que o coronavírus é doença de rico. "Os ricos viajam e trazem a doença. Nós, pobres, não estamos em risco". Pode até ter começado assim aqui no Brasil, mas mesmo essa hipótese é duvidosa. Dizem que começou nos laboratórios americanos, viajou para a China, matou uma população que de rica não tem nada e acabou se estabelecendo na Europa onde a classe média de países como Itália, Espanha, Alemanha e França paga um preço altíssimo. 

Aqui no Brasil já deixou de ser vírus importado. Circula entre nós sem distinção de classe, gênero ou idade.

São dois Brasis que enfrentam a pandemia. Um que constata justamente a pandemia, que segue as notícias do mundo, que não é levado por explicações toscas e demoníacas e que se preocupa enormemente com o futuro. Se não tomarmos atitudes radicais agora, mais tarde será inútil. O outro país, não informado, crente em todos os sentidos sobretudo em relação ao que dizem os bispos do apocalipse, não vê problema ou não pode ver. Proíbem o público nas partidas de futebol mas demoram em proibir as partidas. Por quê? Os jogadores podem se contaminar? São os novos gladiadores desses tempos de pão e circo?

Quem gostaria de se precaver é obrigado a pegar o transporte público lotado, passar o dia no ambiente de trabalho sem cuidados porque o patrão certamente não quer saber de perder dinheiro. Na luta entre capitalismo e o coronavírus, o capitalismo , aqui no Brasil, vai vencendo de braçada. Apesar da bolsa sinalizar que pode ficar doente sem que nenhum circuit breaker dê conta, o brasileiro, seja ele capitalista ou trabalhador, prefere ignorar o risco.

Brasileiro tem a mania de achar que tudo pode se resolver na boa. Deus é brasileiro, afinal. Não julgaram os militares assassinos da ditadura de 64 porque preferiram acreditar na boa vontade de todos, no espírito cristão e na pizza servida geral. O sabor AI-5 acabou deixando um gosto amargo e saudosista na boca de vários. Em relação à ameaça que vivemos é a mesma coisa. Não vai acontecer por aqui. Quem somos nós, o país alegre do futebol e do carnaval, para sermos dizimados por um vírus gringo? Vamos pra praia, aproveitar a quarentena pra curtir mais um pouco esse sol maravilhoso. Vamos pra frente do Palácio do Planalto aplaudir nosso brilhante presidente que, como Mao Tsé Tung que saiu nadando pelo rio para provar sua imortalidade, sai dando a mão e acenando bem de pertinho para o povo que o mitifica. Se for assim nosso futuro é brabo.

Faço parte desse Brasil primeiro, o que vê o resto do mundo e se assusta. O Brasil que prefere esperar um ou dois meses para depois poder retomar a vida ao invés de ter que correr atrás de uma sobrevivência perigosa num país onde o sistema de saúde sofre pela falta de recursos.

Alguns países da Ásia já provaram que é possível frear o avanço do vírus. Tomaram medidas radicais e com isso reverteram o quadro. A globalização prevê também que a uma certa altura as fronteiras desse globo sejam fechadas para que o planeta sobreviva. Precisamos levar a sério o que está por aí mesmo sendo desanimador com os dirigentes que temos. Resta ficar em casa lendo, vendo filmes na tv, olhando olho no olho de quem vive com você, se informando nos jornais. É um novo tempo com novos hábitos, novas medidas e espero novas resoluções para o futuro.

Dependemos disso e não custa nada, a não ser a própria vida.

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