Coletes amarelos: Uma raiva explosiva em todo território francês

Há muito tempo que a raiva se encontrava abafada. Há muito tempo que os franceses assistem à perda de conquistas sociais em nome da eficácia econômica e de um estado capitulado face à ideologia neoliberal. Há muitas décadas que a França sofre de apatia política e o sistema democrático francês com sua 5°. República parece em estado de falência

Coletes amarelos: Uma raiva explosiva em todo território francês
Coletes amarelos: Uma raiva explosiva em todo território francês

Há muito tempo que a raiva se encontrava abafada. Há muito tempo que os franceses assistem à perda de conquistas sociais em nome da eficácia econômica e de um estado capitulado face à ideologia neoliberal. Há muitas décadas que a França sofre de apatia política e o sistema democrático francês com sua 5°. República parece em estado de falência.

É de se perguntar por que um país que tanto marcou a história social da política mundial, não pode hoje renovar a relação entre seus eleitos e o povo, entre a relação do Estado com a sociedade civil. Existe hoje um déficit de regulação democrática e de representatividade dos atores sociais no espaço público político. A representação na assembleia e no senado não corresponde a diversidade das categorias sociais da população francesa. Os ditos representantes do povo são oriundos da elite francesa, fortemente diplomados, que trabalham em setores profissionais favorecidos ou são altos funcionários públicos. As classes populares não se sentem representadas.

O movimento espontâneo dos “coletes amarelos” é uma reação em cadeia e ele aglutina todas as raivas incontidas durantes décadas. Muitos buscam comparar com outros movimentos ocorridos nos países árabes ou no Brasil, os contextos são completamente diferentes. Os comentaristas e seus convidados dos jornais de informações permanentes em Paris, além de  bombardear os telespectadores com as imagens de violências, eles e seus convidados em geral, quando fazem referências com outras revoltas populares, sempre o fazem com uma ponta de ironia ou menosprezo das lutas populares, principalmente ao se referir a fatos históricos que marcaram o imaginário francês, entre estes, a revolução, a comuna de Paris, maio 68. Outros fazem referências ao movimento “pujadista” (1) tentando ligar o movimento dos coletes amarelos com a extrema direita.

A busca de referências históricas segundo a historiadora Mathilde Larrère é um mecanismo muito clássico na história dos movimentos sociais, e persegue vários objetivos. Para os atores que se mobilizam, trata-se de reivindicar uma herança, de inserir dentro de uma continuidade e de dar maior visibilidade ao evento. Os coletes amarelos referem-se, em suas etiquetas ou slogans, à Revolução Francesa, um evento popular em sua dimensão sociológica e histórica. Por outro lado, há muito pouca referência à Comuna, como é frequentemente o caso nos movimentos dos trabalhadores; A Comuna segundo a historiadora é uma lembrança muito parisiense.

Na França existe uma tradição de confronto popular desde a idade média. Em geral, quase todos os movimentos se iniciaram de modo espontâneo e não estruturado. A violência na época passada é incomparável com o que existe hoje. A sociedade francesa é muito mais pacífica do que anteriormente! Antes não existia a televisão que reforça as imagens de violência do lado dos manifestantes. O impacto das imagens chega a concentrar o debate sobre a violência deixando por vezes de lado, as análises das causas que levaram a organização desse movimento e o porquê da adesão e aprovação da maioria dos franceses.

Impossível dissociar o que ocorre hoje com o avanço da ideologia neoliberal que se propagou na Europa e no mundo. Essa doutrina vai difundir no corpo social a competitividade, lucratividade e meritocracia que serão as palavras-chave do discurso formatado martelado durante décadas até ganhar a adesão da opinião pública. O neoliberalismo como ideologia vê a competição como a principal característica das relações humanas. Além de considerar as instituições soberanas e o Estado providência como obstáculos às trocas econômicas e aos fluxos financeiros. De um modo frontal, ela afirma a supremacia da economia e do mercado sobre os valores humanos e sobre o meio ambiente.

Emmanuel Macron é o presidente francês que melhor representa esta ideologia neoliberal. Ele se apresentou como um candidato fora do sistema, fez severas críticas aos partidos políticos e todos os corpos intermediários, principalmente aos sindicatos. O atual presidente francês, se apresentava como um candidato “apolítico”, ele não era nem de esquerda e nem de direita. Criou uma clivagem entre o velho e o novo. Certamente a “macromania” foi forjada em um desses laboratórios do novo pensamento político, ou seja, a mensagem política de guerra às ideologias, os novos adeptos do “nem esquerda e nem de direita” ou de “direita e esquerda”. Aliás, a ideologia neoliberal sempre agiu para desmantelar os valores de esquerda e criar uma despolitização para poder impor suas ideias.

Hoje Emmanuel Macron se encontra encurralado em suas próprias contradições A questão, hoje do movimento dos coletes amarelos não se traduz somente no aumento da taxa sobre os carburantes, são todos os tipos de injustiças fiscais, sociais e ambientais que afloram junto à população. O governo do presidente Emmanuel Macron, que tanto denegriu os partidos políticos e que fez campanha eleitoral enaltecendo que ele tinha uma “oferta” política de ideias novas. Dizia também, que seu movimento “Em marcha” não precisava de partidos. Hoje os Macronistas têm dito que os ‘coletes amarelos’ não têm representação, “não tem organização política”. Ou seja, a vontade de despolitização da sociedade gerou a situação atual. Mais do que nunca a política está presente no quotidiano vivido pelas camadas populares, mesmo que alguns digam que são apolíticos.  

Costuma-se dizer que a percepção dos cidadãos como atores ou espectadores do cenário político e social depende, entre outras coisas, da cultura política do país. Na França, os cidadãos sempre foram mobilizados através de corpos intermediários (existência de várias organizações sociais de intermediação com o Estado, por exemplo, sindicatos, associações, autoridades locais, partidos políticos ...) que hoje são desconsideradas pelo Presidente Macron que ignora todos corpos intermediários. Mesmo que o mundo sindical se encontre enfraquecido e não tenha se renovado face às mudanças no mundo do trabalho, a existência de representação social é fundamental para uma democracia.

Emmanuel Macron e seu governo não respondem à explosão da raiva social ou à emergência climática. Seu governo vem agravando a situação socioeconômica, política e ambiental, com medidas fiscais que atingem as camadas mais pobres, enquanto isso, ele multiplica gestos e benefícios de isenção fiscais em favor dos mais ricos. Para o ex-banqueiro, não há questionamento do sistema econômico. Segundo relatório de OXFAM os 6 maiores bancos franceses (BNP Paribas, Societé Generale, Crédit Agricole, Banques Populaires Caisse d'Epargne, Crédit Mutuel CIC e Banque Postale continuam a apoiar massivamente as energias que produzem mais gases de efeito estufa. De 2016 a 2017, eles reduziram seu financiamento para energias renováveis. O governo sempre teve um discurso ecológico contraditório com sua prática.

Em toda parte, na França, os cidadãos estão revoltados e estão manifestando sua raiva. A explosão desta raiva não se restringe ao aumento dos impostos sobre o combustível, ela está ligada a baixa do poder aquisitivo para assegurar a sobrevivência. Trabalhadores assalariados, funcionários ativos e aposentados, cidadãos expressam uma raiva legítima para obter os meios para viver com dignidade e com mais justiça social.

A realidade é que hoje a maioria dos franceses são rejeitados nas margens das cidades por causa do alto custo da moradia. A vida nas periferias das cidades se degrada por falta de serviços públicos de proximidade e falta de oportunidade de trabalho. As classes populares não têm alternativas de transporte público para substituir o velho carro. Nas pequenas cidades muitos trens foram suprimidos, os transportes públicos são escassos. As zonas industriais e serviços estão desertas. Tudo isto é insuportável e de grande violência à dignidade humana.  Diante deste drama nacional a população francesa é solidaria ao movimento de Coletes amarelos, a última sondagem é que mais de 80% têm opinião favorável.

O governo acaba de renunciar o aumento dos impostos sobre combustíveis para 2019, porém permanece surdo sobre outras reivindicações que poderiam melhorar as condições de vida dos mais pobres. O Presidente Macron é considerado como o Presidente dos ricos. Um dos coletes amarelos que eu encontrei no metro disse-me: Nós denunciamos este governo que tributa os mais pobres, os mais desmunidos para enriquecer os poucos ultras ricos. Não aceitamos mais migalhas e se ele quer continuar no poder, ele tem que restaurar o imposto sobre as grandes fortunas e aumentar o salário mínimo pelo menos de 20%. Aceitamos pagar imposto para garantir os serviços públicos de qualidade. Somos pela justiça fiscal!

Ao sair do metrô o jovem do subúrbio parisiense gritou: Macron demission !!!! e ele foi aplaudido por muitos...

 

(1) Pujadismo foi um movimento reivindicou a defesa de comerciantes e artesãos, que considerou ameaçados pelo desenvolvimento de supermercados na França do pós-guerra, ele condenou a ineficiência do parlamentarismo como praticada sob a Quarta República.

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