Com eleição indireta, Globo fará sucessor de Michel Temer

"Flagrado em vergonhosos diálogos de operadores clandestinos da política, Michel Temer aposta na covardia da TV Globo perante uma eleição direta para tentar permanecer no cargo de qualquer maneira", afirma Paulo Moreira Leite, articulista do 247; "Nem o sociólogo mais preguiçoso, daqueles que só leram Weber, Marx e Durkheim em apostila, seria capaz de acreditar que a troca de um presidente ilegítimo por um segundo presidente sem legitimidade poderia ser boa para um país que rasteja numa longa crise"; para PML, "num exótico projeto de transição sem povo, tenta-se afastar Temer para preservar um programa anti-popular que a população rejeita, numa velha repetição daquele truque em tudo parece mudar para que nada mude"

"Flagrado em vergonhosos diálogos de operadores clandestinos da política, Michel Temer aposta na covardia da TV Globo perante uma eleição direta para tentar permanecer no cargo de qualquer maneira", afirma Paulo Moreira Leite, articulista do 247; "Nem o sociólogo mais preguiçoso, daqueles que só leram Weber, Marx e Durkheim em apostila, seria capaz de acreditar que a troca de um presidente ilegítimo por um segundo presidente sem legitimidade poderia ser boa para um país que rasteja numa longa crise"; para PML, "num exótico projeto de transição sem povo, tenta-se afastar Temer para preservar um programa anti-popular que a população rejeita, numa velha repetição daquele truque em tudo parece mudar para que nada mude"
"Flagrado em vergonhosos diálogos de operadores clandestinos da política, Michel Temer aposta na covardia da TV Globo perante uma eleição direta para tentar permanecer no cargo de qualquer maneira", afirma Paulo Moreira Leite, articulista do 247; "Nem o sociólogo mais preguiçoso, daqueles que só leram Weber, Marx e Durkheim em apostila, seria capaz de acreditar que a troca de um presidente ilegítimo por um segundo presidente sem legitimidade poderia ser boa para um país que rasteja numa longa crise"; para PML, "num exótico projeto de transição sem povo, tenta-se afastar Temer para preservar um programa anti-popular que a população rejeita, numa velha repetição daquele truque em tudo parece mudar para que nada mude" (Foto: Paulo Moreira Leite)

Descontando opções risíveis, como uma imaginária convicção da própria inocência, o "eu não renuncio" de Michel Temer se alimenta de um acordo essencial com a TV Globo.

Ambos devotam um temor invencível pelo voto popular e não têm a menor disposição de correr o risco -- contingência natural de toda democracia -- de convocar uma eleição que possa questionar seu projeto de entrega das riquezas do país aos senhores de Londres, Paris e Washington, deixando algumas migalhas para uns poucos aliados locais.

Voltando aos fatos. Há dois dias, quando William Bonner abriu o Jornal Nacional chamando Temer de ex-presidente, a TV Globo, Fernando Henrique Cardoso e demais patrocinadores da deposição de Dilma Rousseff iniciaram o movimento de uma exótica transição sem custos. A fórmula é até grosseira: despejar Temer e escolher quem vai ocupar seu lugar.

Neste processo, vamos deixar de lado aparências e salamaleques. O mais importante é encontrar um candidato capaz de agradar à Globo -- a única voz, entre tantas envolvidas, capaz de se fazer ouvir por uma parcela da população. 

O projeto é livrar-se  de Temer e de uma escória política que se tornou fonte permanente de instabilidade e risco de naufrágio, numa operação sem voto popular, entre amigos selecionados e fiéis, a ser respaldada pelo mais desmoralizado Congresso da história republicana. 

Resumindo: querem devorar todos os pratos do banquete mas querem demitir os garçons e cozinheiro, a serem despachados sem piedade para as masmorras da República de Curitiba.

Ao dizer "não renuncio", Temer mandou avisar que desse jeito está fora do jogo.

A decisão, que é uma surpresa apenas para quem não olhou a folha corrida dos convidados do golpe de maio-agosto, criou um novo fator de crise e contradição.

O sucesso de todo espetáculo de mágica exige rapidez e perícia para que a platéia não tenha condições de saber  como foi o truque e voltar feliz para casa, neste doloroso Brasil de maio de 2017. 

A ideia é reencenar uma versão -- grosseira, sem refinamento -- da velha parábola de dom Tomasi di Lampedusa, que no romance O Leopardo sintetizou a trapaça das ilusórias  operações políticas em que tudo parece mudar só para que nada mude.

Esta é a trapaça do golpe dentro do golpe, onde senhores sem disposição para reconhecer os poderes soberanos do povo disputam o poder com ânsia, dinheiro e cinismo.

Afasta-se Temer, mas permanece a equipe econômica que arquitetou a austeridade de 20 anos,  o desemprego, o desmanche dos programas sociais, a reforma da Previdência e os demais ítens do mesmo pacote, que a população rejeita com veemência mas garante o carinho e a simpatia do mercado financeiro. Assumindo a perspectiva da pós-democracia, mãe da pós-verdade, fala-se até num governo que preserve a política econômica como exclusividade do empresariado, reservando o dever de repressão e o direito de distribuir  esmolas a autoridades eleitas. 

O argumento para preservar uma política econômica que jamais obteve apoio nas urnas é que não se deve mexer na Constituição de 1988, santificada após tantos ataques de forma e conteúdo.

Só para recordar a nossos constitucionalistas: em seu artigo número 1, parágrafo único a Carta de 1988 informa que "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição." Vamos raciocinar.

Embora a carta reconheça o lugar dos "representantes eleitos", a desmoralização transforma um pleito indireto, no Brasil de hoje, num insulto à noção principal, à verdade original, de que "todo poder emana do povo." Alguém discorda?  

A verdade é que se procura empossar um presidente ilegítimo por segundo presidente sem ilegitimidade. Nem o sociólogo mais preguiçoso -- que leu Max Weber, Emile Durkheim e Karl Marx em resumo de apostila -- seria capaz de dizer que é uma solução boa para o país que rasteja numa longa crise.  

A postura de Temer, claro está, não se baseia na presunção da própria inocência -- incompatível com a linguagem de operadores do submundo político flagrada pelo gravador de Joesley Batista.

Trata-se da permanente luta pela auto sobrevivência, de quem não recebeu sequer uma oferta para deixar o cargo em segurança, depois de um inegável conjunto de serviços prestados a seus senhores. Só para dar um exemplo num episódio clássico.

Em 1974, Richard Nixon só deixou a Casa Branca, após um ano e meio de piruetas para safar-se das denúncias do Watergate, depois de um acordo que lhe garantiu anistia total contra qualquer crime que pudesse ter cometido -- mesmo aqueles que nem tinham sido descobertos. 

Festejando o primeiro aniversário do golpe num merecido ambiente de velório, Temer aposta na covardia política dos aliados da véspera perante todo e qualquer movimento popular para permanecer onde se encontra.

Com aquela perícia de quem se especializou em manobras pequenas em nome de interesses sempre menores, sabe que a insistência no voto indireto para escolha de seu sucessor desmobiliza os brasileiros, representa uma tentativa de esvaziar as ruas e pode lhe dar algum fôlego para sobreviver.

Este é o fundo da crise, hoje.

A primeira resposta a essa trama será vista nos próximos dias, com o crescimento das mobilizações que pedem: "Fora, Temer!", "Diretas-já!"

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