Com licença, mas hoje vou ser piegas

"Foram todos, vítimas, em última instância, de uma insanidade redobrada. A da pandemia sem controle e a da ignorância", escreve a jornalista Denise Assis, que acrescenta: "há uma pesquisa reunindo a vontade expressa do povo" e o "ex-presidente Lula pode vencer a eleição de 2022 no primeiro turno, segundo dados do Ipec"

Ato contra Jair Bolsonaro, cemitério em SP com vítimas da Covid-19 e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Ato contra Jair Bolsonaro, cemitério em SP com vítimas da Covid-19 e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: REUTERS/Carla Carniel | Mídia Ninja | Ricardo Stuckert)
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Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Hoje, me permitam, quero um espaço para a pieguice. Quero um espaço para as lágrimas que cismam em pingar sobre as letras impressas do jornal que leio – sim, ainda leio jornais em papel. Elas nascem a cada sentença das notícias ruins que se sucedem e me impelem a um ímpeto irrealizável: o de sair pelo país abraçando afetuosamente a cada familiar que perdeu um ente querido para a pandemia. Os que foram e os que não foram computados. Os que acreditaram ou os que não acreditaram na nulidade dos remédios empurrados goela abaixo. Foram todos, vítimas, em última instância, de uma insanidade redobrada. A da pandemia sem controle e a da ignorância, da onda de ódio e fanatismo despertos dentro de uma parcela de pessoas que fingiam civilidade.

Chegamos a um ponto em que se lamenta mais a morte da plantinha da varanda do que a do vizinho, por Covid-19. Houve quem entregasse a mãe para um experimento, em nome de uma política de “reaquecimento” dos seus negócios, e fosse dar uma volta de motocicleta, na garupa do algoz da própria mãe. A dor que não se abateu sobre aquele homem, foi redistribuída em cupons. Parece que entregaram aqui em casa um volume maior e hoje fui usufruir deles.

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Ouço “Introspection”, de Luiz Bonfá, enquanto escrevo. Sim, também costumo ainda ouvir CDs. Este me faz mergulhar em uma nostalgia marina que salga as minhas narinas, distantes do vento praieiro que já não frequento. Ao mesmo tempo, me traz um Brasil que já não tenho. O que está nas páginas do jornal é um Brasil que já não reconheço. O jornal de hoje me joga no filme que vi ontem, sobre a Segunda Guerra. Não. Não é o som dos canhões, as pernas amputadas, as imagens que mais me chocam. São as notícias dos experimentos. São os corpos aviltados, a servir de cobaias. Os do filme? Não. Os que estão descritos no jornal de hoje.

Recorro na estante a Hannah Arendt. Ela com certeza terá algo a me dizer sobre este momento dramático e dolorido. Como previa, me identifico com uma de suas frases da coletânea “Homens em tempos Sombrios”.

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“A história conhece muitos períodos de tempos sombrios, em que o âmbito público se obscureceu e o mundo se tornou tão dúbio que as pessoas deixaram de pedir qualquer coisa à política além de que mostre a devida consideração pelos seus interesses vitais e liberdade pessoal”. Pois é só isto que peço, hoje. A devida consideração pela minha liberdade pessoal de não ser, depois de ler as páginas do jornal, forte. Hoje não.

Na mesma editoria, no mesmo espaço dedicado à política, há motivos para “esperançar”. Há uma seta apontando para uma direção em que podemos chegar, com um pouco mais de resiliência e resistência. Há uma pesquisa reunindo a vontade expressa do povo, na direção oposta ao fosso em que nos encontramos. É uma boa notícia. Sem dúvida. O ex-presidente Lula pode vencer a eleição de 2022 no primeiro turno, segundo dados do Ipec, instituto de pesquisas que substituiu o tradicional Ibope. Antes, porém, precisamos ter certeza de que teremos eleições e poderemos disputá-la de modo correto e limpo. Deixemos para a Cinderela o sapatinho de salto alto, de cristal. Vamos cuidar para que o nosso não se quebre. Esperançar, sim. Ingenuidade, jamais. Temos luta pela frente. 

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