Com lucros anuais de R$ 24 bilhões, Itaú doa R$ 1 bilhão à luta contra covid-19

Num país onde não se paga imposto sobre lucros e dividendos, contribuição de R$ 1 bilhão para a luta contra a covid-19 equivale a menos de um vigésimo dos lucros anuais de grandes bancos", escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

Banqueiro Cândido Bracher, presidente do Itaú.
Banqueiro Cândido Bracher, presidente do Itaú.
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O anúncio de que o Itaú decidiu fazer uma doação de 1 bilhão de reais para a luta contra o coronavírus não precisa comover ninguém.

Acima de tudo, a decisão reflete nossa desigualdade estrutural, alimentada cotidianamente por um dos sistemas tributários mais injustos do planeta.
Não há dúvida de que, se for bem empregado e bem monitorado, esse dinheiro pode ter grande utilidade para o país, onde a atuação nociva de Bolsonaro torna tudo mais difícil no esforço para vencer uma das mais devastadoras pandemias da História.

Por exemplo: levantamento junto a 34 produtos e insumos emergenciais para o atendimentos das vítimas da covid-19 mostra que o país chegar a pagar até185% acima do valor inicial de mercado (Folha de S. Paulo, 13/04/2020).

Este absurdo é consequência inevitável da postura de um governo que definiu o novo coronavírus como "gripezinha". Assim, deu tempo para que produtores, intermediários e especulares tirassem proveito de uma gigantesca elevação da demanda ocorrida num tempo de urgência e medo.

O ponto importante é outro, porém. Essa doação até pode produzir resultados positivos. Mas representa uma quantia até modesta quando se compara com os lucros e dividendos que os acionistas de bancos e outras instituições financeiras tem embolsado ano após ano, sem precisar retribuir seus ganhos com a sociedade.

Num dos dois únicos países do mundo onde não se paga impostos sobre lucros e dividendos -- o outro é a Estônia -- no último levantamento conhecido, em 2018, o Itaú teve um lucro-recorde de R$ 24,9 bilhões, o maior de sua história -- valor equivalente a quase 24,9 vezes o donativo agora anunciado.

O lucro total dos cinco maiores bancos também não foi modesto. Atingiu R$ 69 bilhões. Para 2019, cujo balanço ainda não foi encerrado, prevê-se um novo recorde. Apenas no terceiro trimestre, os lucros do Itaú atingiram R$ 5,6
bilhões. Neste período, o maior desempenho foi do Bradesco: R$ 5,8 bilhões.

Nessa situação, é possível fazer uma conta didática. Caso grandes acionistas pagassem impostos com base nas alíquotas-padrão da Receita-- o que já seria um absurdo pelo volume das fortunas envolvidas -- sua contribuição teria atingido um patamar infinitamente maior do que o donativo anunciado. No caso do Itaú, em 2018 teria sido superiora R$ 8 bilhões.

Outra lembrança útil. Em 2007, uma campanha com apoio unanime do baronato nacional, com destaque para o setor financeiro, eliminou a CPMF, tributo que assegurava R$ 20 bilhões por ano ao sistema de saúde.

Para completar, o Teto de Gastos, instituído com entusiamo pela mesma turma, retirou 20 bi da saúde entre entre de 2018 para cá.

Cabe reconhecer, sempre, que iniciativas de caráter filantrópico podem ter utilidade prática numa situação de grave penúria, organizada pelo mais perverso governo de nossa história.

Também vale registrar que, com o cheque de 1 bi, o Itaú eleva sua influência e acumula poder político. Isso permite interferir no debate nacional, dar voz para determinados pontos de vista em prejuízo de outros.
Anunciado como presença de destaque no projeto, a ser coordenado pela Fundação do próprio banco, o médico Drauzio Varella é uma referência importante. Cabe pergjntar se outras vozes terão a mesma influencia e o mesmo alinhamento com as necessidades da maioria da população brasileira?

Por fim, uma questão sobre a conjuntura. Essa iniciativa acontece numa hora em que o país começa a questionar um sistema de impostos e tributos que ajuda reproduzir as desigualdades e injustiças que produziram a terrível situação do Brasil de hoje.
Alguma dúvida?

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