Com o Supremo, com tudo

"Está em vigor a ditadura jurídico-midiática, em que entra em cena o vale tudo. À medida que o ambiente político se agrava e as tensões vão sendo elevadas ao máximo, não há mais regras. Não para eles. Só a pressão (ou Glenn) nos salva", avalia a jornalista Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia 

Desculpem a vulgaridade da expressão, mas não tem outra mais apropriada para o momento: “Zona no galinheiro!” Está em vigor a ditadura jurídico-midiática, em que entra em cena o vale tudo. À medida que o ambiente político se agrava e as tensões vão sendo elevadas ao máximo, não há mais regras. Não para eles. Só a pressão (ou Glenn) nos salva.

Não contavam, porém, com a surpreendente disposição com que a Veja entrou pela segunda vez na publicação do material da Vaza-Jato. (Ainda que, no final, numa nota da redação, marquem posição de “isentões”). As novas conversas trazidas a público deixam ver, por exemplo, que em matéria de cinismo o do ex-senador Romero Jucá é genuíno, do mais alto teor e, pelo menos quando o pratica, o faz com sinceridade. A contradição, perdoem, não está na afirmação, mas na realidade. O golpe estava se dando, mesmo, “com o Supremo, com tudo”. Não há como deixar de lembrar sua fala, quando nas páginas da reportagem exibida hoje o chefe da força-tarefa da Lava-Jato conversa com um dos ministros e comemora, como um chefe da torcida “Raça Rubro-Negra”: “Caros, conversei 45 m com o Fachin. Aha uhu o Fachin é nosso”. Dos 11 que compõem a Suprema Corte, dois já foram pegos nas teias da operação. Quem serão os próximos?

Até aqui, o ex-juiz Sergio Moro vinha afirmando – e até mesmo na nota que emitiu depois da publicação, com os seus costumeiros erros de português e linguagem “oblíqua” – reafirma, a sua dúvida quanto à autenticidade do material. Mas, flagrado em conselhos de media training para com Dallagnol, o apresentador Fausto Silva apressou-se em dizer que sim, a colaboração existiu, reconhecendo firma na documentação. O que o profissional mais bem pago da Globo está fazendo nesta história? Fica difícil explicar, mas dentre tantos pontos obscuros este é apenas mais um “detalhe”. Ou melhor, Faustão foi apenas mais um dos tantos que colocaram uma pedrinha no pedestal do herói (?).  

Três pontos são cruciais nestas novas revelações. Ponto um: Moro mentiu para o ex-ministro Teori Zavascki, a fim de manter sob a sua asa o processo que condenaria, calcado em “convicções”, o ex-presidente Lula. A disputa surda que se estabeleceu entre Moro e Teori, não precisou ser resolvida no campo profissional. Um acidente cercado de dúvidas jamais sanadas permitiu a Moro seguir com as suas manobras e ficar à frente do caso. Mensagens indicam que os procuradores e o então juiz temiam que o ministro Teori, relator da Lava Jato no STF, desmembrasse os inquéritos sob controle de Moro em Curitiba e os esvaziasse, quando o juiz imprimia ritmo acelerado aos trabalhos.

Ponto dois: Moro omitiu provas, quando não permitiu que viesse a público uma planilha, contendo nomes com foro privilegiado, o que o obrigaria a mandar o material para o STF.

Ponto três: quando se mostra contra a delação de Eduardo Cunha, pois sabia que os nomes que surgiriam seriam os do esquema de Michel Temer. Não era possível, naquele momento, mexer no núcleo do golpe. A missão era levar a termo a sua consolidação, a fim de deixar o “síndico” concluir suas tarefas neoliberais, até a eleição. Michel deveria entregar o bastão para um tucano ou alguém que FHC indicasse. Este era o coroamento do golpe, e nada poderia se interpor neste caminho. Obstinado, Moro trabalhou neste sentido, até que percebeu um alazão passar selado por ele. Não titubeou. Pegou as rédeas e galopou, trocando de baia. Só não percebeu que bateu forte demais com o relho e o alazão desembestou. Aguardemos a hora do tombo.

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