Como era o mundo a última vez que a Portela tinha sido campeã

No último ano em que a Portela havia sido campeã, Lobão e Roger eram rebeldes de esquerda, Eduardo Cunha era um aprendiz da corrupção e coxinha era apenas um salgadinho de festa. Em 1984 Eike Batista ainda garimpava ouro, Sergio Cabral nem sonhava em falir o Rio de Janeiro

Como era o mundo a última vez que a Portela tinha sido campeã
Como era o mundo a última vez que a Portela tinha sido campeã

Finalmente o jejum foi quebrado. Após 33 anos de muita angústia, alguns vice-campeonatos e um tanto de sofrimento, a azul e branco de Madureira sagrou-se campeã do carnaval carioca. Glória! Aleluia! Saravá! Hare krishna! Sallaam Aleikum! Fora Temer! A Portela fez a festa! Uma das mais tradicionais escolas de samba do Brasil, e maior campeã do carnaval carioca, volta ao primeiro lugar no pódio do samba. Mais do que merecido e sem contestações.

Com um enredo batizado com um verso de um samba do genial e portelense, Paulinho da Viola - “Foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar” - a Águia voou mais alto na Sapucaí. A vitória foi sofrida. Apenas um décimo separou a campeã da Mocidade Independente de Padre Miguel, segunda colocada. Pura emoção. Mas depois de tanto tempo sem vitórias, bate aquela curiosidade de saber como era o mundo a última vez que a Portela tinha sido campeã.  Eu já era nascido, mas era criança. Então pedi a ajuda do Google e voltei a 1984.

A última vez em que a Portela havia conquistado um título, a nossa moeda ainda era o Cruzeiro, o Fábio Júnior ainda estava no primeiro casamento e o Neguinho da Beija-Flor tinha a mesma cara que tem hoje. Aliás, do que se alimenta o Neguinho? Desde que eu me entendo por gente ele já era o cantor oficial da Beija-Flor e a cara dele não muda. O cara não fica velho. Em 1984 os militares ainda estavam no poder, o Papa Francisco ainda era padre e a novela das oito começava realmente às oito horas. Por coincidência a novela que estava no ar no horário era “Partido Alto”, cuja trama girava em torno de um bicheiro, patrono de uma agremiação carnavalesca e tinha como música de abertura:  “Enredo do meu samba”, composição de Jorge Aragão, interpretada  pelo vozeirão de uma elétrica Sandra, que ainda não era de Sá.

A última vez em que a Portela tinha sido campeã, Edir Macedo ainda era dono de uma humilde igrejinha, tinha Valdemiro Santiago como ovelha, realizava apenas pequenos milagres, como cura de resfriados e unhas encravadas e ainda acreditava em Deus. Em 1984 nascia o Junior Lima, irmão da Sandy, que poucos anos depois já estaria junto com a irmã, dando uma dura na Maria Chiquinha para saber o que ela foi fazer lá no mato. Também em 1984, Madonna ainda se sentia como uma virgem (Like a virgin), Xuxa ainda era uma simples plebeia na rede Manchete e a Gretchen tinha a bunda mais cobiçada do Brasil. Faz tempo, hein? Tanto tempo que o telefone celular ainda nem tinha chegado por aqui, os telefones públicos funcionavam com o uso de fichas e uma linha telefônica residencial era considerada um bem material valiosíssimo. Dava até a briga no testamento da família.

No último ano em que a Portela havia sido campeã, Lobão e Roger eram rebeldes de esquerda, Eduardo Cunha era um aprendiz da corrupção e coxinha era apenas um salgadinho de festa. Em 1984 Eike Batista ainda garimpava ouro, Sergio Cabral nem sonhava em falir o Rio de Janeiro e eu só queria ganhar um beijo na boca da Aline Florípes, minha colega de turma no colégio. Ela era o número 1 da lista de chamada e eu deveria ser o último na sua lista de beijo na boca. Paciência! O mais importante naquele ano, além do título da Portela, era a nova música do Michael Jackson, que ainda era preto e fez “Thriller” ser o víd eo clipe mais assistido da história da TV americana. E eu deslizava fácil no passinho moonwalker. Há testemunhas. Podem acreditar.

Dizem também que foi em 1984 que Adolf Hitler teria dado os seus últimos suspiros em vida e que isso teria acontecido aqui no Brasil, onde, segundo a lenda, ele vivia anonimamente como um lavrador no interior do Mato Grosso. Coincidentemente nessa mesma época, Jair Bolsonaro já começava a despontar, incitando rebeliões entre os seus colegas militares, em protesto por melhores salários para a categoria. Estaria o “Mito” tendo aulas de nazismo com o velho ditador alemão escondido no Mato Grosso? A julgar por algumas de suas idéias atuais, eu creio que Hitler tenha feito a sua cabeça antes de ir para o inferno. Mas isso é só intri ga da oposição.

Em 1984 ainda era permitido atrasar a bola para o goleiro e este pegá-la com as mãos, Roberta Close ainda tinha pinto e o atual presidente da república, Michel Temer, então com 43 anos de idade, aguardava o nascimento de sua atual esposa e primeira dama do país.  Vale lembrar ainda que no mesmo ano, acabava de ser inaugurado o sambódromo carioca e que por conta disso, o desfile foi divido em dois campeonatos. Um no domingo e o outro na segunda-feira. A Portela foi a campeã do domingo e a Mangueira a campeã da segunda-feira. Mas dessa vez não teve choro e nem vela. A taça é só da Portela. Parabéns, a maior campeã do carna val carioca!

Há 33 anos. Direto do túnel do tempo.

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