Coronavírus e seu xeque-mate: não podemos mais fugir dos nossos problemas estruturais

Em meio ao pânico que a pandemia do novo coronavírus provoca, uma reflexão surge triunfante, impassível, fundamental: não podemos mais fugir dos nossos problemas estruturais

(Foto: Reuters)

Em meio ao pânico que a pandemia do novo coronavírus provoca, uma reflexão surge triunfante, impassível, fundamental: não podemos mais fugir dos nossos problemas estruturais.

Neste momento, o Covid-19 nos encara sem pudor nem piedade, nos golpeando bem na boca do estômago, replicando-se e nadando de braçada em um país com profundas desigualdades sociais, econômicas, raciais, de gênero e tudo o mais que nos deixa cada vez mais distante de uma nação livre, justa e solidária, como idealiza a Constituição Federal de 1988.

Uma pandemia, por si só, já é algo catastrófico. Em maior ou menor grau, ela desperta sentimentos obscuros e inconclusos dentro das pessoas: medo, ansiedade, incerteza quanto ao futuro. Porém, em um país como o nosso, segregado, que mal provê o mínimo de saneamento básico aos seus cidadãos, uma pandemia pode ter “proporções apocalípticas”, para usar aqui as palavras do secretário-geral da ONU, Antonio Guterrez, em carta enviada aos líderes do G-20, na segunda-feira (23).

Não bastasse não encararmos de frente os nossos problemas estruturais, históricos, que minguam sem dó as nossas esperanças de ser um país verdadeiramente igualitário e bem desenvolvido social e economicamente falando, elegeu-se, em 2018, como presidente da República, um sujeito autoritário e que parece viver fora da realidade, incapaz de tomar qualquer decisão lúcida e coerente sobre qualquer assunto. Nesse sentido, Bolsonaro não só varre os nossos problemas estruturais para debaixo do tapete, como cria outros problemas gravíssimos e de dimensão assustadora – seus inúmeros mal-estares diplomáticos, por exemplo, são a prova cabal de que o presidente pode ser mais perigoso que qualquer pandemia.

Para ficarmos só no âmbito da questão da saúde, vamos relembrar algumas atrocidades cometidas por Bolsonaro nos últimos tempos que nos deixaram “nus” frente à pandemia do novo coronavírus: demissão dos médicos cubanos, diminuições e cortes de bolsas científicas, constantes ataques ao SUS e às universidades públicas (que têm papel fundamental na formação de cientistas), redução do investimento em políticas públicas de saúde, precarização do trabalho dos profissionais da área – e vamos ficar por aqui senão o texto não vai ter fim.

Diante deste cenário, a sensação não poderia ser outra. Sabe quando você estuda para uma prova complexa somente um dia antes de realizá-la? Então, é assim que o Brasil se encontra frente à crise provocada pelo Covid-19: despreparado. Como exigir que a população siga rigorosos protocolos sanitários se há lugares em que o abastecimento de água mal chega? Como exigir que uma família inteira fique confinada em um barraco de apenas um cômodo? E as mulheres que sofrem violência doméstica? Aceitaremos sem nenhuma dor na consciência esse confinamento com seus algozes? Enfim, nossos problemas estruturais gritam no volume mais alto possível, ensurdecedor. De cima do palanque, com ar quase triunfante – não fossem nossos heróis profissionais da saúde e os governadores que se recusam a cumprir as ordens genocidas de Bolsonaro –, está a pandemia do coronavírus, que exige medidas e soluções imediatas a questões históricas e seculares. O diagnóstico é impiedoso: não podemos mais fugir dos nossos problemas estruturais.

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