Crimes sem reconhecimento e sem castigo

Há que se entender que o preconceito não é fundado na lógica, mas no medo, na ignorância e no ódio. Por isso funciona bem entre os participantes e adeptos do desgoverno brasileiro.

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Há um tom falsa e fortemente otimista na avaliação do que pode fazer nosso Parlamento, mas há também que se considerar que os disparos em massa de WhatsApp nas eleições de 2018 foram o cabresto tecnológico moderno, pois a renovação numérica no Congresso não se refletiu em novas condutas. Pelo contrário, o fisiologismo imperou e o papel fiscalizador do Parlamento foi ameaçado pelo Executivo e deixado à míngua pelos próprios parlamentares. Assim, ao contrário de afirmar que há um risco de servilismo, o Parlamento já está subserviente aos interesses do Planalto desde o início do desgoverno de Bolsonaro, sentando-se em cima da mais de meia centena de pedidos de impeachment desse criminoso. O que acontecerá agora é a ascensão de Arthur Lira como porta-voz do Centrão, testando os limites entre as benesses e o sangramento, viabilizando-se como corrente majoritária à sucessão de 2022. Crimes sem castigo seria mais apropriado ao relato da ação criminosa e continuada de Bolsonaro, que continua e sairá impune. Alterando-se o título de Dostoievski, pode-se supor um outro clássico da literatura mundial para simbolizar a luta pela sobrevivência a que fomos lançados: Mas não se matam cavalos?, de Horace McCoy.

O disparo em massa de fake news pelo WhatsApp em 2018 que levaram Bolsonaro à Presidência também é um atentado contra a democracia, certo Senhor Ministro Fachin, que denuncia a negação antidemocrática? O que o STF e o TSE fizeram a respeito? Nada! Novamente, Bolsonaro e Mourão são inocentados por excesso de provas. Os tribunais superiores – e os juízes de forma geral – parecem não enxergar a realidade dos fatos e se ater a um mundo ficcional, isso quando os próprios interesses não estão em jogo. Até hoje o presidente da República continua disparando seus disparates pelas redes sociais, de defesa de medicamentos que não funcionem até conspirações internacionais inexistentes, e nada acontece. Um crime eleitoral fartamente documentado, e seguimos com o arremedo trumpista que nem precisará da hora H e do dia D para dar o autogolpe que propugna, ainda mais agora com Congresso regiamente comprado.

A insistência na defesa de uma suposta pauta “necessária” para a economia do país baseada na acumulação de riqueza e no neoliberalismo nefasto não é diferente da chamada pauta de costumes, pois defende um grupo restrito de pessoas a manterem seus privilégios em detrimento de uma discussão mais ampla do que a sociedade precisa. Estado não é empresa, não tem como demitir seus cidadãos. A menos que se esteja defendendo a necropolítica em curso.

Em relação aos crimes dos procuradores e julgadores da Lava Jato – que acabam sendo a mesma coisa –, o nome de batismo da operação já continha algo de contrário às regras pela falta da necessária preposição, pois, como ficou, indica uma operação para limpar aeronaves e não lembrar uma limpeza rápida. Desde o início venderam um produto, rotularam como sendo outro e entregaram um totalmente distinto.

Quanto aos Procuradores criminosos, seus advogados Marcelo Knopfelmacher e Felipe Locke Cavalcanti querem defender o indefensável, procurando inverter a realidade dos fatos chamando o material obtido na operação Spoofing de “prova ilícita e imprestável”. Quem praticou crime foram Deltan Dallagnol e sua trupe em conluio com Sergio Moro. Feito um rei Midas às avessas, em tudo em que puseram a mão virou lixo jurídico. Ou seja os altos salários pagos a esses operadores do Direito mostram que competência e idoneidade não têm relação com remuneração. O lugar dos aqui defendidos é a cadeia, utopia minha.

Também o sempre lido colunista Hélio Schwartsman parece não ter entendido muita coisa do que foi o conluio de juiz com promotores para forjar provas, procedimentos e delações, quando lamentou o réquiem para a Lava Jato. Precisa dar uma olhada nas palavras de sua colega Cristina Serra, que discorreu sobre a “praga do jornalismo lava-jatista” para ver a diferença entre justiça e vingança e o papel supostamente investigativo da imprensa. Autocrítica jornalística é fundamental, mas há que se considerar que à época da Lava Jato abundavam denúncias de conluio e parcialidade de Moro.O “fora PT” sempre falou mais alto, com muita convicção, aliás, contagiando boa parte da imprensa. A acompanhar como os jornais noticiarão os resultados do julgamento da Lava Jato para saber se houve ou não aprendizado jornalístico.

Concluindo com a menção a outro crime histórico, o do racismo já tratado alhures (https://www.brasil247.com/blog/outro-lugar-de-falar-sobre-racismo-fascismo-e-aborto), há que se entender que o preconceito não é fundado na lógica, mas no medo, na ignorância e no ódio. Por isso funciona bem entre os participantes e adeptos do desgoverno brasileiro. Em termos de competência administrativa no Brasil, no entanto, já é possível concluir a total ineficiência e incapacidade de militares no comando do quer que seja. E isso não é preconceito, é conceito.

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