Cristina Kirchner lança o seu livro “Sinceramente” e propõe um Contrato Social de Cidadania Responsável”

O sucesso deste livro, abordando a vida, experiências humanas e políticas de uma mulher dirigente, nas funções de ex-presidenta (2 gestões seguidas), e agora senadora (Unidade Cidadã), Cristina Kirchner, reflete um despertar popular, uma esperança para resgatar, nas eleições de outubro de 2019, as conquistas sociais, o fortalecimento do Estado

A ex-presidenta Cristina Kirchner lançou no dia 9 de maio o seu livro, “Sinceramente”, uma memória biográfica de 600 páginas publicado pela Penguim Ramdon House (matriz da Editora Sudamericana), nesta 45a. Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, já com a 3a. edição esgotada, 300 mil livros vendidos, um best seller em poucos dias, jamais visto na Argentina e já com outros milhares chegando às portas da sua reedição. A previsão é de que se chegue a meio milhão de exemplares. Um grande êxito, sem contar a enorme circulação deste livro em venda digital ou formatos pdf pirateados. O livro até tornou-se texto de estudo em grupos abertos de discussão nos bairros, semanalmente, capítulo por capítulo, suprindo coletivamente a dificuldade financeira da cidadania. Além da leitura, a importância que os argentinos dão, é possuir o livro em papel, encapado com carinho; guardado como obra histórica na biblioteca, como o famoso “A razão da minha vida” de Eva Peron; ou, sobretudo, carregado, exposto nos braços, nas ruas para dizer: “Olhem aqui, quem deve voltar a nos governar!”. O sucesso do livro passa a ser um fenômeno político que levou até mesmo a mídia hegemônica a compará-la com Garcia Márquez (Clarin), ou com Perón (La Nación).

A mais ampla sala da Feira, a Jorge Luís Borges, superlotou com convidados do campo da cultura e da política, dirigentes sindicais, legisladores, defensores dos direitos humanos; nas adjacências internas e até externas à feira, milhares de cidadãos comuns junto a ativistas de movimentos sociais concentravam-se num ato comovedor para ouvir a fala de Cristina Kirchner, assistindo sua apresentação via telões. Um contraste interessante com o fato de que isso tenha se realizado dentro de uma área da Sociedade Rural Argentina, que abriga stands de grandes editoras e empresas midiáticas; e que tenha recebido a interdição oficial do trânsito fora, em parte da avenida Sarmiento para que o ato solidário a Cristina pudesse se realizar. O fato é que “Sinceramente” passou a ser o livro da esperança, que rompe o marasmo de uma Feira de Livro esvaziada e decaída em 15% de suas vendas.

Não obstante uma chuva torrencial que desabou sobre o que teria sido uma multitudinária manifestação, houve um fluxo comovedor de mulheres e jovens ensopados, mas entusiasmados, sob guarda-chuvas gritando “Cristina presidenta!”; um clamor popular alentando seu indispensável protagonismo para dar novos rumos à Argentina; essa, sim, afogada no arrocho econômico-social dos últimos 3 anos e meio de Macri e “Cambiemos”. O sucesso deste livro, abordando a vida, experiências humanas e políticas de uma mulher dirigente, nas funções de ex-presidenta (2 gestões seguidas), ex-deputada provincial e federal, e agora, senadora (Unidade Cidadã), Cristina Kirchner, reflete um despertar popular, uma esperança para resgatar, nas eleições de outubro de 2019, as conquistas sociais, o fortalecimento do Estado, dos últimos 7 anos do seu governo abordados no “Sinceramente”. Este livro, comentado e sugerido no Brasil, por FC Leite Filho, é também uma narrativa detalhada dos ataques judiciais e midiáticos dos poderes econômicos hegemônicos, sofridos pela ex-presidenta e seus familiares; uma contribuição à conscientização sobre as maquinações do lawfare na América Latina do qual é também vítima Lula da Silva junto ao povo brasileiro. O livro de Cristina faz um sucesso ascendente. Os “cadernos” publicados pelo juiz Bonadio começam a pegar fogo com o tal do D’Alessiogate.

O DISCURSO DE CRISTINA

O discurso de Cristina no lançamento foi curto, uns 40 minutos, respeitando os limites de tempo das apresentações de livro. Mas, neste breve arco de tempo, concentraram-se no mesmo lugar duas forças potentes da Argentina para pintar um quadro de esperança: Cristina Kirchner e um povo que não se rende.

Não era de se prever no âmbito da Feira de livro, o que muitos esperavam, uma declaração por sua candidatura presidencial. Não se ateve a repetir aspectos importantes do seu livro, das medidas econômico-sociais implantadas pelo seu governo, nem em agitar quão necessário é recuperá-las. O povo já vive, de carne e osso a dura realidade atual. Já na leitura dos 300 mil exemplares por si, está boa parte do recado, sobre um projeto golpeado de país, incompleto, mas realizável, e a ser resgatado;  mas na apresentação do livro, Cristina Kirchner deu um novo passo; destacou a perspectiva do futuro, da necessidade de unir forças, de estabelecer alianças para a reconstrução, evitando o enfrentamento; nem citou o responsável pela demolição, Macri, como o faz em atos massivos e da militância. Como dito por Roberto Caballero, diretor da revista “Contra Editorial”, viu-se uma Cristina que guardou a espada jacobina.

O centro do seu discurso foi o chamado a um “Contrato Social de Cidadania Responsável”, que inclua “empresários, dirigentes sindicais, operários, cooperativistas, e pessoas que tenham um plano de trabalho”; “um contrato social entre todos os argentinos e argentinas, com metas verificáveis, quantificáveis...”. Remarcou que não há como desenvolver a economia se não há mercado interno. Dirigiu-se ao setor empresarial: “é necessário dirigentes empresários que pensem na economia como instrumento de desenvolvimento do país e não somente pessoal”. “Para que uma empresa ganhe, todos têm que ganhar e comer; senão, é muito difícil”.

Cristina Kirchner recordou o exemplo do Pacto Social no terceiro governo de Perón com o industrial nacional, José Ber Gelbard, também ministro da economia. Nessa época Gelbard, com Câmpora e Perón, fez um plano que, entre outras, manteve 300 produtos na cesta básica com preços congelados, e acordos de salários estáveis. Cristina recordou que, depois, alguns setores industriais, rompendo o pacto, pressionaram a renúncia de Perón que, pela rádio em 12 de junho de 1974, comunicou ao povo a situação. Os sindicatos decretaram imediatamente greve geral e mobilizaram-se milhares na Praça de Maio no seu apoio. Perón discursou: “Levo nos meus ouvidos a mais maravilhosa música que, para mim, é a palavra do povo argentino”.

O tempos passaram, a conjuntura econômica atual é outra; é de um capitalismo mundial falimentar e os limites dos acordos se restringem; é previsível que um contrato social sofrerá tensões.  Mas é muito significativa a referencia a esse fato histórico de 1974, por alertar que o “Contrato Social de Cidadania Responsável” deve assegurar os direitos e o poder aquisitivo dos trabalhadores. Cristina Kirchner pode afirmar isso com propriedade, pois é a única, entre todos os possíveis aliados ao peronismo-kirchnerismo dentro de um Pacto Social opositor a Macri, que tem o maior poder de mobilização social. Na despedida do seu governo em dezembro de 2015, Cristina Kirchner atraiu uma massa de 700 mil na Praça de Maio; à altura de Perón e Evita.

Ao referir-se a este fato histórico, Cristina evidencia, que não aceita dialogar com o falso acordo de 10 pontos proposto, recentemente, pelo governo de “Cambiemos” a algumas forças opositoras. Macri pede socorro às vítimas, após incendiar o país e entregá-lo ao FMI. São 10 pontos onde não se contempla a sobrevivência dos excluídos, dos trabalhadores ou médios e pequenos empresários. Cristina lançou o “Sinceramente” com vários recados; inclusive este: “Nós, os argentinos não somos neutrais. Eu não sou neutral, não fui nunca, não quero ser e nem vou ser”.  O “Contrato Social de Cidadania Responsável”, por ela proposto, inspira uma unidade com ampla participação, mas com programa e controle social.

O debate lançado em torno do livro de Cristina Kirchner dá indicadores de sua provável candidatura. Neste meio de cultura e sendo a personalidade política com maior aceitação eleitoral em concorrência com Macri, seria ilógico que a aliança opositora não a considerasse. Está aberto um grande debate. A realização de um Contrato social, provável base para uma aliança eleitoral opositora, requer um urgente conteúdo programático. Discute-se que a força principal para assegurar o pacto social deverá ser aumentar o poder organizativo e programático dos sindicatos e trabalhadores. O deputado nacional (Unidade Cidadã) e dirigente sindical Hugo Yasky (CTA) chama a uma formação única de todas as centrais sindicais, que englobe a todas: as duas CTAs, CGT, CTEP, Corrente Federal, etc... O livro de Cristina não surgiu do nada; surge desta vontade popular de unir-se e por um fim à depressão, à tensão, à opressão de classe, e à discriminação social, contando com o outubro de 2019. Enfim, ficou evidente que não é um livro, é muito mais que um livro.

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