Cultura não é turismo

A transferência da Secretaria de Cultura do Ministério da Cidadania para o Ministério do Turismo, efetivada pelo governo Bolsonaro no último dia 7 de novembro, é mais um inadmissível ataque a uma área sensível da construção nacional

(Foto: Marcos Corrêa - PR)

A transferência da Secretaria de Cultura do Ministério da Cidadania para o Ministério do Turismo, efetivada pelo governo Bolsonaro no último dia 7 de novembro, é mais um inadmissível ataque a uma área sensível da construção nacional. 

Cultura é identidade, é a nossa raiz, reúne uma ampla gama de vivências, sentimentos e conhecimentos que caracterizam os diferentes períodos da história da Humanidade e as diferentes nacionalidades; vão desde as artes às crenças, arquitetura, leis, costumes, rituais, símbolos e hábitos vividos, construídos e compartilhados na vida em sociedade. Evidentemente, não pode ser tratada como apêndice de um ministério como o de Turismo, que é uma atividade de extrema importância, mas de gestão quase oposta, relacionada principalmente ao negócio, às relações episódicas, eventuais. Mesmo o chamado turismo cultural é uma atividade econômica voltada para grupos transitórios, que não estabelece vínculos com o lugar visitado, não cria cultura. 

A decisão presidencial, até agora mal explicada, mostra, assim, o total desconhecimento do atual governo sobre o que sejam tanto o Turismo quanto a Cultura, misturando universos incompatíveis. 

O decreto transferiu para a nova estrutura a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, o Conselho Nacional de Política Cultural e a Comissão do Fundo Nacional de Cultura, além da gestão da Agência Nacional do Cinema (Ancine), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), da Fundação Biblioteca Nacional, da Fundação Casa de Rui Barbosa, da Fundação Cultural Palmares e da Fundação Nacional de Artes (Funarte). A pasta terá a responsabilidade de definir e efetivar a Política Nacional de Cultura, a regulação dos direitos autorais, a proteção do patrimônio histórico, artístico e cultural do país, a política de Museus, o apoio à preservação da identidade cultural de comunidades quilombolas e o desenvolvimento de políticas de acessibilidade cultural. Tudo isso sob a chancela do Turismo.

A mudança confirma a tendência do atual governo de enfraquecer a área cultural, como vem fazendo desde os primeiros dias, quando reduziu a pasta de Ministério para Secretaria. Na sequência, implantou métodos de censura e perseguição e cortou verbas e projetos, confirmando a aversão de Bolsonaro às Artes. A atual transferência parece completar um ciclo e representa uma grave ameaça a todos nós, já que a Cultura é o que forma a nossa identidade como Nação. 

Os sinais estão dados. O novo Secretário é Roberto Alvim, aquele mesmo que agrediu verbalmente a grande e veterana atriz Fernanda Montenegro, primeira-dama do nosso teatro; ele vem se pronunciando a favor de boicote a artistas e fazedores de cultura que têm opiniões diferentes das que defende. Já o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio - que está indiciado pela Policia Federal por fraude eleitoral em 2018 -, já antecipou que tratará a Cultura segundo as “leis de mercado”. 

Os ataques avançam e vão destruindo as bases da nossa soberania e nacionalidade. É preciso reagir, antes que sobre pouco do Brasil.

Cultura não é evento

Cultura não é turismo

Cultura é identidade, é soberania.

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