Cunha deu um tiro no pé

"Em vez de ficar na moita, quieto em seu canto, como cabe a um réu atolado em problemas no STF, na Lava Jato e até na Suíça, ele extrapolou, mais uma vez, expondo à execração pública e ao ridículo duas instituições ao mesmo tempo: a Câmara e o STF", diz o colunista Alex Solnik, sobre a entrevista coletiva de Eduardo Cunha; "A sua demonstração de força poderá ser a gota d’água que faltava para Teori Zavaski finalmente acatar a ação cautelar de Janot que está há quase um mês sobre a sua mesa, sem resposta", acrescenta; para Solnik, Michel Temer chamou Cunha de "batalhador" por ser refém do aliado

Brasília- DF 21-06-2016 Presidente afastado da câmara, Eduardo Cunha, durante coletiva no hotel nacional de Brasília. Foto Lula Marques/Agência PT
Brasília- DF 21-06-2016 Presidente afastado da câmara, Eduardo Cunha, durante coletiva no hotel nacional de Brasília. Foto Lula Marques/Agência PT (Foto: Alex Solnik)

Nunca se viu tamanho abuso.

   Nunca antes um réu, com tantas acusações nas costas, afastado por tempo indeterminado do mandato de deputado e da presidência da Câmara desrespeitou e peitou tanto o STF quanto Eduardo Cunha.

   O seu showzinho de ontem foi mais um capítulo dessa novela deprimente que poderia se chamar “Que réu sou eu”?

   Não por coincidência ele voltou à cena logo depois da derrota no Conselho de Ética do que se depreende que seu intuito foi mostrar que, apesar de tudo, quem manda na Câmara dos Deputados ainda é ele.

   Foi tão acintoso que provocou reação indignada de Rubens Bueno, líder do PPS, até anteontem um de seus fiéis aliados que protestou no plenário pelo fato de seu show-off ter sido transmitido diretamente pela TV Câmara.

   “A TV Câmara somente cobre atividades do parlamentares e Cunha está afastado das atividades parlamentares” reclamou ele, aos brados, demonstrando claramente que perdeu a paciência com o reincidente.

   Não é só Bueno que está “porrr aqui” com Cunha. O PSDB – que é o principal avalista do governo Temer depois do PMDB – ameaça lançar candidato próprio à cadeira de Cunha, em parceria com o PT, o que não faria se não avaliasse que o reinado dele está por um fio, seja por meio de renúncia, de cassação ou de prisão.

   Cunha deu, na verdade, um tiro no pé. Ou seja: reforçou os argumentos de Janot, que pediu a sua prisão preventiva ou medidas mais severas justamente porque ele descumpre o que o STF determinou e continua a mandar na Câmara com a mesma desenvoltura e petulância de sempre.

   Em vez de ficar na moita, quieto em seu canto, como cabe a um réu atolado em problemas no STF, na Lava Jato e até na Suíça, ele extrapolou, mais uma vez, expondo à execração pública e ao ridículo duas instituições ao mesmo tempo: a Câmara e o STF.  

   A sua demonstração de força poderá ser a gota d’água que faltava para Teori Zavaski finalmente acatar a ação cautelar de Janot que está há quase um mês sobre a sua mesa, sem resposta.

   Janot oferece, como alternativa à prisão, medidas que efetivamente mantenham Cunha longe das decisões da Câmara, tais como a proibição de se comunicar com deputados e autoridades por qualquer meio, seja telefone, e-mail ou outro qualquer, obrigação de não sair de casa no horário em que se realizam as sessões e ser vigiado por meio de tornozeleira eletrônica.

   Se Teori não se indignar como ficou indignado o líder do PPS vai parecer que Cunha manda não só na Câmara, mas também no Supremo.

   E também no governo, a julgar pela reação amistosa de Temer.

   Falando a Roberto D’Ávila, em sua primeira entrevista exclusiva à televisão, mais de relações públicas do que de jornalismo propriamente dito, ontem à noite, ao comentar a fala de Cunha, o presidente interino chamou-o de “batalhador”, uma avaliação condescendente demais para quem é, para o STF, um réu; um sério candidato a acertar contas com a Lava Jato e, nas palavras de Janot, “um delinquente”.

   Passarinho que come pedra sabe o estômago que tem.  

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