Cunhado atrapalha Alckmin, cutuca a ‘Época’

Agora, em 2018, a direita nativa segue unida no intento de derrotar Lula – e trabalha com afinco diário para inviabilizar a sua candidatura e, de preferência, levá-lo à cadeia

São Paulo - O governador Geraldo Alckmin anunciou o adiamento da reorganização escolar, a coletiva foi realizada no Palácio dos Bandeirantes. (SECOM/ Gov.de SP)
São Paulo - O governador Geraldo Alckmin anunciou o adiamento da reorganização escolar, a coletiva foi realizada no Palácio dos Bandeirantes. (SECOM/ Gov.de SP) (Foto: Altamiro Borges)

Na eleição presidencial de 1989, a primeira após a redemocratização do país, a direita nativa ficou meio perdida. Ela só estava unida no intento de derrotar o operário Luiz Inácio Lula da Silva, da coligação PT-PSB-PCdoB, mas não sabia qual dos postulantes reunia as melhores condições para isto. Expressão desta confusão ficou evidente na cobertura manipulada da Rede Globo – a emissora do golpe e da ditadura militar. Num primeiro momento, ela apoiou Aureliano Chaves, o vice-presidente do general João Batista Figueiredo. Com o seu fiasco, ela se bandeou para a candidatura do empresário Afif Domingos, que também não vingou. No desespero, a famiglia Marinho até cogitou apoiar Mário Covas, mas só após este divulgar o manifesto "choque de capitalismo". No final, sem alternativas, ela apoiou o outsider Collor de Mello, apesar das desavenças entre os dois barões da mídia.

Agora, em 2018, a direita nativa volta a exibir certa confusão. Ela segue unida no intento de derrotar Lula – e trabalha com afinco diário para inviabilizar a sua candidatura e, de preferência, levá-lo à cadeia. Mas ainda está dividida quanto ao candidato mais confiável e competitivo. Rodrigo Maia, o capacho dos patrões que preside a Câmara Federal? Henrique Meirelles, o jagunço dos rentistas que comanda a economia? Ou Geraldo Alckmin, o "picolé de chuchu" de São Paulo? Tudo indica que no transcurso da campanha ela se unificará em torno de um nome. Já há quem afirme que o escolhido seria o governador paulista, que combina uma visão ultraliberal na economia com uma postura autoritária na política.

Enquanto isto não ocorre, porém, a confusão reina. Isto é o que explica a longa reportagem desta semana da Época, a revista que virou um mero pasquim dos jornais O Globo e Valor. Com o título "O cunhado: o discreto operador que pode atrapalhar os planos de Alckmin", a matéria assinada pelo repórter Thiago Herdy evidencia que a famiglia Marinho ainda não bateu o martelo no seu candidato. Do contrário, a reportagem não seria publicada. Conforme já ensinou o jornalista Cláudio Abramo, a única liberdade de imprensa existente nas redações é a liberdade do dono. Vale conferir alguns trechos da reportagem demolidora:

*****

Há pouco mais de 20 anos, Fernando Henrique Cardoso esteve em Sumaré, no interior de São Paulo, para inaugurar a primeira fábrica de veículos da Honda no Brasil. Era outubro de 1997. O tucano presidia o país, conseguira aprovar recentemente a emenda que permitia sua reeleição e intensificava a agenda eleitoral. FHC dividiu as fotos e os discursos com o correligionário Mario Covas, governador de São Paulo. Tratava-se de um evento típico de pré-campanha. A presença da dupla conferia prestígio à montadora, mas também a ambos, que tirariam dividendos eleitorais de um ato que anunciaria grande geração de empregos.

Havia uma presença discreta no evento: o empresário paulistano Adhemar César Ribeiro, naquele momento com 56 anos, irmão da mulher de Geraldo Alckmin. O tucano casou-se em 1979 com Maria Lúcia Guimarães Ribeiro, conhecida por dona Lu. Em 1997, ele já era vice-governador de São Paulo, dando início a uma trajetória política que só viria aumentar sua projeção nacional.
Dentro do partido e entre parte do empresariado nacional, Adhemar Ribeiro era mais conhecido como arrecadador informal de campanha de FHC. Ele não estava como espectador na inauguração em Sumaré. Estava a trabalho. Pouco antes, ele pedira à Honda dinheiro para a campanha de Fernando Henrique. Em contrapartida, a empresa pedira que FHC participasse da inauguração da fábrica. Ao lado de Ribeiro estava seu futuro sócio e amigo, Henrique Saraiva.

Era claramente uma relação de troca - um quid pro quo questionável moral e legalmente. "Adhemar era uma figuraça", disse Saraiva por telefone à ÉPOCA, com a ternura das velhas amizades. Ele acompanhou o episódio Honda de perto. Apesar de confirmar os fatos, tentou minimizar a gravidade da situação. "Na época, ele (Ribeiro) deixou claro que aquilo não era negociação ou troca. Você quer isso, eu quero aquilo. Se você quer fazer, faz. Mas não era uma coisa vinculada com a outra", disse Saraiva.

Ao fim da cerimônia de inauguração, um diretor da Honda, acompanhado por assistentes, abordou Saraiva e Ribeiro. Queria agradecer o encontro. Um assistente entregou um envelope parrudo a Saraiva. "Abri, vi que tinha R$ 50 mil lá dentro. Agradeci muito, ficamos com aquele dinheiro para a campanha. Peguei o envelope e entreguei para o Adhemar. Não sei como ele descascou esse abacaxi", disse Saraiva, para quem a doação foi feita "na maior pureza". "Era um pessoal muito simpático", lembrou, sobre a equipe da Honda. Não há registro na Justiça Eleitoral sobre os R$ 50 mil da Honda à segunda campanha presidencial de FHC. Pela atualização monetária, os R$ 50 mil de 1997 equivalem a R$ 232 mil de hoje.

Transações em dinheiro vivo, por definição, são difíceis de rastrear. Torna-se quase impossível saber a verdadeira origem dos recursos, assim como descobrir o beneficiário final, aquele que gastou o butim. Por isso envelopes parrudos são comuns em campanhas eleitorais. Protegem quem dá e protegem quem recebe, escondendo a relação de troca entre políticos e empresários. Mascaram também a origem do dinheiro; não se sabe se ele é legal ou ilegal. São operações que permanecem nas sombras. O termo "caixa dois" não expressa a verdadeira natureza criminosa dos financiamentos clandestinos de campanhas eleitorais. Muito menos o eufemismo "recursos não contabilizados".

Nos 20 anos que se seguiram à segunda campanha presidencial de FHC, Ribeiro ficou na dele. A ascensão política de Alckmin — de vice a governador, de governador a candidato a presidente, de governador novamente a novamente pré-candidato a presidente — não alterou sua discrição. Nem, aparentemente, sua relação com envelopes pardos destinados ao PSDB. Há um ano, quando o nome de Ribeiro apareceu na delação da Odebrecht como o homem que intermediava dinheiro vivo entre a empreiteira e a campanha de Alckmin ao governo de São Paulo em 2010, poucos o conheciam. Poucos ainda o conhecem — e sabem o risco que ele representa às pretensões presidenciais de Alckmin. Há um inquérito aberto no Superior Tribunal de Justiça (STJ) contra o governador de São Paulo e seu cunhado. Tramita em sigilo.

Nas últimas seis semanas, ÉPOCA investigou as incursões de Ribeiro no submundo da arrecadação de campanhas. Levantou, por meio de documentos e testemunhas, seu patrimônio, processos antigos, os negócios de suas empresas e episódios controversos de sua vida. Ao todo, 78 pessoas foram entrevistadas. As evidências obtidas pela reportagem corroboram a suspeita de que Ribeiro atuou como arrecadador informal de campanhas do PSDB. Revelam que, apesar de ter feito fortuna como banqueiro e empresário, ele mantém, por meio de sua família, negócios sob influência direta da gestão Alckmin no estado de São Paulo, como a concessão para a exploração de cinco aeroportos regionais — contratos assinados mediante uma licitação com indícios consistentes de favorecimento ilegal ao filho do cunhado. Ou seja, ao sobrinho do governador.

A investigação aponta também que, mesmo contando com um patrimônio que inclui salas comerciais, uma mansão situada em área de 2.300 metros quadrados no Morumbi, uma fazenda centenária com centenas de cabeças de gado em Santa Rita do Passa Quatro, São Paulo, um casa em Angra dos Reis, Rio de Janeiro, e um barco avaliado em US$ 400 mil, Ribeiro deve à cidade de São Paulo R$ 1,15 milhão em IPTUs atrasados.

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