Damares Alves e o fundamentalismo religioso que perpetua abusos infantis

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) somente 10% dos estupros são denunciados à polícia. A pesquisa Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde afirma que 469 mil mulheres são estupradas por ano no Brasil. São seis Maracanãs lotados, sendo quase cinco só com crianças e adolescentes

Damares Alves e o fundamentalismo religioso que perpetua abusos infantis
Damares Alves e o fundamentalismo religioso que perpetua abusos infantis (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

A futura ministra das Mulheres, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, relata que foi abusada por dois pastores que se hospedavam em sua casa e eram amigos de seus pais.
 
“Fui abusada por dois religiosos. Da primeira vez, foi um missionário da igreja evangélica que frequentávamos na época, em Aracaju (SE). Ele foi enviado de uma outra igreja para a minha cidade e ficou hospedado na minha casa. (...) Ele foi às vias de fato comigo. Eu falo abuso, mas foi estupro. Foram várias vezes em um período de dois anos. Começou quando eu tinha seis anos e a última vez que o vi estava com oito. (...) Me tornei uma presa fácil porque depois do primeiro abuso tinha muito medo e achava que o primeiro tinha contado para o segundo. Ele não foi às vias de fato. Me recordo de quatro momentos. Passava a mão no meu corpo, me beijava na boca, me colocava no colo. Uma vez ejaculou no meu rosto.”. (BRANDALISE, 2018).
 
Religiosos são figuras de autoridade que se confundem com a própria instituição religiosa a qual representam. Para a maioria dos fiéis, ir contra esses homens é duvidar da própria fé, ir contra a própria religião. Não é à toa que o pronome de tratamento dos Papas é Sua Santidade, pois é como eles são vistos, como homens de Deus. Sabendo disso, muitos se utilizam desse manto religioso, que confere respeito, obediência e lealdade, para praticarem crimes.
 
Charlatães e estupradores
 
João de Deus, um estuprador em série e charlatão religioso, é acusado de ter cometido mais de 500 abusos sexuais. Ele já tem 76 anos de idade e há 42 anos fundou a Casa Dom Inácio de Loyola (em Abadiânia, distante 120 km de Brasília), onde diz já ter atendido cerca de 9 milhões de pessoas.  
 
Ainda no início da carreira, João foi acusado de seduzir uma menor de idade, aliás, não sei ao certo o que estaria por trás desse seduzir, desse eufemismo condescendente usado um todas as matérias jornalísticas que abordam um histórico de crimes que só agora veio à tona. João é um predador sexual, um pedófilo que atacou a própria filha, Dalva Teixeira, violentada dos 9 até os 14 anos de idade. João Teixeira de Farias tem 11 filhos, sendo cada um de uma mulher diferente.
 
“Místicos e religiosos utilizam crenças milenares para cometer abusos”, afirma a ativista Sabrina Bittencourt, que coordena o movimento Combate ao Abuso no Meio Espiritual (Coame) e recebeu as primeiras denúncias contra João de Deus. “Eles seduzem as mulheres dizendo que elas são privilegiadas por serem tocadas por um homem santo.” Sabrina também contribuiu para as denúncias contra o guru Sri Prem Baba, acusado de assédio em agosto passado por várias discípulas de sua comunidade. João de Deus tem uma folha corrida considerável. Além de denúncias de charlatanismo e prática ilegal da medicina, ele já foi acusado de seduzir uma menina menor de idade, em 2012, mas acabou absolvido por falta de provas. Também já foi acusado de atentado violento ao pudor, contrabando de minério e assassinato. O médium tem onze filhos. Há uma ação movida por uma de suas filhas, Dalva Teixeira, por abusos. Dalva diz que foi molestada pelo pai dos 9 aos 14 anos.” (VILARDAGA, 2018).
 
Seis Maracanãs de mulheres estupradas a cada ano
 
O machismo na nossa criação que cria homens violentos e faz as mulheres se sentirem inferiores; o falso moralismo religioso que nos reprime sexualmente; a cultura do estupro que normaliza os abusos sexuais, desqualifica e culpa as mulheres são só alguns fatores que contribuem para que o crime de estupro seja o mais subnotificado no Brasil e no mundo. 
 
Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) somente 10% dos estupros são denunciados à polícia. A pesquisa Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde afirma que 469 mil mulheres são estupradas por ano no Brasil. São seis Maracanãs lotados, sendo quase cinco só com crianças e adolescentes.  
 
O combate passa pela educação sexual 
 
“Crianças que recebem educação sexual estão mais preparadas para rejeitar abusos.”
 
A frase acima é de Maria América Ungaretti, “doutora em educação e representante no Brasil da Rede Ecpat (sigla em inglês para Fim da Prostituição Infantil, Pornografia Infantil e Tráfico de Crianças para Propósitos Sexuais), uma coalizão de organizações da sociedade civil que trabalha para a eliminação da exploração sexual de crianças e adolescentes.
 
 (...)
 
“‘Na hora que eu crio uma criança, desde pequenininha, sabendo o que é sexo, o que é sexualidade, qual é o direito que ela tem, você vai preparar essa criança para que, em qualquer abordagem que ela sofra, indicando para um uso indevido do seu corpo, ela reage, não aceita. Muitas vezes a criança confunde, acha que aquilo é afeto, carinho. Se ela tem controle do seu corpo e sabe o que podem fazer com o corpo dela ou não fazer, evidentemente que você vai contribuir para uma redução [da violência sexual]’, afirma. (NITAHARA, 2017).
 
Síndrome de Estocolmo 
 
Damares aponta o dedo para as pessoas erradas. Em vez de responsabilizar: os pastores acobertados pela igreja (ela contraditoriamente diz: “só há um lugar seguro em que o seu filho está protegido nesta nação. É o templo, é a igreja, é ao lado do seu sacerdote”); o fundamentalismo religioso que fez seus próprios pais negligenciarem sua dor e carência ("Eu trocaria 19 anos de oração da minha mãe por um abraço dela quando eu tinha 6 anos") e toda uma educação machista e punitivista da mulher, a autora das fake news sobre o kit gay, sobre a ditadura gayzista e sobre a masturbação em bebês de sete meses responsabiliza LGBTs, o feminismo e as políticas inclusivas da esquerda.
 
“Em um dos vídeos com a pastora, publicado em abril de 2013 no YouTube, ela diz que os movimentos feministas manipulam dados para inflar o número de mortes causadas pelo aborto no país:
 
“[Ex-ministros da Saúde] dizem que no Brasil milhões de mulheres morrem por causa do aborto. Cadê os milhões de túmulos? Pastores, quantas mulheres vocês já fizeram o culto fúnebre e enterraram porque morreram por causa do aborto? Mentira! Não existe milhões de mulheres morrendo por causa do aborto no Brasil. Eles manipulam dados e estatísticas para impor na sociedade brasileira uma cultura de morte”.
 
“Em um trecho do seu DVD, ela diz que estamos vivendo uma “ditadura gay” e defende uma diferenciação entre os homossexuais, que devem ser amados e acolhidos, e as associações do movimento gay, que estão “milionárias” e “jogam sujo”. (CALEIRO e MACHADO, 2018).
 
Estudos desmentem o preconceito de Damares
 
Em junho desde ano foi divulgado o boletim epistemológico da violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil feito pelo Ministério da Saúde entre 2011 e 2017. Segundo o estudo, “é necessário problematizar a situação, já que a violência pode ser reflexo de uma cultura do machismo.
 
"Considerando que esse maior envolvimento como perpetradores das violências sexuais contra estes grupos pode ser reflexo da afirmação de uma identidade masculina hegemônica, marcada pelo uso da força, provas de virilidade e exercício de poder sobre outros corpos. Dessa forma, é relevante a promoção de novas formas de masculinidades que superem esse padrão e permitam a manifestação de diversas identidades possíveis", diz a análise.
 
De acordo com Itamar Gonçalves da “ONG Childhood Brasil, que trabalha para promover o empenho de governos e sociedade civil em combater a violência sexual contra crianças e adolescentes, (...) no Brasil o padrão de socialização dos meninos ainda se dá pela violência, onde é reforçado o uso da força.
 
"Eles são culturalmente estimulados a dominar as meninas e mais tarde suas mulheres. Lembram da frases: 'Homem não chora', 'Predam suas cabras, meu cabrito está solto'... O papel do cuidado, da afetividade fica para as meninas", diz. (COELHO, 2018).
 
Ou seja, uma educação feminista de respeito e igualdade evitaria ao máximo os casos de estupro e violência doméstica. Quanto ao aborto, a legalização combinada, principalmente, com acesso à métodos contraceptivos diminuiu o número de abortos, passando, em média, de 46 para 27 a cada mil mulheres. Os dados foram divulgados este ano pelo Instituto Guttmacher, órgão filiado à Universidade de Columbia nos EUA e à Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF).
 
Ainda de acordo com o estudo: “‘Restrições por lei não eliminam o aborto. Em vez disso, aumentam a probabilidade que abortos não sejam feitos de maneira segura por estimularem mulheres a buscar procedimentos clandestinos’, analisa o estudo. Segundo o levantamento, só em 2014 mais de 20 mil mulheres morreram devido a um aborto clandestino. 42% das mulheres em idade reprodutiva moram em países onde o aborto não é regulamentado, dizem os pesquisadores.”. (UNIVERSA, 2018).
 
Um estudo da Universidade do Colorado nos EUA, publicado pela American Academy of Pediatrics, analisou 269 casos comprovados de abuso infantil e constatou que 82% dos casos foram cometidos por adultos heterossexuais. 
 
Erotização infantil através da tv aberta 
 
“Atuo contra a erotização de crianças e adolescentes e, consequentemente, estou há anos na estrada no combate à ideologia de gênero, pois a erotização de crianças é um dos pilares desta terrível ideologia.”. (CALEIRO e MACHADO, 2018).
 
Na fala acima, Damares confunde, talvez propositalmente, educação de gênero com erotização infantil.
 
"A educação para a igualdade de gênero nas escolas é essencial na prevenção da violência contra a mulher. A afirmação é da subprocuradora-geral da República, Luiza Cristina Frischeisen." (VERDÉLIO, 2018).
 
Erotização infantil foi a feita por apresentadores de programas dominicais de TV no Brasil. Crianças de top e short dançando na boquinha da garrafa na tv durante as tardes de domingo. 
 
Referências:
 
BRANDALISE, Camila. Ministra Damares Alves: "O pastor ia ao meu quarto à noite pra me estuprar" Disponível em: < https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/12/18/entrevista-damares-alves-abusos-sexuais.htm?cmpid=copiaecola>. Acesso em: 18 dez. 2018. 
 
 CALEIRO, João Pedro, e MACHADO, Ana Paula. O que pensa a futura ministra dos Direitos Humanos sobre LGBT e mulheres. Disponível em: < https://exame.abril.com.br/brasil/o-que-pensa-a-futura-ministra-dos-direitos-humanos-sobre-lgbt-e-mulheres/>. Acesso em: 18 dez. 2018. 
 
CAMARGO, Marcelo. Já são mais de 500 relatos contra João de Deus. Disponível em: <https://jornalggn.com.br/noticia/ja-sao-mais-de-500-relatos-contra-joao-de-deus>. Acesso em: 18 dez. 2018.
 
COELHO, Tatiana. Maioria dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes ocorre em casa; notificações aumentaram 83%. Disponível em: <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/maioria-dos-casos-de-violencia-sexual-contra-criancas-e-adolescentes-ocorre-em-casa-notificacao-aumentou-83.ghtml>. Acesso em: 18 dez. 2018.
 
IPEA. Estudo analisa casos notificados de estupro. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=21849>. Acesso em: 18 dez. 2018.
 
NITAHARA, Akemi. Educação sobre sexualidade e gênero previne violência sexual, diz especialista. Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2017-05/educacao-sobre-sexualidade-e-genero-previne-violencia-sexual-diz>. Acesso em: 18 dez. 2018.
 
PEDIATRICS Vol. 94 No. 1 July 01, 1994. Are children at risk for sexual abuse by homosexuals? Disponível em: <http://pediatrics.aappublications.org/content/94/1/41>. Acesso em: 18 dez. 2018.
 
UNIVERSA. Com legalização em países ricos, número de abortos diminui no mundo. Disponível em: <https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/03/23/numero-de-abortos-diminui-apenas-em-paises-ricos-diz-pesquisa.htm?cmpid=copiaecola>. Acesso em: 18 dez. 2018.
 
VERDÉLIO, Andreia. Educação de gênero na escola previne feminicídios, dizem especialistas. Disponível em: < http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-09/educacao-de-genero-na-escola-previne-feminicidios-dizem-especialistas>. Acesso em: 18 dez. 2018.
 
VILARDAGA, Vicente. Deuses, não. Abusadores de mulheres. Disponível em: < https://istoe.com.br/deuses-nao-abusadores-de-mulheres/>. Acesso em: 18 dez. 2018.

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