Danilo Gentilli e o combate à democracia, custe o que custar

O que Danilo Gentilli tem em comum com Bolsonaro, Sérgio Moro, Amoêdo, o MBL e as viúvas da ditadura militar é o desejo de impor uma tirania liberal que sufoque a democracia

(Foto: Reprodução)
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Assisti uma palestra de Jessé de Souza sobre a elite do atraso e me lembrei de um programa de TV que tem suas digitais no Brasil de hoje.  O programa “Custe o que custar”, mais conhecido pela sigla CQC, ganhou muita notoriedade entre 2008 e 2015 no Brasil. Exibido pela Rede Bandeirantes de TV, era uma mistura de humor e jornalismo investigativo, copiando uma programação de televisão argentina. A sua bancada era composta, entre outras figuras, por Marcelo Tas, que liderava a equipe, e Rafinha Bastos, o humorista que fez a infame piada com insinuação sexual contra o bebê de Wanessa Camargo em 2011. Também compunha o grupo Danilo Gentilli, o humorista que recentemente anunciou seu desejo de ser presidente da República. O programa CQC é o melhor exemplo da ideia que Jessé Souza quis combater em seu livro “A Elite do Atraso”. A ideia de que a política é corrupta e deve ser combatida.

Vamos por partes para fazer as conexões. Antes de relacionar o CQC com as ideias de patrimonialismo de Sérgio Buarque de Holanda, que são as ideias combatidas por Jessé, vale citar dois fatos curiosos e interessantes. O primeiro é que os CQCs Marcelo Tas e Rafinha Bastos recentemente trocaram farpas pelas redes sociais. Rafinha acusou Marcelo de ser o “veio da Havan”, o apelido pelo qual é chamado o empresário bolsonarista Luciano Hang. Sugeriu ainda que Tas é ambicioso e acha que o dinheiro é a medida do sucesso. E ameaçou publicar um livro sobre a verdadeira história do CQC. Eu estou muito curioso por esta obra. Vamos aguardar sua publicação. 

O segundo fato é que o outro ex-CQC Danilo Gentilli anunciou recentemente sua possível candidatura a presidente. Cortejado por lideranças como João Amoêdo do NOVO e pelo Movimento Brasil Livre (MBL), ele declarou que “o governo federal está habitado por uma classe de saqueadores”. Ele seria uma aposta para ocupar a suposta “terceira via” na polarização anunciada entre Bolsonaro e Lula. Também estou curioso para ver se a candidatura prospera. 

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Eu trouxe esses dois elementos para dizer que o CQC ocorreu num momento que preparou as condições para chegarmos ao Brasil de Bolsonaro. Embora o CQC não tenha essa bola toda de ser o principal responsável pela fabricação de Bolsonaro, pode-se dizer que sim, eles contribuíram imensamente para veicular as ideias que fortaleceram o bolsonarismo. Chama atenção que hoje os humoristas que contribuíram para isso estejam brigando entre si e que um deles queira ocupar a cadeira presidencial justamente apoiado pelo grupo político intensamente ligado a elite do atraso que Jessé denuncia em sua obra. O grupo político que patrocinou a ideia de que a corrupção era um atributo da política, dos políticos, e especificamente do Partido dos Trabalhadores de Lula e Dilma. Chama atenção ainda que esse mesmo grupo queira se diferenciar do bolsonarismo que eles mesmos apoiaram e ajudaram a colocar no Palácio do Planalto. 

A corrupção dos políticos foi o mote do Programa CQC. Danilo Gentilli, ao lado de Tas e Rafinha, ficou famoso em reportagens denunciando e satirizando políticos. Perambulava pelo Congresso fazendo perguntas ofensivas contra os homens de terno e gravata do Congresso, que eram editadas com efeitos especiais para tornar as abordagens engraçadas. A política no Brasil retratada como uma piada. Na mesma época, o palhaço e humorista Tiririca foi eleito deputado federal com recorde de votação. E um pouco depois, Bolsonaro, que foi apresentado por Danilo como se fosse mais uma piada da política-espetáculo, se elege dizendo a todos que não era da política, mesmo sendo deputado há 30 anos. Foi tanta piada e tanta despolitização que chegamos até aqui, numa situação em que o povo tem menos motivos para rir e mais motivos para chorar. 

Mas qual a relação afinal entre o humor do ex-CQC e futuro presidenciável Gentilli com a elite do atraso de Jessé? Estamos aqui condenando o humor? Ou condenando a luta contra a corrupção? Nem uma coisa nem outra. Estamos dizendo que o humor e o combate da corrupção do CQC serve unicamente aos interesses da elite. Não é à toa que o bilionário João Amoêdo queira apoiar Gentilli. Não é à toa que até mesmo o ex-CQC Rafinha Bastos agora compare Marcelo Tas ao empresário bolsonarista Luciano Hang. As digitais da elite estão em toda essa iniciativa. A quem interessa centrar toda a indignação da opinião pública contra a política? “Sempre sonhei em viver num país com menos política” disparou o possível candidato do MBL, do NOVO e até de Sérgio Moro. A quem interessa um país com “menos política”? Jessé nos ajuda a decifrar esse enigma. 

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Dizer que toda a corrupção vem da “política” elege os políticos como o grande mal que precisa ser extirpado para acabar com a corrupção. Jessé Souza diz que isso seria o mesmo que afirmar que o tráfico de drogas se resolveria prendendo os “aviõezinhos”, que são os jovens usados para transportar a droga. Ora, sabemos que o tráfico tem chefes. Quem são os “chefes” da corrupção? Se existe político corrupto, quem os corrompe? Se os corrompe, é com dinheiro. E quem tem dinheiro, no mundo, são os empresários. O CQC nunca perseguiu um empresário sequer e hoje um ex-CQC é apoiado por um empresário bilionário. Por que será?

Essa campanha de desmoralização da política ocorre não só no Brasil, mas em vários países, com especificidade em cada sociedade de acordo com sua formação social. Jessé Souza identificou como essa campanha ocorre no Brasil. Trata-se de um discurso profundamente racista. E não é só um racismo racial, como adverte Jessé. É o racismo que desmoraliza o povo brasileiro em relação às demais nações do mundo, em especial os Estados Unidos e Europa. Os políticos atacados na verdade são uma forma de atacar o voto popular. É aquela ideia racista de que o povo não sabe votar, e mais do que isso. Que é degenerado por natureza, amaldiçoado em sua origem, herdou dos portugueses um gosto pela corrupção, tudo que ele vota já é corrompido. Não à toa, as campanhas de corrupção foram contra políticos que fizeram mudanças, ainda que singelas, para as classes populares. Getúlio Vargas, João Goulart, Lula, Dilma. Esses foram os que causaram furor anticorrupção. Aécio Neves foi flagrado com mala de dinheiro e não mobilizou nenhuma passeata. Bolsonaro tem acusações de corrupção, e as camisetas da CBF só o aplaudem. Nunca foi por corrupção. A corrupção que mobiliza o ódio de Danilo Gentilli, do MBL, de Amoêdo, e dos camisas amarelas é pensar as políticas para os debaixo da pirâmide.

Não é coincidência que lado a lado desses revoltados com a política, estejam amantes de figuras do Judiciário como Sérgio Moro, de empresários como João Amoêdo e dos militares. O que esses três personagens tem em comum? Nenhum deles precisou de voto popular para ser o que são. Aliás, quem elegeu Danilo Gentilli para falar de política na TV? Também ninguém, a não ser o dono da empresa de comunicação para a qual ele trabalha. Suas falas só repercutem no país porque se apoiaram em estruturas que nunca tiveram a necessidade de nenhum voto do povo. E não é casual que justamente esses personagens se voltem contra a chamada “política” que na ideia deles circunscreve aqueles que foram eleitos pelo povo. O problema deles é o problema do neoliberalismo hoje. Para continuar o processo de acumulação de riqueza, a democracia atrapalha. O neoliberalismo é cada vez mais incompatível com a democracia. É incompatível mesmo com a vida, uma vez que sua reprodução só ocorre com a destruição da vida, seja ela social ou natural.

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O que Danilo Gentilli tem em comum com Bolsonaro, Sérgio Moro, Amoêdo, o MBL e as viúvas da ditadura militar é o desejo de impor uma tirania liberal que sufoque a democracia. A liberdade que eles defendem é a liberdade de propriedade e a liberdade de correr riscos. Propriedade de terras, de armas, de monopólios de TV para os patrões. E liberdade de correr riscos para sobreviver ou não, no caso dos ditos empresários de si que de fato são trabalhadores. Mas para que essa liberdade seja total, a liberdade política precisa ser reduzida. Por isso Gentilli combateu e combate a política. Quanto menos as pessoas gostarem de política, mais os proprietários dela se apropriam. A liberdade de escolher nossos dirigentes oferecida pela democracia liberal é dioturnamente atacada, a ponto de Bolsonaro afirmar que ela só valerá se apontar a sua vitória nas urnas. Eis que Gentilli e seus amigos entraram num impasse. Para ocuparem o Planalto, precisarão defender a democracia liberal que querem destruir. As serpentes da tirania lutarão entre si. Torçamos pelo veneno.   

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