Das lutas pelo resgate da identidade e da autonomia à grande mobilização pela libertação nacional e patriótica

É preciso e tático, na direção de uma estratégia justa, que encontremos o veio central e frutífero para a libertação e resgate que englobem todas as causas e lutas

Papa Francisco defende povos indígenas no Sínodo da Amazônia
Papa Francisco defende povos indígenas no Sínodo da Amazônia (Foto: REUTERS/Remo Casilli)
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Prezado Dr. Raymundo Garcia Cota, Belém, Pará

Conhecê-lo na madrugada de 25 de novembro deste emporcalhado 2019, foi uma de minhas maiores honras.

Recepcionado pelo amigo em sua casa para um gostoso açaí cultural, pela manhã degustar o café, depois nos assentarmos para a conversa quilombola com o homem que saiu de um contexto dos mais oprimidos pela colonização e, depois, pelo capitalismo, foi tremendamente enriquecedor.

Até o almoço o senhor me iluminou com sua vasta esteira de conhecimento intelectual, notadamente a respeito de sua angústia como seminarista redentorista num ambiente de completo desinteresse pelas raízes quilombolas e negras, até que, corajoso, o senhor rompeu com o brutal massacre cultural representado por aquela ordem de teor colonial e embranquecedor.

O seu trabalho acadêmico numa universidade federal e pública foi e é insistente na busca da compreensão das raízes identidárias de valor emancipatório e libertário.

Segundo seus argumentos, o movimento honesto de quem busca as raízes de autênticas origens quilombolas, negras e indígenas e, se assumidas com ousadia e força, é  fator de libertação e de cura.

Depois do almoço fraterno com sua família e com a Bete, a trabalhadora de sua casa, que almoçou conosco na mesma mesa, viajei  para Cametá para participar e palestrar na “IV Jirau Agroecológico Baixo Tocantis”.

O evento, que se reuniu no Seminário católico romano Padre Josimo, reuniu grupos, associações, famílias de agricultores agroecológicos e pessoas envolvidas em projetos de plantio, escoamento, transporte e comercialização da sofrida e até perseguida agricultura que privilegia a alimentação e a saúde mais do que o comércio e o lucro com alimentos.

Com apoio da Universidade Federal do Pará e de várias organizações sérias, os segmentos envolvidos se  preocuparam em mostrar a infindável angústia que esse setor vive, completamente abandonado e perseguido por políticas incendiárias e neoliberais como as do miliciano e fascista Jair Bolsonaro.

Em suas preocupações os grupos centraram os debates na preservação dos campos de produção e na luta por direitos dos territórios, todos ameaçados de invasão e assalto pelo agrongócio e pelas corporações internacionais.

Na minha palestra, no entanto, procurei apontar um caminho mais longo, mais abrangente e mais mobilizador.

Disse-lhes que o reconhecimento das lutas de cada empreendimento é justo; que resgatar as raízes de identidade na construção da emancipação das terras, da produção e das origens deveria plenificar a todos de orgulho e não ao contrário, como acontece às pessoas que alisam os cabelos, que cobrem a pele de pó de arroz para esconderem sua cor e etnia verdadeiras..

Porém, é preciso e tático, na direção de uma estratégia justa, que encontremos o veio central e frutífero para a libertação e resgate que  englobem todas as causas e lutas.

Afrodescendentes, quilombolas, calangos, indígenas, lusos e todos os desdobramentos dessa rica correnteza ecumênica de nossa formação antropológica, política e economicamente ligados originariamente à classe trabalhadora, primeiro na terrível experiência escrava e, depois, no inferno capitalista, agora no ápice da decadência da crise orgânica do capital, desagregadora, desumana e antiplanetária.

Na luta pela união e libertação da classe trabalhadora, na mobilização gigantesca que o Brasil precisa e fará para se emancipar das garras dos rejeitos imundos do neoliberalismo e do seu chiqueiro chamado mercado, todos e todas nos reencontraremos com nossas identidades e a elas nos abraçaremos apaixonados pelas riquezas provindas de nossas raízes, principalmente como classe trabalhadora.

Penso que tomar como ponto de partida o contrário, como numa busca segmentada por identidades e autonomias isoladas de soluções existenciais nos divide e nos expõe aos energúmenos de plantão, como o fascismo, o milicianismo e seus bandidos sanguinários, peões delinquentes do imperialismo, do neoliberalismo e da latrina chamada mercado.

Ousar lutar e ousar vencer são marcas do povo mobilizado e em marcha. Venceremos!

Abraços críticos e fraternos,

Dom Orvandil.

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