De volta ao Brasil Colônia

O desprezo de Bolsonaro pelas minorias é um poço sem fundo. Ao invés de nomear um experiente sertanista, não. Assim como no século 16, ele nomeou um missionário para lidar com indígenas isolados. Sai o Estado e entra a igreja e o Brasil renuncia ao processo civilizatório

(Foto: Carolina Antunes/PR)
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Bolsonaro já consolida uma unanimidade internacional. Quase uma dezena de veículos da imprensa estrangeira o caracterizam como um etnocida. Bolsonaro coloca em prática o discurso de campanha, de não haver nenhum centímetro de terra homologada para os indígenas. Antes mesmo de enviar ao Congresso Nacional o abjeto PL 191/20, ele já havia empoderado o latifúndio, que despejou sobre os 900 mil indígenas ainda sobreviventes, a velha e cruenta carga que produziu a diáspora do século 16, provocando a morte de sete lideranças que ousaram defender os já restritos direitos de seus povos. Essa é a característica desse governo, ele é Bandeirante.

O Brasil ainda não pagou sua divida com os povos originários, condenados a 520 anos de adaptações, segundo a ótica do invasor, e já se vê em meio ao recrudescimento das Bandeiras e do extermínio de dezenas de milhares de indígenas das décadas de 1960 e 1970, pela ditadura militar. A comunidade internacional chama a atenção para um governo que atenta contra a sua própria gente para retirar-lhes as terras e entrega-las a mineradoras estrangeiras e ao agronegócio, que destruirão não apenas os biomas Amazônia, Mata Atlântica Cerrado e Caatinga. Quase um milhão de pessoas serão exterminadas por um governo eleito por voto direto. Além do crime de lesa-humanidade, tanto a grande fertilidade das terras brasileiras quanto a riquezas em ouro, ferro, urânio, petróleo, diamante, nióbio, serão entregues para o bem do desenvolvimento dos povos de outras nações.

Os europeus chegaram ao Brasil, a partir do século 16. A questão dos povos indígenas passou a ser de Estado a partir do século 20. Pouco mais de 130 anos sob os cuidados da República Federativa do Brasil. Políticas protecionistas passaram haver com a Constituição Federal, de 1988. Portanto, desde ontem, praticamente, os indígenas têm os direitos amplamente reconhecidos, embora, na grande maioria das vezes, não respeitados. Porém, desde então, todos os governos promoveram algum avanço no reconhecimento e no respeito à proteção dos territórios indígenas, como espaços imprescindíveis para a preservação e reprodução de suas culturas. Agora, todos os esforços estão sendo jogados fora pelo governo Bolsonaro.

Os ataques à dignidade dos povos indígenas não estão restritos apenas à região amazônica. A questão territorial dos Avá-Guarani, do Paraná, é vergonhosamente tratada pela Binacional Itaipu, que se recusa a reconhecer o direito de mais de duas mil vidas brasileiras, tratadas como inimigas da nação. Outra medida que ameaça a existência de todos os indígenas brasileiros é o Marco Temporal, que passou a orientar os votos no STF do artigo 231 da CF. A tese não leva em consideração quatro séculos de invasões e perseguições, que provocaram um imenso êxodo dos povos. Nesse sentido, eles teriam dificuldade de demonstrar a presença em determinado território, até a data da promulgação da Constituição Federal de 1988.

O desprezo de Bolsonaro pelas minorias é um poço sem fundo. Ao invés de nomear um experiente sertanista, não. Assim como no século 16, ele nomeou um missionário para lidar com indígenas isolados. Sai o Estado e entra a igreja e o Brasil renuncia ao processo civilizatório. Bolsonaro e sua política de retrocessos econômicos culturais coloca este gigante País de joelhos, humilhado. Todo esse atraso, inclusive o cultural, se sentirá por décadas. Num só golpe, Bolsonaro vai matar quase um milhão de pessoas, entregar as riquezas e a soberania do Brasil para outros povos. A sociedade está vendo isso acontecer e, inexplicavelmente, está inerte, aguardando acordar de um pesadelo. Porém, ele é real e o despertar só se faz com politização e mobilização social. Apoiar as minorias já é um passo rumo à compreensão que vivemos todos sob uma renhida e cruenta luta de classes.

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