Deixemos o pessimismo para tempos melhores

"Pelo visto, olhado de fora do Brasil, o país parece pior ainda. Se desenvolve uma visão pessimista, desalentadora, de quem não consegue apreender a realidade nos seus componentes contraditórios, que o compõem inerentemente", opina o sociólogo Emir Sader

Ex-presidente Lula
Ex-presidente Lula (Foto: Felipe Gonçalves - 247)
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Lula reitera, com razão, a prioridade do trabalho de consciência política do povo. Recebe logo uma réplica, de fora do país, de alguém que prevê que esse trabalho demoraria décadas ou até séculos (sic).

Ninguém como Lula conhece a importância do trabalho de transformação da consciência política do povo, ele que dedica sua prática política, em grande medida a isso, como o melhor comunicador de massas que temos. Quem não vive essa experiência de massas, corre o grave risco desse tipo de réplica, de quem nunca viveu o trabalho de conscientização do povo, no meio do povo, vivendo Suas realidades.

Pelo visto, olhado de fora do Brasil, o país parece pior ainda. Se desenvolve uma visão pessimista, desalentadora, de quem não consegue apreender a realidade nos seus componentes contraditórios, que o compõem inerentemente. Quem viveu outros momentos de retrocesso no Brasil, aprendeu da realidade como se pode reverter situações negativas.

O próprio Lula começou sua atividade política em plena ditadura, foi protagonista essencial na reversão daquelas condições. O otimismo é inerente à militância política, que sempre acredita que a prática política de massas pode reverter as derrotas e abrir horizontes mais favoráveis.

Nunca as situações difíceis demoraram décadas para ser revertidas. Essa é uma postura psicologista, que pode levar pessoas a se desmoralizar, até a sair do país (falar de séculos é uma demonstração do psicologismo).

Realmente o país nunca viveu uma situação tão difícil como esta. Qualquer um tem o direito, aqui ou lá fora, de manifestar seus estados de ânimo. Mas transformar isso em posição e previsão política é um grave erro político e tem um papel negativo, pela sua posição unilateral, redutiva, com um forte peso subjetivo, de quem  não conhece a realidade concreta.

Se acumulam hoje no Brasil uma crise econômica que, de recessão já no fim do primeiro ano do governo atual, se transformou em depressão econômica, sem que exista nenhum movimento que possa levar à superação dessa situação. Uma crise social, já existente antes da pandemia, quanto havia 12 milhões de desempregados e 42 milhões de pessoas em situação de precariedade. Qualquer tipo de avaliação diz que pelo menos metade da população brasileira se encontra em situação de precariedade.

A elas se acrescenta a crise de saúde pública, que levou o país a ser o segundo no mundo em vítimas, pela total ausência de políticas governamentais que protegesse o povo da pandemia. A existência de um governo eleito de forma fraudulenta e que exerce o poder das formas mais arbitrárias e truculentas, agrega uma crise política à situação atual do país.

Os indispensáveis, segundo Brecht, são os que não esmorecem nunca, os que acreditam que sempre é possível reverter as situações, por maiores que sejam as dificuldades. Sao os que tem liderança e credibilidade, porque nunca desanimaram, nunca caíram no pessimismo, são os que conduziram o povo a reverter as situações mais difíceis.

O pessimismo é uma postura psicológica, que seleciona e acumula os aspectos negativos da realidade e projetam um futuro catastrófico. Não tem força assim para enfrentar a realidade como ela é, que nunca tem uma única tonalidade. O pensamento dialético ensina captar a realidade sempre como uma realidade contraditória, que combina elementos positivos e negativos. Por isso é uma realidade dinâmica, sempre em transformação, numa ou noutra direção.

Não é simples captar a realidade nas suas múltiplas dimensões. Só a prática política concreta, combinada com a capacidade de reflexão sobre suas múltiplas dimensões concretas, permitem compreender a realidade e se pronunciar e propor formas e vias de transformação positiva da realidade. 

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