Democracia em disputa (a catarse de Petra e do Brasil)

"Pensem no final do filme apenas como um novo começo, mas agora com a consciência daquilo que deixamos de fazer no passado, pois a nossa democracia ainda está em disputa", escreveu o colunista

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O documentário “Democracia em vertigem”, da diretora Petra Costa, neta de um dos fundadores da empreiteira Andrade Gutierrez e filha de dois militantes da esquerda brasileira, está recheado de imagens poéticas e de depoimentos reveladores. O filme é capaz de comover os corações mais duros, sendo que em vários momentos as imagens falam muito mais do que as palavras. Às vezes é um olhar, uma sala vazia, em outras uma sombra ou até o movimento lento de Temer para "ficar bem na foto". As cenas que mostraram a solidão de Lula e de Dilma foram as que mais me preocuparam e senti as ausências de Haddad, Manu e Boulos. Mas, como um filme jamais conseguirá reproduzir tudo o que ocorre na vida, e como este belo documentário também é um tipo de álbum de família, eu preferi refletir apenas sobre as três perguntas que Petra deixa no ar:

  • Como lidar com a vertigem ao ser lançado em um futuro que parece tão sombrio quanto o nosso passado mais obscuro?
  • O que fazer quando a máscara da civilidade cai e o que se revela é uma imagem ainda mais assustadora de nós mesmos?
  • De onde tirar forças entre as ruínas e começar de novo?

Encontrei algumas respostas no próprio filme, como o depoimento de Gilberto Carvalho, em que ele dá uma importante pista para entendermos por que não houve resistência capaz de impedir o golpe de 2016. Segundo ele, o PT nasceu contestando toda forma vertical, burocrática, corrompida de fazer política e, na medida em que foi crescendo, ignorou que no capitalismo as conquistas de direitos ocorrem somente na base da mobilização e da luta social. Ou seja, a militância do PT, assim como a de boa parte da esquerda brasileira, ainda precisa entender que o povo só aprende a partir das disputas públicas, e que as categorias, as classes sociais e os indivíduos precisam passar por experiências práticas para reconhecer as suas forças e refletir sobre elas. 

Sob este ponto de vista, as inaugurações de obras, as audiências, as votações no parlamento e as conferências setoriais, por exemplo, deveriam servir para aumentar o controle social sobre a coisa pública, revelar quais são as forças em disputa e qual é a posição dos empresários, dos juízes, dos jornais, dos políticos e dos nossos vizinhos. Dessa forma, o papel das forças libertárias deveria ser o de organizar e/ou de participar junto com os movimentos sociais, e não priorizar apenas as ações parlamentares e/ou dos governos. 

É preciso lembrar que, apesar desta “imagem assustadora de nós mesmos”, nos dias atuais temos a internet na palma da mão para organizar as lutas e refletir sobre elas, pois vivemos num tempo em que as informações e o conhecimento quebram distâncias, revelam virtudes e também inúmeros preconceitos que precisam ser desconstruídos. Se antes pertencíamos a uma cidade, hoje já nos sentimos parte de uma aldeia global e planetária. Se agora estamos aqui dialogando por meio deste artigo, daqui a pouco estaremos virtualmente na casa de outras pessoas, em outras cidades e em outros países, via redes caórdicas e multifacetadas de relacionamentos. O fato é que cada um de nós, assim como Petra, está se tornando um (a) porta-voz da humanidade inteira e as nossas ideias já circulam por dutos subterrâneos e por satélites em volta do planeta.

Em um momento do filme, Dilma afirma que a governabilidade também depende da correlação de forças políticas nos estados (UFs). Segundo essa visão política e eleitoral, as lideranças da esquerda não estão conseguindo transformar a sua realidade e permanecem como reféns da sociedade conservadora regional. Essa advertência de Dilma, se bem compreendida, pode contribuir para “tirar forças entre as ruínas e começar de novo”, antes que essa cegueira política, que somente debate a macropolítica, contamine definitivamente as nossas relações pessoais e políticas. 

A verdade é que este período da história está exigindo que sejamos mais sensíveis, rebeldes e, ao mesmo tempo, criativos (as) para tensionar diretamente com as culturas conservadoras e burocráticas que foram criadas para atender aos interesses de pequenos grupos e de vários gabinetes parlamentares. Se os nossos porta-vozes não conseguirem combinar as suas ações com as demandas dos coletivos e dos movimentos sociais regionais, não iremos dialogar com as diferentes comunidades e também não teremos poder político para enfrentar as disputas nacionais. 

O problema é que no Brasil ainda persiste uma inércia política caracterizada pela crítica contemplativa, pelo culto às personalidades e pela dispersão dos esforços práticos. Isso acabou fragmentando o debate público e atrasando a formação de movimentos unificados regionais. As pessoas e as organizações ainda precisam trabalhar melhor essas questões para alcançarmos uma maturidade política que seja crítica e também comprometida com a mudança prática da realidade. No entanto, para isso ocorrer, será fundamental reconhecer as mudanças profundas que ocorreram na estrutura de classes nesta nova fase do capitalismo mundial, baseada na automação e nas relações digitais/tecnológicas, e elaborar um plano estratégico regional/global que contemple o envolvimento de diversos setores da cidade e do campo.

Sabemos que muitas pessoas e organizações seguirão acomodadas nas suas zonas de conforto e que elas não irão sublimar os seus impulsos egoístas e infantis, mas uma leitura pública do documentário poderá contribuir para substituirmos a obediência cega às direções partidárias e abandonarmos o hábito de falar apenas para os convertidos, como se fôssemos adictos. Ou seja, as realidades regionais precisam ser reconhecidas a partir dos seus contraditórios e não como fotografias amareladas pelo tempo, em que as vaidades e/ou as avaliações fantasiosas geram estas conhecidas vertigens. 

O documentário também mostra o depoimento de uma faxineira do Palácio do Planalto que é um retrato fiel do diálogo que precisa ser realizado junto com as comunidades, pois ela representa aquela parcela da população que não compreende claramente o que está ocorrendo e, por isso mesmo, não participa das disputas políticas. É um testemunho sincero, que revela as contradições que existem na mente de algumas pessoas, principalmente daquelas que ficaram paralisadas frente ao golpe jurídico-midiático-parlamentar, e que agora estão perdendo os seus direitos. Enquanto não entendermos que os fenômenos da alienação do trabalho e da exploração dos trabalhadores são muito mais complexos e não podem ser resumidos em uma simples adjetivação (pobre de direita, coxinha etc), de um julgamento infantil, teremos de dialogar muito entre nós para conseguir “tirar forças entre as ruínas” e enfrentar os ataques à soberania nacional, a precarização do trabalho, a privatização da aposentadoria, os cortes de verbas nas áreas da educação e da saúde, a entrega do Pré-Sal, a venda da Petrobrás, a exploração das terras indígenas e quilombolas etc.

Enfim, com base nesses depoimentos, acredito que o documentário conseguiu mostrar que algumas ilusões caíram por terra, que as certezas viraram dúvidas e que aquele futuro que parecia sólido se desmanchou no ar. Ao mesmo tempo, quem assistiu e se emocionou, acabou revelando que a democracia ainda pulsa viva dentro de cada um (a) de nós e que o mal-estar ocorre exatamente porque estamos realizando uma verdadeira catarse individual e coletiva. 

Se entendermos essas contradições da vida, o filme de Petra terá alcançado uma dimensão de criatividade capaz de dialogar com os seus/nossos fantasmas e, ao mesmo tempo, provocar uma profunda catarse no Brasil. Se outras pessoas realizarem esses verdadeiros ritos de passagens, teremos mais chances de organizar e realizar novas e maiores manifestações políticas pelo país e pelo mundo. 

É bom lembrar que o filme foi lançado logo após as grandes manifestações (#8M, #FestivalLulaLivre, #EmDefesaDaEducação e #GreveGeral)  e quando estavam surgindo as primeiras revelações do The Intercept Brasil sobre as injustiças promovidas pelo juiz Sérgio Moro, as forças da Lava-Jato e os órgãos da grande mídia, capitaneados pela Rede Globo. Portanto, recém começaram a cair as máscaras de quem quis transformar as forças de esquerda, a comunidade LGBT, os povos indígenas e os artistas, por exemplo, em inimigos externos para distrair os iniciados na política. Sabemos que uma estratégia semelhante ocorreu na Alemanha nazista e que ainda é uma arma utilizada pelo sionismo israelense, pelos milicianos do grupo islâmico Boko Haram, na Nigéria, e, mais recentemente pelos neonazistas europeus e norte-americanos. Aqui no Brasil ela está sendo empregada pelos falsos nacionalistas e por seitas neopentecostais, para encobrir as disputas internacionais pelas nossas fontes de energia, pelo domínio das nossas tecnologias e dos nossos mercados. Se considerarmos que todas as críticas e autocríticas necessárias para superar o trauma do golpe ainda não se tornaram públicas, o filme “Democracia em Vertigem” e as publicações iniciadas pelo The Intercept Brasil poderão contribuir para que as pessoas e as organizações promovam essas e outras reflexões importantes em cada bairro e em cada cidade do país. Uma coisa é certa: se não aproveitarmos este momento (de catarse individual e coletiva) para analisar e refletir sobre as imagens e os depoimentos que Petra conseguiu registrar, a máscara da civilidade vai demorar pra cair, e uma sensação de vertigem poderá nos acompanhar pelo resto da vida. 

Pensem no final do filme apenas como um novo começo, mas agora com a consciência daquilo que deixamos de fazer no passado, pois a nossa democracia ainda está em disputa.

Ricardo Almeida. Junho de 2019

 

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