Denunciocracia da Lava-Jato desacredita MP

À falta de provas, o espetáculo orquestrado por Dalagnol acabou sendo um tiro no pé da própria Lava-Jato

O procurador da República Deltan Dallagnol, que integra o núcleo da Operação Lava Jato, participa de lançamento, no Rio, do projeto 10 Medidas Contra a Corrupção, do MPF (Vladimir Platonow/Repórter da Agência Brasil)
O procurador da República Deltan Dallagnol, que integra o núcleo da Operação Lava Jato, participa de lançamento, no Rio, do projeto 10 Medidas Contra a Corrupção, do MPF (Vladimir Platonow/Repórter da Agência Brasil) (Foto: Ribamar Fonseca)
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Todo mundo já sabia que depois da cassação de Cunha o próximo alvo seria Lula. E não deu outra. Tudo foi devidamente cronometrado e o circo foi armado cuidadosamente pelo pessoal da Lava-Jato, com gráficos e projetor de slides, para o grande espetáculo: a denúncia do ex-presidente. A imprensa foi convocada e os procuradores se sentaram solenemente diante dos holofotes – só faltou a bolinha vermelha no nariz – fazendo figuração para que o maestro da denunciocracia, o procurador Deltan Dallagnol, esgrimindo a batuta, anunciasse a "bomba": Lula é o "comandante máximo" do esquema da Petrobrás, o "maestro da orquestra criminosa". A Globo fez a festa, com chamadas o dia inteiro para o Jornal Nacional, que gastou praticamente todo o seu tempo com a notícia tão desejada pelos golpistas. Os procuradores tiveram seus minutos de fama, mas não houve tempo para curti-la porque a farsa foi imediatamente desmascarada: em todo o espetáculo faltou o principal – a prova.

Na verdade, toda a verborragia de Dallagnol se limitou a ilações, apoiadas por um gráfico que sugeria ser Lula o grande chefe da corrupção no país. E o tiro saiu pela culatra, pois a reação foi a mais negativa possível. Entre as muitas críticas ao circo montado pelo pessoal da Lava-Jato, que não apresentou absolutamente nada que pudesse nem de longe incriminar o ex-presidente operário, a "Folha de São Paulo", em editorial, disse que "fica a impressão de que, sem conseguir apresentar evidências mais robustas contra Lula, o Ministério Público Federal tenta suprir a lacuna com retórica". E acrescentou: "A ninguém escapa, afinal, que Lula era o chefe político; mas daí a ser o chefe criminoso há uma distância que precisa ser superada com provas". Nenhum magistrado sério aceitaria semelhante denúncia justamente pela total ausência de provas, mas, apesar do descrédito dos denunciantes, o estrago foi feito entre telespectadores menos atentos. Houve estragos, também, para o próprio Ministério Público, por conta da denunciocracia dos seus procuradores em Curitiba.

Os mais importantes jornais do mundo reagiram à denúncia do pessoal da Lava-Jato com matérias exaltando a figura de Lula, destacando-o como o maior presidente que o Brasil já teve. Até colunistas reconhecidamente antipetistas, como Reinaldo Azevedo, disseram que a "bomba" orquestrada por Dallagnol foi mal recebida na Procuradoria Geral da República, onde provocou enorme decepção, já que contribuiu para desacreditar o Ministério Público. Na contramão das críticas à atitude dos procuradores, porém, o senador Aécio Neves, sempre oportunista, distribuiu nota dizendo que "o PSDB, ao lado dos brasileiros, acompanhou a apresentação dos graves fatos narrados", acrescentando que "o partido aguarda a importante e necessária decisão da Justiça". Convenhamos: é muito cinismo. Provavelmente sentindo-se seguro com a blindagem do Judiciário, do Ministério Público e da mídia, Aécio finge ignorar a denúncia de Alberto Youssef, de que seria beneficiário de um esquema de propinas em Furnas; que foi questionado na Justiça sobre o paradeiro de mais de R$ 4 bilhões destinados à saúde de Minas; dos R$ 14 milhões de recursos públicos que gastou na construção de um aeroporto em terreno da sua família; da holding no principado de Liechtenstein em nome da sua família, tudo devidamente esquecido pelo PGR Rodrigo Janot.

O fato é que, à falta de provas, o espetáculo orquestrado por Dalagnol acabou sendo um tiro no pé da própria Lava-Jato. Parece que chegou o momento do chefe de o Ministério Público trocar os procuradores daquela força-tarefa por servidores mais sérios, mais maduros, mais equilibrados e mais justos, de modo a assegurar a sobrevivência da própria operação, hoje ameaçada pelo Governo Temer, conforme denúncia do ex-Advogado Geral da União Medina Ozório, a fim de que ela possa efetivamente caçar os verdadeiros corruptos. É preciso, também, aproveitar a água e lavar a si própria, higienizando-se do ódio inexplicável que a colocou no encalço de Lula e dos petistas. A sua tarefa aparentemente será até mais fácil, porque enquanto vêm suando a camisa há dois anos para encontrar alguma coisa que possa incriminar o líder petista, virando a sua vida e dos seus familiares pelo avesso, para encontrar os verdadeiros corruptos basta desengavetar as denúncias de alguns delatores, em especial da Odebrecht e da OAS. Afinal, chega dessa música repetitiva conduzida pelo desafinado maestro com nome de remédio.

Na verdade, já é tempo de alguma autoridade séria conter a escandalosa perseguição aos petistas, que salta aos olhos até dos jornalistas estrangeiros. Criaram-se algumas operações, como a Zelotes, por exemplo, para caçar sonegadores e, no entanto, embora todos conheçam os grandes sonegadores deste país, entre eles empresas de comunicação, os investigadores dirigiram suas investigações para o Instituto Lula. Uma vergonha. Outra operação, a Acrônimo, persegue o governador Fernando Pimentel, do PT. Se ele fosse de outro partido, do PSDB, por exemplo, estaria imune. Para completar o quadro de exceção, a PM do governador tucano Geraldo Alkmin passou a reprimir com violência as manifestações pacíficas, contribuindo para enterrar a democracia. O Poder Judiciário precisa urgentemente controlar a fúria perseguidora dessa gente, do contrário o país ficará claramente sob uma ditadura jurídico-midiática que poderá descambar para uma guerra civil. Ninguém, afinal, se sente seguro num país onde não existe Justiça.

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