Deontológico

Não entendo a gritaria dos esquerdopatas contra a extinção dos cursos de filosofia e sociologia, disse o coach, professoral, para o pequeno grupo de futuros consultores que o contratara. São ramos do saber necessariamente transversais

Deontológico
Deontológico

Gordo veste o que cabe. Não tem essa de moda ou de estilo. Cada um se vira como pode.

Sala sóbria, pequena, em um decadente edifício comercial no centro da cidade. Cinco poltronas em círculo. Reproduções de pinturas de Dali nas paredes. Uma única porta ao fundo. Deve ser o banheiro. A um canto, a máquina e caixa com as cápsulas de café, açúcar, adoçante e um pote de bolachas.

Com quase catorze milhões de desempregados, o Brasil está diferente. A turma do fundão que chegou ao poder em 2016 agora depende das migalhas que sobram da farra protagonizada pela turma que havia sido expulsa do colégio, como menciona o bruxo Normando. Estamos sendo governados por um bando de malucos que se obstina em sua revanche contra quem antes deles desdenhava, por ignorantes. Os empregos desapareceram. Lixo, os que sobraram, depois da reforma trabalhista. Consumado o desastre, cada um tem que dar seus pulos. Muitos recorrem a conselheiros profissionais, como vocês.

Não entendo a gritaria dos esquerdopatas contra a extinção dos cursos de filosofia e sociologia, disse o coach, professoral, para o pequeno grupo de futuros consultores que o contratara. São ramos do saber necessariamente transversais. Os filósofos ficam tentando interpretar o mundo ao invés de transformá-lo. Os sociólogos descrevem a realidade social sem se atentar ao que realmente importa. A atualidade demanda profissionais polivalentes que, além de sua especialidade técnica, sejam versados em humanidades e conhecimentos gerais. Vá procurar emprego com um diploma de filosofia ou de sociologia embaixo do braço para ver o que é bom pra tosse. São novos tempos, ensinou com sua ética diferenciada, inovadora.

O mundo do trabalho mudou. Quem chega antes bebe água mais limpa. Tudo é questão de tomada prévia de posição. Vocês por exemplo poderiam enxergar a si mesmos como desempregados, atraindo contra si um conjunto de preconceitos. Optaram, todavia, por não aceitar pacificamente o rótulo de luzers, sabem se reinventar, turbinam-se. Isso faz toda a diferença, como lhes expliquei na semana passada. Gostei de vê-los hoje, cabeças erguidas. A postura de vocês já está melhor, compreenderam a importância do coaching vegano quântico para uma reorientação vital.

Vocês estavam, involuntariamente, fora do mercado e sem perspectivas de recolocação. A partir de agora são outras pessoas, prestam consultoria. Por vontade própria preferem não se submeter a contratos formais, primam pelas suas liberdades. Não desejam os grilhões das jornadas de trabalho preestabelecidas. Sissepuede, diria um espanhol. Empresários de si mesmos, oferecem suas competências, habilidades e experiência ao Mercado, vinculando-se aos objetivos do contratante. Ao salário fixo, modulado temporalmente, preferem a remuneração pelos resultados que obtiverem para os clientes. Vocês agora são uiners, vencedores, contemporâneos da ética e das vicissitudes desses novos tempos.

Estão, como milhares, na mesma situação, por isso preferiram essa tutoria coletiva com metodologia inovadora. Retomemos de onde havíamos parado. O corpo fala, emite sinais, transmite significados.

Você que desperdiçava sua vida nos tribunais doravante será consultora de relações de trabalho. A profissão de advogado patronal tende a desaparecer. Astuta, você se antecipa. Com esta ressignificação profissional não cabia mais ostentar aquele visual andrógino, terninho, cabelo preso. Muito bem. Adorei o vestido, os saltos altos. Mas ainda não sabe se sentar adequadamente. Os joelhos, como o decote, devem estar discretamente à mostra, conotando segurança. O queixo levemente para cima. Isso. Essa bolsa está muito pequena. Prefira uma maior. Passa a ideia de responsabilidade.

Sua gravata não está no cumprimento certo, parece um babador. Tente alongá-la. Os sapatos estão surrados. E, por favor, meias sempre pretas. Um consultor de sistemas de qualidade deve se apresentar com adequação e, se possível, deixar de comer proteína animal. O controle de qualidade começa pelas escolhas alimentares.

Já você ainda não acertou. Não basta usar camisa e sapatênis. Veja sua postura. Jogado na cadeira. Sente-se direito. Melhorou. Experimente deixar as pernas mais fechadas. Ou cruzadas. Bem melhor. Você não é mais o nerde da informática. É consultor de soluções digitais. Desempenhará as mesmas funções, ou quase, mas terá um outro status. Melhor cortar um pouco mais esse cabelo. Talvez um bigode, tipo Freddie Mercury, avalie, algo mais vintage.

Por fim, a mocinha aqui. Pelo jeito resiste. Esse cabelo colorido, essa montoeira de brincos e pírcins, já lhe disse, não ornam com uma consultora de márquetim. Não tem como trocar de pele, mas podia esconder um pouco essas tatuagens nos braços, no peito e nas pernas. A alternativa é usar calças compridas, salto alto, camisas de manga longa. Você sabe que o mercado está competitivo. Ser vegana não basta. Por mais criativa que seja, não conseguirá colocação razoável com esse visual rípi. Quer ser consultora de novas estratégias de mercado, ganhando bem, ou prefere disputar espaço a cotoveladas com dezenas de outros descolados, ganhando salários miseráveis, no subsolo dos departamentos comerciais? O visual faz as pessoas, localiza-as na pirâmide social, e não precisa cursar filosofia ou sociologia para entender isso. Tem muito a melhorar. Vamos chegar lá.

Seguiram-se longos minutos em que o coach coachou obviedades e frases feitas plagiadas de livros de auto-ajuda, customizadas adoque, colhidas junto a outros que se dedicam ao nobre mister de orientar carreiras alheias, mesmo sem grande êxito em suas próprias. Respondeu, chutando com os dois pés, as dúvidas de seus couchis, sempre insistindo na necessidade de eliminar os limitadores mentais e emocionais que nos escravizam, e de evitar as carnes, ovos e leite, acreditando na possibilidade de potencializar nossas energias, nossos talentos e diferenciais que quanticamente nos conduzirão aos novos patamares espirituais e emocionais, essenciais a carreiras de sucesso.

Satisfeitos. Despediram-se depois de combinarem quais páginas da apostila deveriam ser lidas para o próximo encontro e se comprometerem a, pelo menos, evitar as carnes vermelhas.

Em um átimo sentiu vergonha, mendaz, vigarista tomando dinheiro de tolos. Tinha consciência de que não lhes dissera nada inteligente, que tudo havia sido a rasa enroleichom de sempre. Auto-indulgente, confortou-se. Cada um ganha o seu como consegue. De fato, coach nem é gente. Diz o que os cretinos que o contratam querem ouvir. Como um padre na confissão, um terapeuta emocional, uma cartomante, um pastor pentecostal. Ética é para quem se concede esse luxo. Havia sido uma grande sacada agregar o quântico à descrição de suas atividades. Juntou Einstein com o esoterismo indiano, a ciência sistêmica à meditação e à alimentação saudável, a teoria da relatividade às técnicas de massagem e da respiração. Identificara um novo mercado potencial, de gente que acredita em horóscopo, na providência divina, em alinhamento de chacras, de astros e de destinos, sem determinismos ou generalizações. Prosperar é, antes de tudo, inventar clientela. A malandragem não acaba enquanto houver otários.

Com apenas quatro ou cinco grupos de clientes semanais sobrava-lhe tempo para o desenvolvimento de outros produtos para tão ávida clientela. Empreendedor. O alinhamento energético, panaceia, tinha tudo para encantar. Logo serão lançados dois novos produtos. O jejum quântico, intermitente, fantástico, durante um mês inteiro só arroz, de doze em doze horas, para desintoxicar corpo e espírito, e o tônico capilar quântico, feito de vinagre de saquê, que atua prevenindo a calvicie e energiza os neurônios. A idade das pedras não acabou por falta de pedras, exclamou com deltânica convicção. A massa carece de mitos, ilusão e fé. Precisa. No mínimo recuperarão a confiança em si mesmos, e emagrecerão, concluiu, deôntico, ao lembrar de uma epígrafe do velho Rosa. Sapo não pula por boniteza, pula por precisão.

 

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Cabaços

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