Desafio para a oposição é repetir 1974 em 2020

o resultado do pleito de 1974 surpreendeu até mesmo o mais otimista dos dirigentes oposicionistas: o MDB conquistou nada menos do que 16 dos 22 senadores, cabendo à Arena apenas seis. Este resgate histórico tem o objetivo de chamar a atenção para a responsabilidade da oposição a Bolsonaro nas eleições municipais de 2020

Em 15 de novembro de 1974, o eleitorado brasileiro foi às urnas para escolher os ocupantes das 22 vagas em disputa para o Senado e a totalidade das 364 cadeiras que à época compunham a Câmara dos Deputados. Quatro anos antes, quando boa parte da oposição pregara o bicote às urnas, já que muitos dos seus líderes estavam presos, cassados, banidos ou mortos, a Arena obtivera uma esmagadora vitória.

Mas o resultado do pleito de 1974 surpreendeu até mesmo o mais otimista dos dirigentes oposicionistas: o MDB conquistou nada menos do que 16 dos 22 senadores, cabendo à Arena apenas seis. O MDB venceu as eleições para o Senado no Acre, Amazonas, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Guanabara, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe. Na Câmara, a oposição avançou de forma significativa, elegendo 161 deputados de um total de 364 cadeiras, alcançando 44% dos votos.

Abalada em seus alicerces, a ditadura reagiria com a Lei Falcão, que só permitia a exibição da foto do candidato e a narração breve de seu nome, número e currículo político, e o famigerado Pacote de Abril de 1977, instituindo a eleição indireta para os governos estaduais e a nomeação de senadores biônicos. Contudo, a eleição de 1974 marcou o começo da curva descendente da ditadura e o fortalecimento da oposição ao regime, tanto no plano institucional como nos movimentos sociais. Os sindicatos, o movimento estudantil e as lutas pela anistia e contra a carestia ganharam novo fôlego.

Este resgate histórico tem o objetivo de chamar a atenção para a responsabilidade da oposição a Bolsonaro nas eleições municipais de 2020, primeiro embate eleitoral entre o nazi-bolsonarismo no poder e as forças democráticas, populares e progressistas. Antes, faço duas ressalvas que julgo importantes:

1) O centro da luta no momento é a mobilização contra a reforma da previdência social, bem como em defesa da soberania nacional e dos direitos sociais, civis e políticos ameaçados.

2) Eleições municipais têm caráter diferente das eleições para deputado, senador, governador e presidente, pois, obviamente, as questões locais são prioritárias. Mas nas capitais e cidades das regiões metropolitanas o componente nacional costuma ter grande peso.

Refletir sobre 2020 não significa colocar o carro à frente dos bois, mas sim começar a pensar desde já em como evitar erros táticos e construir a maior unidade possível das oposicões. Até porque as mobilizações populares por direitos e pela democracia, aliado à resistência parlamentar e institucional, são fatores com potencial para influenciar a eleição de prefeitos e vereadores.

O desmoronamento em tempo recorde dos índices de popularidade de Bolsonaro projeta a possibilidade real de a oposição reeditar o velho MDB de 1974, impondo uma dura derrota à extrema-direita bolsonarista.

Desde que faça um esforço genuíno para deixar de lado vaidades e projetos pessoais. Desde que, respeitados os legítimos anseios partidários por afirmação e crescimento, a escolha das candidaturas se paute pelo critério da viabilidade eleitoral para derrotar os candidatos não só do fascismo, mas da direita de viés republicano. Desde que a unidade da esquerda deixe de ser mera figura de retórica e seja perseguida obsessivamente através de palavras e ações concretas.

Se é verdade que são imensos os obstáculos para que esse grau de maturidade política da esquerda e dos democratas em geral seja alcançado, também é fato que, na atual encruzilhada histórica, as lideranças dos partidos deste segmento estão condenados a apostar suas fichas na unidade. É isso ou o avanço do obscurantismo. É isso ou a consolidação da barbárie fascista.

A título de especulação, no Rio de Janeiro, uma chapa encabeçada pelo deputado Marcelo Freixo, do PSOL, por exemplo, com um vice do PT, concorreria com chances reais de conquistar a prefeitura. Cito o caso do Rio menos por ser a cidade em que vivo e mais para sublinhar o tipo de esforço que julgo necessário ser feito em todas as capitais. A gravidade do momento vivido pelo país exige dos partidos comprometidos com a restauração democrática desprendimento e visão estratégica.

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