Desamparo, delinquência, terrorismo

www.brasil247.com - O bolsonarista Antônio Cláudio Alves Ferreira ao destruir o patrimônio público brasileiro
O bolsonarista Antônio Cláudio Alves Ferreira ao destruir o patrimônio público brasileiro (Foto: Divulgação/Presidência da República)


Provavelmente ele não sabe a diferença entre direita, esquerda, tampouco o que é democracia, quiçá fascismo, nazismo. Cresceu sem pai numa favela. Sofreu abuso sexual do padastro desde criança, entre outros tipo de violência e humilhação. A mãe, faxineira, trabalhava o dia todo, inclusive aos sábados, pouco se encontravam. Seu maior sonho era se tornar policial para descer o cassete nos pobres e negros da favela, como a polícia sempre fazia com ele e seus colegas - as batidas policiais na favela são constantes. O pai os abandonou quando ele era recém nascido - saiu de casa, arrumou outra mulher, constituiu outra família. Nunca o conheceu, o que lhe provocava grande revolta. 

Eis um fragmento - depoimento de uma pesquisa entre jovens, alunos de uma escolha pública em uma favela de Belo Horizonte. Cenário propício na produção de vândalos, delinquentes. Sabemos que as perspectivas são escassas - um futuro morto os aguardava. Sonhar com uma profissão estava fora do radar da turma. "Acho que serei pedreiro, igual meu pai". "O que mais desejo é ganhar dinheiro e comprar uma casa pra minha mãe". "Eu assalto mulheres ricas na rua pra comprar uma arma, vou matar meu padastro, aquele desgraçado que desde pequeno me maltrata". Talvez os relatos nos ajudem a refletir sobre o perfil de alguns jovens que participaram dos atos terroristas em Brasília no "Oito de janeiro". Interessa debater quais as motivações subjetivas que levam o sujeito a se envolver em atos criminosos. Não podemos analisar apenas os aspectos objetivos, desconectados da realidade que produzimos. A sociedade atual, de consumo, espetacular, é um ritual de competição embalado por sentimentos de inveja, ressentimento. A disputa em torno de beleza, sucesso, brilhos e grana não é fácil. Somos bombardeados por imagens na TV, redes sociais que provocam revolta, humilhação, desespero. Como é possível ser feliz sendo pobre, negro e feio num mundo que valoriza o branco, rico e bonito?  Todos querem participar da festa, mas poucos são os incluidos. A exclusão é um convite à agressão, violência, crimes. Impossível debater os fatos sem relacioná-los com a sociedade capitalista que,  nos anos do governo Bolsonaro, aprofundou o fosso, tornando-a ainda mais excludente, rascista, arrogante. Ostentar, palavra de ordem - motociata, moto-chanchada, imoral, obsceno. A extrema-direita promoveu o ódio, o deboche aos subalternos - desprezava e humilhava quem não pertencia ao projeto de supremacia branca. Os negativos sociais, ao serem cooptados como massa de manobra, se sentiram contemplados. Talvez o  jovem que destruiu o relógio deve ter visto no convite à invasão aos poderes uma chance de ser reconhecido - daí seu empenho e valentia no ato. Todos nós demandamos afeto, amor, carinho. O convite deve ter soado como um chamado divino, um olhar diferenciado a ele -  um lugar a pertencer, ilusão de acolhimento. 

A imagem do jovem negro quebrando o relógio histórico, a joia do período colonial - seu rosto imóvel no vídeo expressava ausência de sentimento, um deserto afetivo. Estou aqui no Olimpo dos poderosos, corruptos - políticos ricos que usufruem do dinheiro público com a maior desfaçatez há anos!!! Agora chegou a minha vez. Não foi por bem, vai por mal. A todos vocês o meu escárnio. Sou o monstro que vocês geraram, esse rebotalho que perambula pelas ruas em busca de um lugar pra existir. Sou as entranhas, a crueldade da desigualdade social, da Falta do pai e de políticas publicas que desapareceram. Sou a franja do fascismo. Desculpem, foi mal, até que o relógio era bonito, mas a minha merda não permite perdoar símbolos, história, memória. A dor que vocês me provocaram já se transformou em pedra, torrão, paralepípedo.

A metáfora serve para nos lembrar que a delinquência é filha do descaso, do racismo, injustiças. Tudo junto leva o sujeito a passar ao ato, desejo de participar do Banquete Totêmico. Depredar relíquias é Gozar com o pau da falta de vergonha dos poderosos,  vaidosos que sempre saqueiaram o erário público. Políticos que, além dos altos salários, ainda nos roubam. Qual o quê? Quem são os responsáveis pelo ódio que depredou Brasília, para além do Mentor maior e seus apoiadores, financiadores? Muitos, de vários segmentos. Onde nos incluímos? Ele já está preso, claro que a punição se faz necessária. Mas, lembremos, ninguém nasce terrorista. 

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