Desejo de matar

O pior dos monstros pode ser o engenheiro, mas também o médico, e, quem sabe, até um capitão, todos podem sê-lo. A tarefa é interditar a estes indivíduos e seu desejo de matar, a sua insana marcha no poder alimentada unicamente por suas graves patologias em seus passeios multitudinais homicidas

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Corria o ano de 1974 quando em 24 de julho foi lançada a produção “Desejo de matar”, filme dirigido por Michael Winner. Hollywood trazia então à público película que comporia a listagem de precursores do cinema de enfrentamento e alimentador do ódio. O núcleo duro de seu roteiro escrito por Wendell Mayes destacava a reação violenta do homem comum que se transforma em justiceiro infame uma vez ofendido pela dor derivada de ação criminosa, cuja não reparação pela justiça direta e imediatamente. Desacreditando o sistema como ineficiente, passava a justificar a realização da “justiça” com as próprias mãos.

Desejo de matar” trouxe o conhecido ator Charles Bronson como personagem central na pele do arquiteto Paul Kersey, habitante de uma violenta cidade de Nova Iorque em que a segurança pública estava colocada em cheque pela invasão desordenada de grupos étnicos distintos do caucasiano dominante. No filme de Winner está muito claro e bem determinado quem são os grupos étnico-raciais aos quais combater: eram os latino-americanos e negros, sucessivas vezes representados como assaltantes e perigosos indivíduos.

Bronson interpretou o papel do arquiteto Paul que transitara de uma posição de boa inserção social para a de um criminoso disposto a executar quaisquer supostos criminosos com que deparasse, sendo múltiplos os perfis assassinados identificados com negros e latinos. A matança como forma de “purificação” da sociedade começava ali. O roteiro de forte conteúdo conservador enfrentava a visão cultural ainda predominante no período, fortemente impactada pela contracultura, mas que começaria a ceder espaço para os primeiros momentos da ascensão conservadora que apenas se consolidaria com Reagan logo no início da década subsequente.

O roteiro de Desejo de Matar está orientado habilmente em três grandes movimentos bem concatenados e orientados a uma finalidade mobilizadora do ódio. No primeiro deles é descrito o homem virtuoso norte-americano, caucasiano, por suposto, mas abrangente o suficiente na face de Bronson para compreender os mais diversos tipos. A sua vida particular é apreciável, êxito em sua profissão, com uma família não menos sedutora e atraente para qualquer indivíduo médio. Este é o indivíduo que dispõem de ganhos aceitáveis, profissional liberal, desfrutando de reconhecimento social, bom nível de consumo, relações familiares estáveis, enfim, um paraíso para tantos atormentados espectadores que sofrem indizivelmente no cotidiano imposto pela lógica do capital, que arrasa não mais apenas o corpo presente como corrói qualquer esperança de futuro. Neste primeiro movimento o roteiro objetiva tocar os mais nobres sentimentos dos melhores indivíduos, mobilizando a sua simpatia com a boa família e a realização de suas aspirações, as quais o espectador é levado a compartilhar.

O segundo grande movimento do roteiro expõe a crueza da vida, cujas circunstâncias podem atingir a qualquer um de nós, a qualquer momento, até mesmo os privilegiados componentes da classe média e da classe média-alta. Isto sim, os ricos e super-ricos estão situados além deste vale de lágrimas com as suas sofisticadas equipes de segurança, salvo raríssimas exceções (cada vez mais raras), sendo eles os que ocupam o pólo ativo da capacidade de impor o sofrimento, em grande parte realizada ao abrir a Caixa de Pandora da miséria econômica que expõe milhões à miséria e ao estágio existencial hobbesiano em sua eterna disputas cotidiana para garantir a sobrevivência.

Neste segundo grande movimento Mayes mobiliza a violência social supostamente praticada de forma intensa por determinados grupos étnico-sociais, negros e latinos, classificados a partir de então como ameaçadores para o perfil da boa família norte-americana perfeitamente integrada socialmente, como se se tratasse de alguma variação pouco conhecida de culpa genética que, logo, precisa ser enfrentada acerrimamente. Neste segundo movimento a família do bem-situado e pacífico profissional liberal, Paul, é destroçada implacavelmente por marginais que invadem a intimidade de seu domicílio em sua ausência, e o requinte para mobilizar o sentimento de reprovação e raiva é a prática do duplo crime de homicídio (contra sua esposa) e estupro (vitimando sua filha). A mensagem ao espectador, nem tão implícita, é: você, homem de bem, mesmo sendo um pacífico cumpridor de seus deveres e das leis, deveria mesmo suportar tudo isto passivamente enquanto as autoridades de seu município se revelam incapazes de oferecer uma solução e justiça quando você é vilipendiado? Está aqui colocada a armadilha, e ponte, para transformar o pacífico espectador em um sanguinário indivíduo dotado de um profundo desejo de matar, que provavelmente não possuía ao sentar na sala para assistir à película. Já não importa a ligeireza dos hábeis saltos realizados pelo roteirista e bem recepcionados pelo diretor e produtores.

Em seu terceiro grande movimento o roteiro está composto da colocação à prova do primeiro sentimento despertado no espectador, a saber, o de simpatia relativamente ao personagem central, Paul Kersey. Aqui Mayes recompõe o perfil ético até a esta altura desenhado como típico do personagem central. Homem supostamente pacato em sua essência, o segundo movimento do roteiro teria feito despertar em seu âmago sentimentos que a grande plateia poderia compartilhar, até mesmo o que empresta título ao filme, “Desejo de matar”.

Neste sentido, o personagem principal, Paul, é colocado a caminhar à esmo pelas ruas da metrópole, entregar-se voluntariamente aos fragorosos perigos, com os quais queria deparar, certo que estava de que a cidade estava infestada por bandos de incorrigíveis malfeitores, tal como também em seu momento o projeto (criminoso) de direito penal nacional-socialista continha em seu núcleo duro. Paul colocou a arma na cintura às noites e submergia nos recovecos da Grande Maçã, investindo em todas as suas sombras e mirando a seres sombrios. Paul é mais do que um homem à busca da vingança ou um patrulheiro como sugerem alguns críticos.

Paul é mesmo um assassino, armado e perigoso, à busca de vítimas, tenham elas cometido qualquer tipo de transgressão, e será ele, e ninguém mais, o juiz e executor da sentença de morte, cujo formato final será ele próprio que estabelecerá no ato, ainda mesmo quando viva em um país (e Estado) em que a pena de morte está prevista legalmente. Mas esta “facilidade” é insuficiente para aqueles que pretendem fazer retroagir o relógio civilizacional, pois nada lhes satisfaz plenamente, exceto dispor da posição de poder radical, a ponto de atuar como carrascos a postos e atuantes livremente segundo apenas o seu próprio juízo sobre a vida alheia. O que é isto senão um dos elementos do fascismo? Este é o Paul de meados da década de 1970 que intervinha nos primeiros momentos da degradação econômica que começava a atingir os EUA desde a crise do Vietnã que fora alvo da tentativa de bloqueio por parte de Nixon em 15 de agosto de 1971 ao romper com o princípio da conversibilidade do dólar em ouro (Nixon Shock) estabelecido em Bretton Woods, momento em que as políticas neoliberais viriam a reforçar tão intensamente o conflito social a pontoa de alimentar a raiva, que começaria a encontrar território fértil para realizar a sua união matrimonial com o ódio cujo legítimo descendente é o extermínio massivo de vidas.

O extermínio de vidas que habita o núcleo duro do desejo de matar implica sua análise em outra dimensão, a saber, trata-se apenas de uma falsificação do que realmente ocorre, pois para além do sentimento, trata-se de uma pulsação que oscila entre a anemia moral e uma profunda patologia constituída por trauma, é disto que se trata. A estratégia do roteiro é transformar um homem estável e adaptado socialmente (com tudo o que isto implica) em um assassino em série no bojo de um contexto de vida em sociedade, e não de estabelecida anarquia e perfeita derrota e fim do Estado. Aqui é realizada uma passagem ligeira, sutil e bem pensada, que mantém a mobilização dos sentimentos da plateia relativamente ao segundo movimento do roteiro, passando completamente por alto o adoecimento mental de um homem que transforma a sua vida, a sua mente e o seu corpo em nada mais do que instrumento para a execução de mortes em série. Pano de fundo, mas não menos importante, este homem recebe apoios, e o cuidado ficcional é expresso ao ser destacado o papel da imprensa manchetear os homicídios e o quão favoráveis eram as opiniões de tantos de seus concidadãos à série de homicídios cometidos pelo (supostamente) justiceiro. A barbárie passa a ser legitimada na tela e a sua naturalização é alvo da tentativa de persuadir o espectador de que a forma de enfrentamento de crimes pode ser a mais crua barbárie para além das dimensões do padrão civilizatório imposto pelas normas legais e autoridade estatal.

Neste terceiro movimento o objetivo é recuperar a simpatia já despertada no espectador no primeiro movimento do roteiro e recordar a todo momento a violência sofrida na segunda parte do filme como estratégia de potencializar tal aproximação com o personagem central em face da agudeza da dor e da injustiça imposta aos seus entes mais próximos, cuja finalidade é apoiar as ações do homem que em seu momento fora tão pacífico e ordinário. Estaria justificada a grave transformação de caráter. Sem embargo, o despertar do assassino em série não ocorreria a partir de um pacato personagem, pois havia nele um elemento adormecido pouco destacado na película, mas que merece atenção. Após o trauma, Paul foi flagrado em um clube de tiro demonstrando as suas habilidades com as armas. Atirador de notável precisão, esta fora desenvolvida por ter sido adestrado no tiro por seu pai, embora a sua morte devida a acidente em atividade de caça o tivesse feito desistir de manejá-las. Portanto, quando Paul percorre as ruas de Nova Iorque à busca de suas vítimas, está a mobilizar a sua habilidade com o tiro para provocar mortes, oportunidade em que já não está mais em causa a vingança pessoal, mas ao dedicar-se à verdadeira caçada humana por delinquentes de todo tipo, está a realizar uma busca pela eliminação do “mal no mundo”, reconhecendo a si mesmo o papel teológico de redentor às avessas, um sanguinário messias capaz de impor a purificação do mundo.

Este é o grave movimento de ódio que o filme carrega implicitamente e que desperta internamente no espectador médio com a força da dinamite. Esta emersão pode ocorrer ainda com maior facilidade quando o espectador, consciente ou inconscientemente, acolhe o sentimento de que se tudo correr bem com a sua vida e chegar a desfrutar do bem-estar do personagem central, então, não será conveniente ter de conviver com aquela gama de desajustados sociais que são apresentados como ameaças incorrigíveis. O filme insiste na intensificação da estratégia do medo como forma de cooptar a simpatia de massas, carregando plateias para a condescendência com a prática da barbárie, afinal, a ameaça não paira apenas sobre Paul, mas também sobre o desavisado espectador.

Sob este cenário desenhado pelo terceiro grande movimento do filme o extermínio é transformado em uma forma de vida política, em suma, é realizado um movimento de naturalização do assassinato de determinados perfis de indivíduos que são classificados desajustados, supostamente descritíveis como criminosos, tudo isto configurado a partir de um estereótipo fenotípico. Sem embargo, isto pode ser adaptado para as diversas idiossincrasias existentes em todas as latitudes do mundo, algo que permite ao roteiro reclamar universalidade.

Arquitetos ou médicos – como sugere a refilmagem de Eli Roth –, engenheiros, mas também encarnáveis em quaisquer outros profissionais, liberais ou não, o que também está em causa é a colocação em xeque da aristocrática, e por isto vetusta é a ideia do homem de bem, eis que, por vezes, como dizia a sabedoria da Tia Clementina em dueto com Clara Nunes, os piores monstros podem ser os diplomados, que podem fazer o sangue jorrar acionados por prazeres tão imperscrutáveis quanto indescritíveis.

O pior dos monstros pode habitar diferentes peles, com ou sem uniformes reconhecíveis à longa distância, belos e ricos, sujos e maltrapilhos, não há constante ou aparência. O pior dos monstros pode ser o engenheiro, mas também o médico, e, quem sabe, até um capitão, todos podem sê-lo. A tarefa é interditar a estes indivíduos e seu desejo de matar, a sua insana marcha no poder alimentada unicamente por suas graves patologias em seus passeios multitudinais homicidas. Sob a rígida hierarquia dos fatos e das prioridades impostas pelos tempos, tudo quanto nos resta fazer não é pouco, mas grave e arriscado. É coletivo, e não individual, e urgente, aliás, urgentíssimo.

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