Devagar, quase parando...

Agimos como se estivéssemos no melhor dos mundos, vivendo, no entanto, no pior. Desde o golpe contra Dilma Rousseff, num rápido balanço, extinguiu-se a nossa indústria naval, a indústria da construção civil e a capacidade de refinação de petróleo



Devagar, quase parando, e sem chegar a lugar nenhum -, é a sensação que nos acomete diante do quadro que hoje predomina no Brasil. Em toda parte, há instantes assim. Movida por um estado de paralisia, a humanidade, como se estivesse invadida por uma neurastenia, não se mexe, preferindo guardar o que conseguiu e não arriscar. Em outras ocasiões, os temperamentos de agitam, não aceitam o conformismo e pedem, exigem, conquistam reformas, como se, de repente, tudo dependesse delas. Aconteceu no século XVIII, com as revoluções Americana e Francesa. Em 1848, a Europa se deixou atingir por um fenômeno de inconformismo e o curto-circuito floresceu no então chamado (injustamente, é claro) de mundo civilizado. Tais demonstrações se repetiram no século XX, com as várias revoluções, seguindo-se à soviética e se espalhando pelo planeta até 1968, em maio na França, a Primavera de Praga e as manifestações no Rio de Janeiro contra a ditadura. 

Agora, um ambiente inverso tomou conta das mentalidades. Agimos como se estivéssemos no melhor dos mundos, vivendo, no entanto, no pior. Desde o golpe contra Dilma Rousseff, num rápido balanço, extinguiu-se a nossa indústria naval, a indústria da construção civil e a capacidade de refinação de petróleo. Em comparação com os três primeiros meses do atual ano, o Produto Interno Bruto levou um tombo de 9.7% no segundo semestre. Trata-se de uma perda em nossos parâmetros econômicos impossível de disfarçar, mesmo levando-se em conta os efeitos da Convid-19.

Invadidos pelo mal psíquico da apatia, não obstante nos indignemos às vezes, isso não se revela suficiente para interromper a descarga de barbaridades que toma conta do governo. O volume do esforço diz respeito a um interminável capítulo das negativas, traduzido, na verdade no único programa de reduzir ou eliminar direitos da classe trabalhadora, como se isso nos recolocasse nos trilhos de um trem há muito parado na estação. As anomalias verbais de Jair Bolsonaro, com ou sem palavras de baixo calão, neutralizam a gravidade do que vemos, mal camuflando a sua própria astenia, como no último recado aos apoiadores e à população em geral contra a vacinação obrigatória capaz de refrear e reverter a fatalidade do coronavírus. 

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Durante um tempo, imaginou-se que uma ação concertada da grande imprensa, desencantada com o Presidente, mas encantada com Paulo Guedes, o seu patrono da economia, justificasse a natureza da espécie de insensibilidade com que reagíamos às notícias. Aos poucos, a unanimidade nas empresas de comunicação se fragmentou e começamos a ler um rol de críticas, embora ressaltando contra o petismo a responsabilidade pelas raízes do infortúnio. Não dão o braço a torcer, não aceitam dividir a responsabilidade pelo anel de proteção que elevou um incapaz ao cargo que ocupa.  

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Uma das normas que separam um bom de um mau governo está na capacidade do dirigente em se cercar de grandes nomes. Bolsonaro não obedece à prática. Seleciona a dedo os mais ridículos e despreparados. O resultado é o constante exercício de tolice e irracionalidade garantindo gestões desastrosas em todos os Ministérios.

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O trem do desenvolvimento parou. Gente como Guedes nem pode ouvir a palavra. Crê com fé no genuflexório que uma política monetarista basta para recuperar as forças esgotadas. Não basta. A sorte dele e dos que o cercam é que a História, nas suas reviravoltas, ainda não pensou em nós. Se e quando o fizer, é bom que se cuidem.

* Ronaldo Lima Lins é escritor e Professor Emérigo da Faculdade de Letras da UFRJ.

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Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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