Devemos matar os pobres ou fazermos justiça social?

Numa sociedade séria e cidadã os programas sociais na solução da miséria e da pobreza têm que ser questão de Estado mais do que de governo. E muito mais do que caridades e ações eventuais de uma ou outra instituição

Numa sociedade séria e cidadã os programas sociais na solução da miséria e da pobreza têm que ser questão de Estado mais do que de governo. E muito mais do que caridades e ações eventuais de uma ou outra instituição
Numa sociedade séria e cidadã os programas sociais na solução da miséria e da pobreza têm que ser questão de Estado mais do que de governo. E muito mais do que caridades e ações eventuais de uma ou outra instituição (Foto: Dom Orvandil)
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Escrevi aqui sobre o clamor do Papa pedindo aos 1% da pirâmide econômica do mundo que não se esqueçam dos pobres. Mostrei que a miséria e a pobreza não são causadas por maldição divina nem por predestinação, como pensava Calvino segundo o que afirma Max Weber no seu livro “Ética Protestante e o espírito do capitalismo”.

A miséria e a pobreza tem como causa a forma da brutal desigualdade com que o capitalismo desorganiza a produção e a concentração de riquezas em poucas e estúpidas mãos.

Nas redes sociais, em sala de aula e em toda parte as pessoas falam cargas de besteiras usando a fábula representada pela frase batida “não há que se dar peixe, mas ensinar a pescar”.

A repetição dessa frase é viciada, vazia de análise e de reflexão, portanto rica de preconceitos e ignorância sobre a realidade de nossos irmãos que passam fome e que são miseráveis.

No fundo, a papagaice transporta instintos assassinos em relação às vitimas do capitalismo.

Quem diz que pobre é vagabundo, que tem que trabalhar para se sustentar porque todos os que trabalham vencem ignora a realidade da exclusão a que são submetidos os pobres e os trabalhadores.

A partir daí as pessoas falam aética e desonestamente sem saber o que dizem, movidas pela omissão e até pelo ódio semeado pela direita fascista.

Outras apostam na caridade, que soluciona parcial e temporariamente os problemas de algumas pessoas num processo semelhante a quem enxuga gelo.

Ora, a caridade é pouca coisa diferente da omissão. Ela mantém as pessoas na forma indigna e humilhada de quem não cresce e não assume a emancipação cidadã.

A caridade “ajuda” mais quem a pratica do que as pessoas alvo. Muitos se elegem a cargos públicos e até se promovem com a caridade quem dizem praticar, mas os pobres continuam cabisbaixos e desmoralizados.

A solução da miséria e da pobreza não passa pelos caminhos dos fofoqueiros, caluniadores e injuriadores dos pobres, não anda pelo caminho das omissões nem vai muito longe pelo trilho da caridade.

Li com atenção a entrevista da ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello.

O que diz Campello merece reflexão séria no que se refere a ações do Estado Brasileiro para enfrentar, através dos programas sociais, os graves e históricos problemas humanos causados por modelos anteriores, absolutamente impiedosos e marginalizantes.

Lendo-a vê-se o quanto a direita brasileira e seus papagaios leitores da mídia mentirosa são predatórios e desumanos nos julgamentos discursivos dos pobres e na condenação dos programas sociais.

A Ministra Tereza Campelo foi a Porto Alegre falar no Fórum Social Mundial sobre os protótipos representados pelo filme “Que horas ela volta?”

Disse que Val representa a mulher que viajou de Salvador para São Paulo para trabalhar como doméstica numa família “classe” média.

Lá, Val trabalhou como num contexto de escravidão, cabeça baixa e obediente aos patrões, dedicando-se 24 horas diárias e 7 dias por semana a trabalhar, vivendo numa casa na qual era tratada como a maioria das mulheres trabalhadoras o eram: sem espaços, sem direitos e sem democracia.

No que se refere à Val, embora a dona da casa a louve, o tratamento dispensado a reduz a um quarto quente, cheio de mosquitos, a refeições na cozinha após os patrões, sem a comunhão proporcionada pela partilha familiar ao redor de uma mesa.

Muitas famílias ditas “classes” média e alta tratam seus trabalhadores e suas trabalhadoras de forma excludente, fria e marginal. Os preconceitos contra os trabalhadores e pobres são corriqueiros e tidos como normais, embora não vivam nem sobrevivam sem seu trabalho explorado com suas pessoas desvalorizadas.

Porém, no filme tudo muda com a chegada da Jéssica, filha da Val.

Enquanto sua mãe viajou para São Paulo para trabalhar, deixando a filha em Salvador, Jéssica viaja deixando seu filho também, mas vai com o objetivo de fazer vestibular e o curso de arquitetura na USP, aprovada enquanto o filho da patroa é reprovado.

Interessante que Jéssica emenda um rosário de questionamentos e de rebeldia contra os “satatus quo” desde os primeiros contatos com a mãe, a quem não via por anos.

Questiona-a por morar no trabalho, por se submeter a dormir num quarto de péssimas condições, por aceitar fazer as refeições após os patrões junto ao cachorro da casa, por limitar-se a uma linha divisória invisível entre as coisas que pode comer e degustar na geladeira e as que não pode porque são de propriedade dos patrões.

A tudo Jéssica relativiza e é tida como rebelde e revoltada pela mãe e pela patroa.

Explicando que aprendeu com seu professor de história, Jéssica mostra interesse pelos problemas sociais e muita crítica com o estado arrumadinho ao qual se enquadrou sua mãe.

A criticidade da moça transformou a consciência alienada de Val, que se demitiu da casa para se aliar a uma nova vida com a filha, agora estudante da USP.

A ministra diz em sua entrevista que as políticas públicas ajudaram a mudar os rumos de mulheres como Val e Jéssica. A primeira, oprimida pelo desemprego e pela exclusão social, obrigou-se a abandonar sua cidade e família para trabalhar. A segunda avança como filha de pobre graças às inúmeras possibilidades propiciadas pelos programas sociais, que são temidos e odiados pela direita e pela burguesia opressoras e preconceituosas.

É claro que não se deve matar os pobres e enterrá-los na miséria ou enganá-los com omissões e batidinhas nas costas com frases feitas depois de esmolas alcançadas, como do tipo “vai com Deus”, “tudo vai dar certo” nem com caridades que promovem os caritativos e mantém na subjugação os “caridados”.

A ministra Tereza Campello menciona inúmeros programas que promovem e libertam. Vale a pena ler aqui, refletir, debater e criticar. O que não vale, sob pena de cinismo, é ignorar essa entrevista.

Numa sociedade séria e cidadã os programas sociais na solução da miséria e da pobreza têm que ser questão de Estado mais do que de governo. E muito mais do que caridades e ações eventuais de uma ou outra instituição.

Viva os milhões de Jéssicas que se levantam em todo o País, graças à luta por dignidade e cidadania!

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