Dialogando com Sader sobre extermínio do povo brasileiro

"A única certeza disponível é a de que Bolsonaro mofar-se-á, menosprezará, desdenhará, zombará e desrespeitará nossas memórias e a dos nossos entes queridos, semeando o desprezo pela vida e o cultivo do ódio" nesta pandemia, diz o colunista Roberto Bueno, que também repercute o texto de Emir Sader intitulado "100.000 vidas!"

Jair Bolsonaro e cemitério Vila Formosa, em São Paulo.
Jair Bolsonaro e cemitério Vila Formosa, em São Paulo. (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)
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Neste dia 06.08.2020 Emir Sader publicou no site Brasil 247 artigo intitulado “100.000 vidas”. Direta referência às inestimáveis vidas humanas que perecem aos milhares, um dia após o outro sob ritmo incessante e signo de indiferença propensa a transitar a fronteira da burla. O texto de Sader tem a marca da indignação que compartilho em grau e intensidade em tempos obtusos em que cada um dos cadáveres é enterrado com roupão verde-oliva com divisas em referência ao insano massacre massivo. 

Mortes aos milhares obtendo como resposta o descaso acompanhado de riso mal disfarçado de canto de boca. Triste patologia a que afeta gente que não diferencia a vida da morte e submerge nesta última como se resumisse toda a vida possível. Nada mais importa além de militares ocuparem mais e mais cargos no governo acumulando remuneração. As simbologias foram dispensadas e o vício da hipocrisia que honrou durante todo tempo as virtudes da civilização ruiu. Ante 1.226 mortes oficialmente reconhecidas neste dia 06.08.2020 o Presidente não teve melhor ideia do que lamentar profundamente os mortos em Beirute, na casa ligeiramente superior a da centena, enquanto recordava os cerca de 90.000 mortos pela bomba atômica de urânio ironicamente apelidada de little boy despejada criminosamente (segundo as normas do direito de guerra) sobre a população civil da cidade de Hiroshima em 06.08.1945. Nada foi dito sobre os 100.000 mortos no Brasil, exceto breve conselho: “Vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar”, o equivalente a um sonoro “virem-se”, para não dizer aquela outra palavra cai rotineiramente bem no vocabulário presidencial também largamente aplicado em reuniões ministeriais, palavrota que começa com a letra efe. 

Os dias macabros coordenados por almas soturnas que desfrutam com a multiplicação de cadáveres impõe o risco à vida a integralidade do povo brasileiro. Nenhum de nós sabe se sobreviverá ao intenso ataque à vida organizado por manada de gente insensata. Como todos, tampouco estou certo sobre o dia de amanhã, mas a leitura de Sader anima porque é texto que traduz ética reta. Até aqui vivi, e cada momento, da melhor e mais respeitosa forma que me resultou possível perante os meus semelhantes. Fiz o possível. Não terá sido muito, certamente, não o foi. Ainda quando ameaçados e acuados sob o riso odioso do poder opressivo, todos nós podemos manter a esperança de não ser atacados pelo vírus, mas, além disto, resistir aos que tentam espraiar o seu raio de contágio antes que contê-lo. Alimentará nossa esperança o estender a mão para que milhares não sejam contagiados, mas também aos que já foram, apoiando-os e confortando-os. Isto explicita vida e decência, às quais é possível que algumas personalidades da república não tenham ainda sido apresentadas. 

O texto de Sader expõe o epílogo da humanidade no Brasil, coordenada até por patentes inferiores, como falsos capitães cooptados, que se refestelam na contagem de mortes provocadas à razão de minuto. Quais serão, dentre nós, os que morrerão amanhã? Não podemos sabê-lo, sendo a única certeza disponível a de que Bolsonaro mofar-se-á, menosprezará, desdenhará, zombará e desrespeitará nossas memórias e a dos nossos entes queridos, semeando o desprezo pela vida e o cultivo do ódio em tão profundas dimensões que tardarão décadas para que esta bomba possa ser desativada do fundo dos corações de nossa gente tão gravemente atingida. 

A direção desta tragédia épica é imposta por gente seduzida pela união perfeita da psicologia do submisso realizando a plena entrega ao império e o recebimento de modesta gruja. Sader recorda que pouco mais interessa aos coordenadores da marcha da morte que proteger a si próprios e seus amplíssimos poderes após o assalto aos altos postos do Estado, assestando mentiras travestidas de informações políticas em período eleitoral. Os fracalhões temem a masmorra e a execração que a sua autoimagem lhes impõe a cada alvorecer. Os dias difíceis impõem sérias dúvidas sobre a emersão da justiça a realizar-se na pele dos vilipendiadores da carne do povo e dos subversivos da ordem constitucional e democrática brasileira. O curso do tempo acorrerá em apoio aos atores da história para a aplicação da lei democrática aos subversivos da ordem constitucional. Os mesmos que hoje brandem cadáveres com orgulho patológico seguem orientando a marcha da insanidade por trilhas que não se distanciam da percorrida pelos perpetradores do Holocausto, senão apenas na quantidade de corpos, mas não na potência do mal que cada um deles abriga. 

Autoridades já disseram por aí o desgosto que lhes causa ouvir a palavra genocídio, que lhes ofende a sensibilidade ouvir a voz de outras personalidades da república que estão se acumpliciando com o genocídio. Não suportam. Distante o propósito de causar choque, suponho distanciar-me de ferir as sensibilidades ao optar por referência a extermínio em massa ou será que ainda caberia evitar tal referência acaso considerem que 100.000 vidas ainda constituem “número modesto” para designar extermínio em massa. Há responsáveis políticos que mobilizam a morte em massa para hipnotizar e paralisar a reação ao inaceitável: cause o choque extremo, intensíssimo, de várias ordens e ao mesmo tempo, e obterá a desorientação completa de sua vítima. Desorientada será mais fácil dominá-la e executar os planos mais vis ao neutralizar a sua capacidade de reação. Arrombar a caixa forte e arrastar todas as riquezas nacionais será tarefa praticável, ou quem pode esquecer a captura dos poços de petróleo e o sequestro das plataformas a preço de apartamentos no Leblon?  

O presente tempo de elogio à morte é descrito com precisão pelo texto de Sader ao remeter ao estímulo à produção e comércio de armas, e a prática de tiro ao alvo, mas não de solidariedade. São concebidos tributos para livros, mas não para a pólvora das armas nem para os clubes de tiro. Paulo Guedes é o mensageiro da elevação de tributos, mas para os pobres, e sua aplicação sobre a vida ordinária e o mundo da cultura e, em suma, a liquidação de escolas e da educação em geral, partícipe e apoiador que é da permissão de funcionamento dos cassinos e das atividades ao seu redor, consentindo com o extermínio de vidas a tiros através da liberalização sem limites do comércio de armas. Para Guedes-Bolsonaro a vida é mais tiros e menos leitura, mais violência e menos cinematografia, mais missas e catequização e menos sexo, mais velórios e menos música, mais quartéis e menos escolas, mais punhos e menos razão. Nenhuma cultura é admirada e cultivada pela dupla senão a do abate, humano, por certo. Terão a ideia dos fornos ou resolverão tudo à bala e expansão do vírus? 

Precisa a descrição de Sader de que foram e continuam sendo cometidos crimes, carregados de maldade, por parte do que ele qualifica ser um “governo assassino, que governa para os ricos, para os que estão protegidos do vírus, que governa para os mercados, os daqui e os de fora”. Certamente não estamos perante vírus “democrático”, pois suas consequências se impõem mais severamente sobre os segmentos menos favorecidos. Mas, afinal, quem tem as mãos na palanca condutora da tragédia? Afinal, quem extrai benefícios do extermínio em massa? Sader discerne o real das brumas dos embustes mil ao apontar que vivemos sob autoridade “Que governa para os milicos, indiferentes ao país e aos brasileiros. Que governa para si mesmo, para os seus, para suas milícias, para suas polícias, que seguem disparando impunemente sobre as populações pobres e negras”. Quem pode divergir de Sader? 

Os corretores de vidas da nação as entregam à razão de amealhar ainda mais riquezas, bem percebido por Sader, impondo ao povo o famigerado teto de gastos. Isto interdita o acesso do povo aos recursos econômicos resultantes do esforço coletivo de seu trabalho traduzido no Produto Interno Bruto (PIB). Tal limitação já causa mortes na casa das dezenas de milhares, e a imposição de ainda mais restrições derivadas da entrega de riquezas e de lucrativas empresas públicas impõem a diminuição de recursos para financiar os serviços e os investimentos públicos. À atual administração não faltou burocrata que exclamasse com singular júbilo a produção da morte de brasileiros, o que melhoraria os resultados das finanças públicas. Esta é a lógica desta administração: refestelar-se entre cadáveres. Que gente decente, afinal, pode suportar isto em silêncio sem tornar-se cúmplice? Quem? 

Quanta dor, Sader, que imensidão de vazio me invade ao acordar todos os dias e sentir que tantos partiram inutilmente tão somente pela insanidade voraz de gente cuja adjetivação falta ao verbo e inveja ao próprio belzebu. Convirjo com o sentimento de dificuldade exposto por Sader sobre como resistir à vida quando milhares são mortos sob os nossos olhos que, mesmo à distância destas tantas perdas ocultas em perverso anonimato, interditam nossa visão invadida por lágrimas. Compartilho com Sader o seu choro copioso por tantas ricas vidas que são extirpadas de nosso convívio por obra e desgraça de gente cujo caráter o canhoto inveja, mas que haverão de encontrar nas dobras inesperadas da história a cobrança de seus débitos mais brevemente do que se imagina. Será tarde para os que partiram, mas não para as testemunhas do extermínio que saberão ajustar as contas pelos outros 100.000 que ainda perecerão acaso não seja detida a fonte do mal em estado puro e potência supina. 

Sader, são 100.000 vidas, 100.000 histórias, 100.000 experiências de vida, 100.000 riquezas em forma de inteligências, 100.000 sentimentos, 100.000 amores e saudades, e o copioso choro é de todos que mantém a sanidade. Sabe, Sader, tem gente, que não sabe disto, e morrerão sem ter conhecido a vida, tendo experimentado apenas a vida seca e morte sob coração pulsante. Experimentar a dor e o sofrimento reflete o estado de humanidade neste momento de tentativa de neutralizá-la. O sentimento de tristeza e desesperança momentâneo não é motivo para desespero, senão para certificar-se da manutenção da sanidade, pois este, e não outro, é o sentimento que invade a mente sã em meio à dor coletiva. Encerro estas linhas de diálogo com o texto de Sader com as suas palavras: “Teremos que saber transformar nossa bronca, nossa raiva, nosso sofrimento em energia, em atos concretos, em indignação”, e daí, o passo intransferível, individual e coletivo, à ação. 

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