Do sangue de Margarida rios de luta e de lições

Margarida tombou como heroína e mártir da luta pelos direitos humanos e pelos direitos femininos. Desde que a mataram a luta não é mais a mesma

Margarida tombou como heroína e mártir da luta pelos direitos humanos e pelos direitos femininos. Desde que a mataram a luta não é mais a mesma
Margarida tombou como heroína e mártir da luta pelos direitos humanos e pelos direitos femininos. Desde que a mataram a luta não é mais a mesma (Foto: Dom Orvandil)
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Quem foi Margarida que promete sacudir o Brasil neste dia 12 de agosto?

Margarida Maria Alves, cujo nome temos que pronunciar de pé e com emoção, trata-se de uma legenda sagrada de uma verdadeira mulher brasileira, é a marca da luta pelos direitos humanos, principalmente das mulheres.

A primeira Marcha das Margaridas aconteceu em 2000 e seguiram-se edições em 2003, 2007 e 2011.

O início aconteceu com o objetivo de chamar a atenção para as dificuldades enfrentadas pelas mulheres do campo. O nome nasceu da intenção de prestar homenagem à sindicalista Margarida Maria Alves, assassinada pelo latifúndio em 12 de agosto de 1983. Margarida presidia o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras de Alagoa Grande, na Paraíba. Morreu em 1983, aos 50 anos, vítima de um tiro de espingarda no rosto, crime encomendado por latifundiários que se sentiram ameaçados pela luta sem tréguas da trabalhadora. Ela liderou o sindicato por dez anos, lutando por direitos trabalhistas. O lema "Somos Todas Margaridas" da Marcha simboliza as mulheres guerreiras que enfrentam tudo para melhorar a vida das pessoas.

Neste 12 de agosto cerca de 100 mil mulheres ocupam Brasília para reivindicar direitos a partir de temas eixos tratados por elas desde dia 11, como 1) Soberania e segurança alimentar; 2) Terra, água e agroecologia; 3) Sociobiodiversidade e acesso a bens naturais; 4) Autonomia econômica, trabalho e renda; 5) Educação não sexista, educação sexual e sexualidade; 6) Violência sexista; 7) Direito à saúde e saúde reprodutiva e 8) Democracia, poder e participação.

A marcha liga-se desde sua origem à defesa dos direitos dos trabalhadores rurais e os direitos humanos. A luta incomodou os proprietários rurais e de engenho, tanto que mandaram fuzilar covardemente a líder sindical exemplar, Margarida Maria Alves. Sem defesa, a grande mulher foi assassina com um tiro de arma de calibre 12 que deformou seu rosto, jogando seu corpo sem vida ao lado do marido e do filho em frente à residência da família.

Os opressores historicamente sempre agem de modo padronizado. Assim, procuram eliminar os que lutam por liberdade e por dignidade, principalmente se tal luta for de massas, for coletiva e abrangente.

A covardia opressora é necessariamente machista, por isso tem que eliminar as mulheres. Margarida tombou como heroína e mártir da luta pelos direitos humanos e pelos direitos femininos. Desde que a mataram a luta não é mais a mesma.

O tiro com uma arma poderosa atingindo o rosto de Margarida não foi casual. Os que trituram os direitos à vida digna procuram desfigurar a identidade dos heróis. Certamente o matador recebeu ordens dos donos de engenho para atirar para destruir exemplarmente a identidade de Margarida Maria Alves. Por isso o rosto da líder serviu de mira. Era preciso destruí-lo além de matar sua dona.

Não adiantou. Não conseguiram silenciar Margarida. De seu sangue derramado verteram milhares de outras Margaridas e a Marcha das Margaridas.

Neste 12 de agosto de 2015 Margarida e sua Marcha se revestem de significado especial e profético.

A Marcha das Margaridas é símbolo do levante nacional contra o golpe dos que querem a morte para os pobres, para os trabalhadores, para as mulheres, para os negros pobres, para os indígenas, para os agricultores sem terra, para os direitos humanos, para a justiça social, para a democracia e para a soberania nacional.

A Marcha das Margaridas é grito estridente contra o golpe e os golpistas, que não respeitam o povo nem as eleições.

Mas a Marcha das Margaridas representa cobrança de projetos e de mais, muito mais políticas públicas em favor de nosso povo.

As Margaridas, que somos todos nós, principalmente as mulheres que integram a Marcha em Brasília, afirmam que quem tem pagar a conta econômica do País em crise são os que sempre lucraram nababescamente e não o povo e os trabalhadores.

Porém, destaco mais duas lições além da pauta e da pressão a favor do respeito às eleições que os golpistas não têm e de respostas do Governo Dilma, marasmático frente às ameaças e caras feias de uma oposição impatriótica e inimiga do povo.

Uma lição é a da coragem de quem percebe a luta e seus riscos. Margarida Maria Alves sabia dos riscos de sua missão. Tanto que dizia que "é melhor morrer na luta do que morrer de fome". Hoje, milhares de mulheres seguem seu exemplo de coragem e determinação e mantêm vivos os ideais dessa forte batalhadora.

As grandes heroínas e os grandes heróis do povo não se encolhem debaixo da covardia e do medo da luta. Sua intuição criadora, profética e revolucionária as consola com coragem na organização do povo e na sua educação na defesa dos direitos e da justiça social. Para isso Margarida "fundou o Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural, uma iniciativa que, até hoje, contribui para o desenvolvimento rural e urbano sustentável, fortalecendo a agricultura familiar" (aqui).

A covardia, que é filha do medo e da alienação, não arrebanha o povo, não encoraja as pessoas e, pior, deixa os opressores e assassinos pensarem que estão certos e que seus crimes e injustiças é que devem ordenar o mundo.

Margarida Maria Alves participa do santuário de Zumbi, Tiradentes, Sepé Tiarajú, Frei Caneca, Chico Mendes e de milhares de irmãs e irmãos brasileiros que entregaram suas vidas e não temeram que seu sangue derramado se transformasse em flores e frutos de um mundo novo, como as Margaridas.

Somente as pessoas corajosas fazem história, se projetam para o futuro e perenizam suas almas, como ensinou Antonio Gransci.

Outra lição de Margarida Maria Alves, que não se distancia de sua coragem, é a da luta que muda o mundo.

Se ela enfiada dentro de sua casa lamentasse as barbaridades dos senhores de engenho, que massacravam seus trabalhadores e somente se atirasse supersticiosamente aos pés de Deus pedindo proteção, nada aconteceria e os direitos humanos continuariam espezinhados.

Não, Margarida entregou-se ousadamente à luta por 8 horas de trabalho, por carteira assinada, por 13º salário, por férias, por transporte e condições dignas de trabalho. Mais de 600 ações na justiça do trabalho contra os patrões escravocratas mudaram a consciência dos trabalhadores e de muitos empresários.

A Marcha das Margaridas nasceu da luta, do suor, da consagração, da fé e do amor de Margarida Maria Alves. Seu alcance neste ano tem o peso do grito em favor do Brasil ameaçado.

O maior e mais doce fruto nascido do enfrentamento e do sangue de Margarida é a participação cidadã, para nós grande desafio, hoje. Não basta esperarmos por nossos representantes políticos é preciso participar, pressionar e marcharmos. Do contrário nada acontecerá e de nada adiantará lamentarmos.

A Marcha das Margaridas em Brasília é a luta de todo o Brasil contra o golpe, contra as injustiças do massacre aos direitos trabalhistas, motivo da vida e da consagração de nossa heroína exemplar.

Mais do que a luta contra o ódio a Marcha das Margaridas se constitui no azeite das lâmpadas da democracia e de força para que o Estado brasileiro sirva o povo e não os assassinos e coveiros da liberdade e dos direitos dos trabalhadores.

Viva a Marcha das Margaridas!

Viva a democracia!

Viva o Brasil!

Viva o povo brasileiro!

• Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.

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