Dois lados de um mesmo País

"Os trabalhadores cada dia mais pobres não conseguem rir nem mesmo de uma piada. Têm os olhos arregalados de medo de morrer de fome. Os empregos somem, a pandemia devasta com o apoio do governo", escreve o cartunista Miguel Paiva

(Foto: Miguel Paiva)
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Por Miguel Paiva, para o Jornalistas pela Democracia

De um lado temos o fanatismo religioso, o espírito terrivelmente evangélico, como eles costumam, dizer e a sisudez do pecado, da mentalidade xiita dos mandamentos obedecidos. Temos a violência das armas, a liberação do seu uso, o aumento das mortes e das agressões. O feminicídio crescendo, a perseguição aos gays e transgêneros e a intolerância religiosa. Tudo feito com sangue nos olhos, punhos crispados e dentes rangendo. O ódio é a herança que eles querem deixar.

Temos também a destruição da cultura do modo mais abrangente possível e nada no seu lugar. Não dá para dizer que hinos religiosos ou espetáculos cristãos sejam substitutos da verdadeira cultura instigante e criativa. São manifestações religiosas que têm o seu espaço, mas que não podem ocupar todo o espaço. Além de serem assassinadas, as mulheres têm perdido o que conquistaram a duras penas. Seus lugares de fala podem virar locais infernais de perseguição.  São ofendidas como devassas, libertinas e imorais por ministras evangélicas que de questões femininas nada entendem. A demonização da política avança junto com as mentiras.

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A terra vem sendo destruída, queimada, invadida. Seus habitantes estão sendo expulsos, impossibilitados de viver do próprio cultivo e condenados à miséria e ao fim. As matas queimam, o cerrado é devastado, o pantanal abandonado a um destino que transformará o país numa fazenda exportadora de commodities. Cadê a alegria, a música e o amor nisso tudo? Para onde vão os animais selvagens e os habitantes do lugar?

Os trabalhadores cada dia mais pobres não conseguem rir nem mesmo de uma piada. Têm os olhos arregalados de medo de morrer de fome. Os empregos somem, a pandemia devasta com o apoio do governo. O neoliberalismo tão cantado e versos vai destruindo tudo o que foi socialmente conquistado. Cadê a cerveja no bar, a cantoria, o samba de fundo quintal? Não esse que escapa do controle do distanciamento social, mas aquele espontâneo que surge de um sentimento forte que vem de dentro e sai pela boca cantando e sorrindo. Saúde, moradia e educação, tudo arrasado. Tudo triste e sem futuro.

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Mas foi o que ele prometeu quando se elegeu. Não queria construir nada. Só destruir aquilo que já tinha sido feito. Faz sentido.

Já do outro lado temos um sentimento forte de amor ao próximo, de solidariedade, de parceria. Buscamos uma identificação indiscutível para que possamos dividir alegrias, amores e comida. O coração bate num ritmo que dá até pra dançar. Somos alegria, somos música e letra nos lábios, somos a memória de uma História rica em personagens e cultura. Somos a lembrança de conquistas, de mais gente sendo feliz podendo estudar, viajar e construir. E tudo isso com um sorriso nos lábios. Não a gargalhada debochada. O sorriso suave e profundo, aquele que nasce de um movimento de bem estar, de acreditar no futuro mesmo que a luta seja longa e difícil.  

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Do lado de cá buscamos alguma coisa, questionamos mandamentos e rompemos barreiras para criar novos caminhos. Acreditamos no que construímos e nos alimentamos dessa esperança, justamente. Amamos, nos reproduzimos, gostamos de sexo, de cerveja, de roquenrol e de samba. Cantamos hip-hop e pontos de candomblé. Somos ateus e umbandistas, cristãos, judeus e muçulmanos. E gostamos de nos reunir nesse parque das diferenças onde somos cada dia mais parecidos. É simples assim. Buscar a alegria da transformação, da conquista e do bem estar social.

Qual dos dois lados você, em sã consciência, prefere?

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