Dos traumas à tragédia e à farsa nacionalista

Qualquer pessoa que estudou a história do Brasil com atenção sabe que durante a ditadura militar a perseguição a opositores políticos se converteu em política de Estado

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militares-bandeira-artigo-ricardo-almeida (Foto: Picasa)
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 Desde os anos 1980, é comum ouvir lideranças de esquerda falarem dos sérios riscos de ocorrer um novo golpe militar no Brasil. A maioria dessas declarações se baseia em traumas e em “convicções”, não em análises de conjuntura nacional e internacional. Não consideram, por exemplo, que diferentemente do século passado, estamos vivendo em um mundo globalizado em que as empresas chinesas e russas já possuem negócios por toda parte do planeta, inclusive com as grandes companhias norte-americanas e europeias. 

Portanto, essas afirmações não refletem a interdependência que se transformou em fiel da balança nas relações diplomáticas que contornam os golpes jurídicos-midiáticos-parlamentares no Brasil, em Honduras, no Paraguai, no Equador, na Bolívia e em outras partes do mundo, onde a chamada guerra híbrida, caracterizada por ações de lawfare, de propaganda midiática, de disseminação de fakenews e de fraudes (como a compra de prefeitos, vereadores, deputados, senadores, juízes e militares), é mediada por disputas regionais e pelos interesses econômicos transnacionais.

Se o historiador Eric Hobsbawn está correto ao afirmar que “o papel das economias mundiais tem sido corroído ou mesmo colocado em questão pelas principais transformações na divisão internacional do trabalho [...] que os centros internacionais e redes de transações econômicas estão, para fins práticos, fora do controle dos governos e Estados”, essas opiniões precisam ser, no mínimo, questionadas.  

Para piorar, de uns tempos pra cá, algumas dessas lideranças afirmam que o regime militar pós 1964, que investiu em energia para que as empresas multinacionais se instalassem em solo brasileiro (e sul-americano) e que acabou com a indústria nacional era formado por nacionalistas. Ignoram ou esquecem, por exemplo, que Jango, Brizola Miguel Arraes e tantas outras lideranças eram brasileiros que defendiam um projeto nacionalista e que, em função disso, foram mandados para o exílio, para a tortura e para a morte. 

Qualquer pessoa que estudou a história do Brasil com atenção sabe que durante a ditadura militar a perseguição a opositores políticos se converteu em política de Estado, que a Central de Inteligência Americana (CIA) treinou militares brasileiros e, juntos, exportaram golpes de Estado e métodos de tortura para outros países da América do Sul (Uruguai e Chile, em 1973, e Argentina, em 1976) e que o general Golbery do Couto e Silva, o cérebro do regime militar, também presidiu a filial da empresa norte-americana Dow Chemical para toda a América Latina, uma das maiores fabricantes de agrotóxicos do mundo. Isso pode ser tratado como uma forma de nacionalismo?

Apesar de essa confusão causada por setores da esquerda brasileira, nem tudo está perdido, pois essas proezas dos governos militares estão registradas em relatórios oficiais da CIA, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da Comissão Nacional da Verdade, do Ministério Público Federal, do Tribunal de Contas da União e também em vários livros de história. Portanto, dá para acreditar que um dia as novas gerações saberão que os regimes tiranos priorizaram a industrialização estrangeira, a exportação de minérios e de grãos, e que, em função dessas políticas, milhões de famílias foram expulsas do campo e formaram imensos cinturões de miséria nas pequenas, médias e grandes cidades. Se escavarem a história, irão compreender que os militares farsantes adotaram uma política de abertura lenta e gradual somente após a crise internacional do petróleo, de 1973, quando a população do país experimentava uma alta no custo de vida, um arrocho salarial e a inflação estava totalmente fora de controle. 

Se pesquisarem a fundo, verão que os governos militares também endividaram o país com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e que as portas para a exploração das nossas riquezas naturais e da mão-de-obra já estavam consolidadas no continente. Poderão aprender alguma coisa sobre o Consenso de Washington e o famigerado acordo MEC-USAID para a educação, por exemplo, e entenderão que há muito tempo um grupo expressivo de militares e as classes dominantes brasileiras abriram mão da soberania nacional. Enfim, chegarão à conclusão que, em função dessa triste realidade, a democracia e a paz social somente poderão ser conquistadas como obra do povo organizado da cidade, do campo, do mar e das florestas, como são os movimentos pela moradia, pela reforma agrária, em defesa do meio ambiente, dos povos indígenas e afrodescendentes, das mulheres, dos LGBT, dos estudantes, da justiça, da arte e da cultura, além dos sindicatos e dos partidos políticos. 

Aí surgirá o grande desafio, pois as novas gerações também irão perceber que, diferentemente dos nossos países vizinhos, a maioria das forças da esquerda brasileira costuma fazer as suas críticas apenas de forma partidária e contemplativa, apostando toda a sua energia na via parlamentar, mesmo sabendo que ela está dominada, e na justiça, mesmo sabendo que ela é seletiva. Só foi diferente durante a campanha das Diretas Já, do movimento dos Caras Pintadas (Fora Collor!) e das recentes manifestações do #EleNão, do #8M, das #CaravanasLula e dos protestos Em Defesa da Educação. Desde que o The Intercept Brasil e a imprensa independente começaram a revelar as maracutaias dos juízes e procuradores, as pessoas e organizações ficaram hipnotizadas pela nova fase da comunicação brasileira e voltaram aos seus antigos estados de repouso.

Será que estão aproveitando para refletir sobre as nossas melhores experiências? Estarão acumulando forças para as batalhas futuras? Ou seguem à espera de um milagre que não virá? Neste momento de refluxo, é fundamental reconhecer que algumas lideranças já fizeram as suas autocríticas de forma individual, como as do documentário “Democracia em Vertigem”, em que Gilberto Carvalho afirma que “o PT nasceu contestando toda forma vertical, burocrática, corrompida de fazer política e, na medida em que foi crescendo, ignorou que no capitalismo as conquistas de direitos ocorrem somente na base da mobilização e da luta social”, e que Dilma constatou que “a governabilidade também depende da correlação de forças políticas nos estados” - estava se referindo à correlação de forças nos parlamentos e nos governos estaduais. Esses depoimentos são importantes para entendermos que viveremos de sonhos enquanto a grande disputa política não ocorrer também nas esferas regionais e locais. 

No entanto, para isso ocorrer, a militância das organizações de base (não só dos partidos, como foi dito) terá que aprender a partir da avaliação dos próprios erros, das ações práticas, das mobilizações e das disputas públicas, pois os indivíduos que fazem parte dos diferentes coletivos e categorias sociais adquirem consciência a partir das próprias experiências, ao refletirem sobre as contradições do sistema – local e global, como a compreensão do papel do Brasil no cenário mundial, por exemplo –, e ao medirem as suas forças com as da sociedade conservadora local, regional e nacional. 

Ou seja: precisamos estar preparados para as grandes transformações sociais, estruturais e tecnológicas que estão em curso no século 21 e não nos deixar influenciar por provocações e opiniões políticas confusas. Nesse sentido, é fundamental manter um distanciamento em relação às polêmicas que ficam restritas às redes sociais e ampliar o contato físico com os acontecimentos sociais. Nesse processo, além das pautas objetivas, é importante insistir na reflexão sobre as culturas autoritárias disseminadas pelas famílias, pelas seitas, pelos coletivos, pelas redes de televisão e também pelos partidos centralizadores.

Se isso não for feito, o capital financeiro internacional e as demais forças econômicas continuarão patrocinando campanhas de distorção da realidade para apoiar a ação de milicianos nos processos golpistas aqui e em outros países. Sem esses esforços, a história do Brasil irá se repetir continuamente como uma tragédia, pois a farsa nacionalista não será desmontada e julgada. Enquanto as pessoas não deixarem de se influenciar por avaliações políticas equivocadas, as mensagens que publicamos nas redes sociais continuarão a ser como garrafas jogadas ao mar, e nós nos transformaremos em náufragos em busca de um sinal de vida em um mar revoltado. 

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