E se o PT não existisse?

Sem o Partido dos Trabalhadores, aquele seu vizinho, seu patrão e a sua tia, da extrema direita fascista, continuariam amaldiçoados dentro do armário. O PT foi importante para exorcizar as velhas práticas da elite perversa. Jogou luminol sobre os preconceitos, transformando-os em debate e reação

Haddad e o fator Lula
Haddad e o fator Lula (Foto: Ricardo Stuckert)

Inspirado no filme Yesterday, que tem como argumento um mundo sem os Beatles após um apagão em todo o planeta, fiz um exercício de imaginação: o Brasil sem o Partido dos Trabalhadores. Imaginei que o sindicalista e torneiro mecânico Luis Inácio da Silva, ameaçado pela Lei de Segurança Nacional, que o levou a prisão em 1978 por liderar as greves dos metalúrgicos do ABC, tivesse desistido de criar um partido político (metesse a viola no saco).

O corte poderia ter vindo bem antes, em 1969, quando Lula relutou a filiar-se para concorrer a um cargo na diretoria do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Lula tinha uma imagem negativa do sindicato, mas convencido por seu irmão Frei Chico, acabou concorrendo e eleito entre os suplentes para a diretoria, chegando à presidência do sindicato em 1975.

Será que com a ausência de Lula e toda sua representatividade, os intelectuais, artistas, sindicalistas, militantes contra a ditadura, representantes dos movimentos sociais e católicos da teologia da libertação, fundariam o PT como conhecemos? Acredito que a presença de Lula foi determinante para a reunião desse grupo heterogêneo.

Sem o PT, o Brasil estaria em uma profunda crise econômica iniciada na década de 1980, conhecida como a ‘década perdida’. Indicadores medíocres, taxas de crescimento do PIB em baixa e a inflação acelerada afetariam profundamente a produção, o emprego e o poder de compra dos salários. Não existiriam programas como o Água Para Todos, Auxílio-Gás, Bolsa Família, Cheque Cidadão, Escola da Família, Favela-Bairro, Fundo de Amparo ao Trabalhador, Luz para Todos, Mais Médicos, Minha Casa, Minha Vida, Política de Cotas, Programa Fome Zero, Pontos de Cultura, Programa Universidade Para Todos, Rede de Proteção Social, PROUNI, SISU, FIES, Programa de Aceleração do Crescimento, etc.

O Brasil sem o PT não teria o protagonismo mundial conquistado; O príncipe da Inglaterra não teria a oportunidade de ser gentil e segurado o guarda-chuvas, protegendo nosso presidente da garoa londrina; O brasileiro não teria sido reconhecido como o povo mais otimista do planeta; não veríamos a imagem mais icônica de todas: Estudantes da Universidade de Coimbra prostrando suas capas ao solo, para que o presidente do Brasil caminhasse sobre elas, ao lado de sua esposa.

Sem o Partido dos Trabalhadores, aquele seu vizinho, seu patrão e a sua tia, da extrema direita fascista, continuariam amaldiçoados dentro do armário. O PT foi importante para exorcizar as velhas práticas da elite perversa. Jogou luminol sobre os preconceitos, transformando-os em debate e reação. Governou para o homem e mulher simples, inserindo-os no orçamento como investimento e não despesa. O Brasil sem o PT não teria a alegria dos jovens na primeira eleição após a ditadura, ficaríamos sem a emoção do jingle Lula Lá.

Ao final do filme [spoiler], um extraordinário John Lennon surge dizendo que sobreviveu feliz até a velhice longe dos holofotes, ao lado de sua esposa. Lennon aconselha Jack Malik, que ficou famoso cantando as músicas dos Beatles como se fossem suas, a continuar a perseguir o amor, sempre dizendo a verdade. “You may say, I'm a dreamer / But I'm not the only one”.

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