Ei, Kerensky...!

Antes de serem de esquerda ou de direita estamos falando de seres humanos (embora, muitas vezes, seja difícil inserir algumas pessoas nesta categoria) e vivem socialmente. Aprendem, reproduzem e socializam valores, regras, normas entre os quais o palavrão

(Foto: Paulo Pinto - Agência PT)

No carnaval de 2019, diversos blocos saíram pelas ruas das cidades brasileiras se divertindo e gritando “ei, Bolsonaro vtnc!” A crítica política e social sempre foram elementos fundantes e fundamentais nos dias de carnaval. Marchinha dos anos 1920 no carnaval do Rio alternava crítica e ironia, além de criatividade e coordenação entre homens e mulheres, cantando a seguinte letra:

Homens: Na minha casa não racha lenha
Mulheres: Na minha racha, na minha racha

Homens: Na minha casa não falta água
Mulheres: Na minha abunda, na minha abunda

Mulheres: Na minha casa não se pica fumo
Homens: Na minha pica, na minha pica

Diferentemente da nova palavra de ordem contra o Bolsonaro, no carnaval o duplo sentido aflora, como na marcha em questão. Mas o carnaval é o momento da inversão, segundo Bakthin, mas também é o local onde as hierarquias sociais continuam a imperar, embora enfraquecidas. Seria possível a revolução socialista iniciar-se durante o carnaval?

No festival de música pop recentemente realizado no Rio, a multidão de jovens e não tão jovens repetiu, em todos os dias do festival, a mesma palavra de ordem gritada durante o carnaval: “ei, Bolsonaro, vtnc” (ou estariam pedindo Anitta como a jovem repórter de televisão, numa maneira criativa de burlar a censura, tão bem enfatizou). Alguns setores da oposição ao governo fascista-entreguista saudaram esses jovens e não tão jovens de maneira quase efusiva, comemorando o fato de o povo estar se rebelando contra o governo. A meia entrada no citado festival custou R$ 262,50, cerca de 26% do salário mínimo em vigor desde primeiro de janeiro de 2019 que é de R$ 998,00. Seria o povo se rebelando? Ao final dos espetáculos, o público do festival não saiu pelas ruas da Barra da Tijuca, onde se localizam os palcos do referido festival, protestando e tomando algumas ações políticas mais eficazes. Este bairro é o mesmo onde se localiza o condomínio onde mora o atual presidente da República. Ninguém foi até lá protestar contra o presidente nem contra seus filhos.

O 13° Congresso Nacional da CUT, cujo tema foi “Lula Livre” – Sindicatos Fortes, Direitos, Soberania e Democracia se realizou entre os dias 7 e 10 de outubro. Em determinado momento do Congresso, o presidente da CUT repetiu a palavra de ordem da moda e mandou o Bolsonaro tnc. Este fato motivou um debate entre os opositores do governo, sobretudo entre os militantes de esquerda. Alguns defendendo o direito dos militantes e da oposição gritarem esta palavra de ordem, outros criticando seu uso, alegando que a esquerda não pode falar palavrão, uma crítica moralista que busca normatizar a ação dos setores de esquerda, tentando prescrever o que estes podem ou não podem falar/gritar.

Antes de serem de esquerda ou de direita estamos falando de seres humanos (embora, muitas vezes, seja difícil inserir algumas pessoas nesta categoria) e vivem socialmente. Aprendem, reproduzem e socializam valores, regras, normas entre os quais o palavrão. A crítica moralista à palavra de ordem da moda é infrutífera porque não é realizada sobre uma base social e filosófica coerente. Algumas famílias e grupos sociais condenam fortemente o uso do palavrão; outros não dão a menor importância para o seu uso. A abordagem moralista desta questão contribui muito pouco para a análise da conjuntura política.

Mandar o presidente tnc tem um efeito catártico, lava a alma, desopila o fígado, esmaece a raiva, mas não vai muito além disso. Em um certo sentido, chega a ser desmobilizador. Fazendo uma analogia forçada, me desculpem os leitores, em um certo sentido, se assemelha ao efeito de um esporte de massa sobre o público. No futebol, por exemplo, a torcida xinga, esbraveja, revolta-se, comemora, festeja, descarrega toda a adrenalina e o fel acumulados na sua relação de trabalho ou devidos a outras causas sobre o trio de arbitragem, sobre o ídolo ou sobre o jogador pereba. Os torcedores voltam as suas casas renovados, prontos para enfrentar mais uma semana de alienação e exploração. Os romanos já conheciam esta estratégia de dar ao povo pão e circo, permitir que este tenha momentos em que possa extravasar suas frustrações e desejos sublimados. Gritar “ei, Bolsonaro, vtnc!” desopila o fígado e acalma a alma, mas tem um efeito político que não vai além da demonstração da insatisfação contra o governo entreguista, na figura do chefe do Executivo. Que esta palavra de ordem esteja presente no carnaval ou no festival de música pop é aceitável. Problema é ela ser repetida em um espaço politizado como o congresso nacional da maior e mais importante central sindical do Brasil ou durante manifestações e protestos políticos. Será que não tinham outras palavras de ordem mais mobilizadoras para serem agitadas durante o congresso? O presidente da CUT poderia ter aproveitado o momento e proposto uma greve geral, que todos os presentes saíssem em passeata pelas ruas de Praia Grande, onde foi realizado o 13° CONCUT, ou outra atividade qualquer que fosse mais mobilizadora. E aqui não vai uma crítica moralista, mas uma crítica política. Imaginemos os blocos de carnaval, milhões de pessoas Brasil afora, gritando “Fora Bolsonaro”, “Lula Livre”, “Eleições Direta Já!” Imaginemos os filhos da classe média, em pleno festival de música pop, com transmissão direta ao vivo para milhões de brasileiros, gritando estas mesmas palavras de ordem. Alcançariam um efeito político muito mais interessante.

Por outro lado, imaginemos Lênin, Trotsky e Stalin diante da massa de operários, camponeses e soldados, revoltados contra o governo provisório de Kerensky, esfomeados, exaustos e empobrecidos por uma guerra longa e assassina, ao invés de gritarem “todo poder aos sovietes” tivessem gritado “ei, Kerensky, vtnc!” Provavelmente, os Romanov teriam iniciado uma contrarrevolução e estariam governando a Rússia até hoje.

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