Eis o candidato na praça outra vez

Em meio a tamanha diversidade, há aqueles candidatos que são reconhecidos por sua capacidade de hibernar, despertando somente a cada quatro anos, quando lembram que o povo existe e que suas contas bancárias precisam ser irrigadas

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Para o bem de todos e felicidade geral da nação já está aberta a temporada de campanha eleitoral. Infelizmente, por causa da pandemia, haverá uma diminuição considerável de apertos de mão, crianças nos braços e tapinhas nas costas, entre outras demonstrações de carinho e calor humano. A ausência total ou a diminuição destes afagos pode aumentar a “fadiga da pandemia”, pois, como o eleitor vai conseguir viver sem tais afetos, não é mesmo?

As cidades, por sua vez, já sentem os efeitos das campanhas. Não importa por onde se passe, lá estão eles, os santinhos dos candidatos e candidatas a inundar com suas retóricas vazias, nomes exóticos e imagens bizarras; os canteiros centrais das avenidas, bueiros, para-brisas de automóveis, caixas de correio e frestas de desavisadas janelas. 

Uma olhada rápida na lista de candidatos e candidatas constata que, entre tantos nomes, muitos são velhos conhecidos de guerra, outros tantos são novatos e outros são só sem- noção mesmo. Os tipos são os mais variados possíveis. Tem-se, por exemplo, a “dona fulana do postinho”, “sargento beltrano”, “pastor sicrano”, “o lindão da padaria”, “a amiga de sempre” etc. Em meio a tamanha diversidade, há aqueles candidatos que são reconhecidos por sua capacidade de hibernar, despertando somente a cada quatro anos, quando lembram que o povo existe e que suas contas bancárias precisam ser irrigadas. O pior dessa história é quando o eleitor ignora aqueles que representam e defendem sua comunidade, optando por candidatos que, passada a eleição, sumirão como num passe de mágica.

O candidato é um espécime curioso, sempre atento àquilo que lhe interessa. Seus movimentos são calculados e seu discurso costuma ser bem articulado, moldado em um número limitado de palavras que podem ser arranjadas para discorrer, bem ou mal, sobre qualquer que seja a temática. Quando não consegue responder sobre um determinado assunto, o candidato responde sobre outro, colocando em prática suas aulas de coaching e media training. Ao caminhar, o candidato procura apresentar uma postura firme, não necessariamente com barriga pra dentro e peito pra fora, mas tentando demonstrar liderança, empoderamento e altivez. Como nem sempre consegue, o candidato acaba andando assim, de viés.

Em época de campanha eleitoral o candidato não conhece limitações; anda por toda a cidade, sobe e desce morro, invade ônibus, trem e metrô, distribuindo sorrisos e santinhos a tudo aquilo que se mova. E se o eleitor está na feira, praia, mercado, igreja ou bar; lá também estará a figura onipresente do candidato. Entre tantos tipos, um dos mais comuns é o “Candidato caô caô”, como na canção de Walter Meninão e Pedro Butina, que em tempos de eleição sobe o morro sem gravata, bebe cachaça na vendinha, toma água da chuva, fuma bagulho e usa lata de goiabada como prato. Quando se vê isso, dizem os poetas, não resta dúvida, é mais um candidato às próximas eleições.

Assim, conforme dados do TSE, são 750 mil candidatos tentando uma vaga para os cargos de prefeito e vereador em todo o país, disputando o voto de 147, 9 milhões de eleitores. Nas eleições de 2020 serão eleitos 5.568 prefeitos, com seus respectivos vice-prefeitos e 57.942 vereadores. O eleitor que se proteja, pois os candidatos já estão na praça outra vez. 

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