Eleição no condomínio

A reunião de condomínio corria tranquilamente até que chegou a turma da casa 58, pai e filhos, para tumultuar a sessão.

A reunião de condomínio corria tranquilamente até que chegou a turma da casa 58, pai e filhos, para tumultuar a sessão. Um dos filhos apresentou uma moção de protesto contra a candidatura de D. Filomena, a moradora da casa 12 na eleição para síndico que deveria acontecer ali. O menino travesso subiu na mesa e começou a gritar e fazer gestos de armas com a mão para indicar que ali agora quem mandava eram eles. O pai tentou, discretamente, fazer com que o filho descesse da mesa mas sem sucesso. Acabou ele subindo também e fazendo um discurso inflamado.

- Esse condomínio jamais será vermelho. D. Filomena é uma comunista, esquerdopata que abriga pobres e cães abandonados na sua casa.

Outro condômino se levantou

- Aqui todos escondem alguma coisa. Uns escondem armas na garagem, outros escondem fitas gravadas...

- Outro esquerdopata terrorista, bradou um dos filhos da casa 58 voando da mesa na garganta do morador.

O tumulto se armou. O pai da casa 58 continuou.

- Meus vizinhos são todos buona gente. Conheço todos, convivemos na piscina, tiramos fotos, fazemos churrascos. Realmente só a D. Filomena é que não participa. Já me disseram que ela também tem um bordel em casa.- Isso é fake news, grita D. Filomena lá de trás. 

- Conheço todas as meninas, grita outro filho do presidente.

- São minhas filhas! D. Filomena ainda tenta argumentar.

- Filhas da puta. grita alguém da assembleia que já vai incorporando a boataria.

- Os cachorros de D. Filomena mordem todos que passam...

- São mansinhos, argumenta ela já sem força.

- Manso é seu marido, grita outro da plateia.

Novos moradores vão chegando, outros invadem a portaria e o porteiro nada pode fazer. Tenta ligar para os proprietários pelo interfone mas percebe que o sistema foi cortado. Acaba desistindo e indo pra casa assistir a TV Record.

Na assembleia a candidatura do mirador da 58 é lançada. Ele aproveita para fazer um discurso onde fala em deus, em pátria, em família mas não aborda os problemas de vazamentos que abundam no condomínio, passa por cima literalmente dos moradores que reclamam da segurança falha em permitir que todos entrem, ignora os protestos de aumento das taxas condominiais e por aí vai. Acaba nas ponta dos pés gritando que ali quem manda é ele.

Alguém lembra que as eleições para síndico ainda não aconteceram.

- Tô cagando para as eleições, ele grita. Cago um dia sim e um dia não para essa democracia de meia tigela deste condomínio. Vou ser o síndico e pronto e vou chamar meus parças para todas as secretarias que vou criar.

- Secretarias? questiona um morador corajoso.

- Fecha essa matraca, cara, ele responde. Vou administrar esse condomínio de um jeito que nunca foi. Vou explorar o solo  em busca de minério, vou derrubar casas se for preciso, vou acabar com a piscina coletiva, vou cortar todas as árvores. Sombra é coisa de quem não gosta de trabalhar. Vou organizar as finanças, cobrar mais de quem tem menos e menos de quem tem mais. Este vai ser o primeiro condomínio neoliberal deste bairro. E se alguém protestar caio de pau.

A essa altura a assembleia já havia esvaziado. Alguns poucos pediam a volta dos militares e outros conversavam pelos cantos sem se preocupar em esconder as armas nas cinturas.

D. Filomena, resistente e teimosa ainda tentava falar.

- Ok, vocês venceram. Só queria dizer que vou passar adiante a minha casa para um novo morador. O nome dele é Luis Inácio Lula da Silva. Vocês se entendam com ele.

A família da casa 58 se olhou assustada.

- É o Lula, disse um.

- Ele vai morar aqui? Saiu da prisão? Perguntou outro.

- O bicho vai pegar, reclamou o terceiro.

O pai, chamou os meninos e foi se retirando. 

- Com o Lula na parada vamos ter que pensar em outra estratégia.

- Chamo os milicos? Chamo a polícia? 

- Chama o povo, pede o pai.

- Ih, pai. Com o Lula de candidato vai ser difícil...

- Melhor a gente ir morar nos states com o tio Olavo.

A assembleia se encerra e ninguém se elege, D. Filomena aproveita para comer os salgadinhos e tomar o refrigerante que estava na mesa.

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