Em defesa da democracia

Sem reação à altura, a normalização desses absurdos pavimentará a via que conduzirá esta nação ao sepultamento da sua democracia

(Foto: Alan Santos - PR)

Os absurdos dos gestos e do que profere Bolsonaro, que constroem o atual estado de coisas, só são possíveis diante de uma sociedade completamente alienada da realidade nacional e da conivência de instituições, como os conselhos nacionais da Justiça e do Ministério Público. Apesar da contundência de manifestações previamente agendadas por um somatório de organizações ligadas aos movimentos estudantil e dos trabalhadores, há uma lacuna de silêncio entre um ato e outro, frente ao diário caos promovido pelo governo. Esse hiato deve ser ocupado nas ruas. São tantos disparates que é difícil acreditar que saíram do presidente do País. A indicação de um de seus filhos para a Embaixada do Brasil nos EUA, completamente inepto para tal, não é apenas um nepotismo deslavado, mas um escárnio com a história da diplomacia brasileira, uma demonstração de absoluta submissão a Trump e uma desconsideração com os outros países com os quais o Brasil mantém relações diplomáticas. Mais uma vergonha internacional.

No mesmo dia em que diz não haver fome no Brasil, ignorando a condição de mais de cinco milhões de brasileiros, Bolsonaro chama todos os governadores do nordeste de “paraíba” e determina ao ministro-chefe da Casa Civil que persiga o governador do Maranhão, Flávio Dino. Revela, mais uma vez, seu preconceito e determina a perseguição ao governador eleito de uma das unidades da Federação brasileira, quebrando um dos princípios da Administração Pública, o da impessoalidade. Seu ato deve ser denunciado. Bolsonaro, sem apresentar argumentos verificáveis, critica as políticas para a educação de governos passados. Talvez sua assessoria não o tenha informado que os governos do Partido dos Trabalhadores foram os que mais investiram na educação, na história do País. Os programas de acesso aos bancos universitários, do PT, colocaram mais de cinco milhões de filhos de pobres nas universidades. De cada três estudantes universitários, dois são das classes D e E, mais de 70% dos docentes.

Bolsonaro diz defender a educação, mas corta 30% dos pouco mais de R$ 5 bilhões que a pasta teria de recursos para as universidades, em 2019. Abandonado por Temer, o Plano Nacional de Educação continua ignorado por Bolsonaro. Políticas de formação dos professores, intensamente aplicadas, desde 2006, foram deixadas de lado. A decisão não pode favorecer a construção de uma nação minimamente desenvolvida, se os seus mestres não são qualificados para acompanhar as demandas e os cada vez mais complexos níveis de saberes de seus estudantes. Pelo contrário, o presidente parece apostar na privatização das universidades, como aponta o recém-lançado programa “Future-se”, com a desculpa de modernizar os centros de pesquisa brasileiros. Os absurdos não estão apenas no que Bolsonaro profere, mas no que ele oculta para facilitar a entrega de ferramentas fundamentais para a construção da soberania nacional. O presidente não conta à sociedade que as universidades e os centros públicos de produção científica são responsáveis por 95% das pesquisas realizadas e pelo desenvolvimento tecnológico no Brasil.

O espaço não é o suficiente para detalhar o despautério que é o atual governo do Brasil, uma usina radioativa de crises, internas e externas. Eleito democraticamente, é inimigo da democracia. Exige poder de censura sobre a produção audiovisual brasileira, sob a ameaça fechar a Ancine. Sem a menor vergonha e com muito prazer, submeteuse aos EUA e tomou uma atitude hostil contra o Irã, país com qual temos relações diplomáticas. Não intercedeu para permitir o abastecimento de um cargueiro iraniano, abastecido de alimento e colocou em riso a sanidade física e emocional de 50 tripulantes que estão há um mês confinados no navio atracado no porto de Paranaguá. Há muito mais, como os 39 quilos de cocaína no avião presidencial e as conversas entre os procuradores da República, que conjecturam entre si o que pode ser o destino do senador Flávio Bolsonaro, segundo os interesses de favorecimento ao ministro da Justiça, Sérgio Moro e do fortalecimento do poder do Ministério Público, notadamente a operação Lava Jato. Sem reação à altura, a normalização desses absurdos pavimentará a via que conduzirá esta nação ao sepultamento da sua democracia.

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