Em defesa da Frente Ampla

O sociólogo e professor Lejeune Mirhan defende a frente que vem sendo construída a partir dos diálogos do governador do Maranhão, Flávio Dino, com FHC, Luciano Huck e outros. Ele ainda pontua que a rejeição a Lula é muito alta. "Pode mudar? Claro que pode. Muita água vai rolar, como se diz popularmente. Mas temos que construir alternativas, preparar planos "B". Criar terceiras vias. Quebrar a polarização"

Governador do Maranhão, Flávio Dino
Governador do Maranhão, Flávio Dino (Foto: Reprodução)

Assisti nesta quinta-feira às 10h, na TV 247, à entrevista que Leonardo Attuch realizou com Breno Altman, meu amigo e camarada de décadas, na qual debateram o tema Frente Ampla, que o camarada Flávio Dino, governador do Maranhão, do nosso PCdoB, tem tentado construir já de algum tempo, seguindo à risca orientações da direção nacional do Partido.

Para quem não sabe, Breno é filho do saudoso camarada Max Altman, que militou nas fileiras comunistas, vindo a falecer nas fileiras petistas. Nos últimos anos de sua vida, tive a honra de estar muito próximo de Max, pelas profundas identidades com que tínhamos sobre a luta anti-imperialista, a solidariedade à Síria, à luta anti-sionista, ao Irã entre outras. Ele nos faz muita falta.

Attuch, um dos jornalistas mais competentes da atualidade, conduziu a entrevista com muito equilíbrio, ainda que não escondesse a sua simpatia pela proposta que Dino vem expressando, que fora publicada hoje em uma entrevista no jornal Folha de S.Paulo. Essa opinião ele expressara na conversa com Teresa Cruvinel pouco antes às 9h e ela deu total apoio à mesma.

O camarada Breno, que tem sido e o foi durante os 580 dias da prisão de Lula, um dos mais lúcidos analistas políticos, teceu ácidas críticas à proposta de construção de uma Frente Ampla. No entanto, ou Breno não entendeu a nossa proposta ou ele entendeu e está discordando profundamente da mesma por defender outros caminhos e alternativas. Registre-se aqui o seu profundo respeito e os elogios ao Dino, como o melhor governador do país, e até a opinião que na inviabilidade do nome de Lula ele se colocar como um nome nacional melhor até que o Haddad, por ele vir da fortaleza da esquerda, que é o Nordeste e ser um nome muito mais nacional que o Haddad.

Dito isso, onde erra Breno? Meu amigo confunde uma aliança política tática momentânea para um objetivo comum e imediato com uma aliança programática e eleitoral para daqui a dois anos e meio. Simples assim. As movimentações que Dino tem feito, as conversações que tem estabelecido vão no sentido de minar as bases de sustentação e apoio do governo fascista ou seja lá a qualificação que se queira dar a isso que se queira chamar de "governo" (é, na prática, um desgoverno). Não há demérito algum em conversar com Huck ou FHC - qualificam ambos como golpistas e representantes dos milionários - pois não se está fazendo com eles um pacto eleitoral!!!

Quero aqui apresentar dois momentos históricos - onde foi amplamente correto esses pactos momentâneos, para fins e objetivos táticos determinados. O primeiro em 1937. Nesse ano, no dia 7 de julho, o Império Japonês invadiu a região da Manchúria, na China, que vivia uma guerra civil interna, tendo de um lado o exército vermelho de Mao Zedong, comunista e de outro, o exército dito nacionalista, sob o comando de Chiang Kai Check. Compreendendo a situação, a guerra entre eles foi suspensa - acreditem nisso - e ambos voltaram suas baterías contra o inimigo comum. E apoiados pelos EUA, URSS e Grã bretanha. E isso antes de todos os dois famosos encontros feitos por esses três grandes da época.

Pois o segundo grande exemplo foram justamente esses. Os três grandes - Stálin, Roosevelt (este substituido por Truman no segundo) e Churchil - sentaram-se à mesa para discutir estratégias de guerra para derrotar um inimigo comum, qual seja, o fascismo/nazismo. Não estava em debate um programa de governo, uma plataforma "eleitoral".

Quando o amigo Breno levanta que Huck e FHC estão de pleno acordo com a agenda neoliberal de Bolsonaro - e sabemos plenamente disso - erra mais uma vez, pois ele está pensando que Dino está pensando em formular algum programa de governo com essa gente. Se e quando for preciso - e no tempo certo será preciso - Dino e nosso Partido apresentará - modéstia inclusa - o melhor plano de governo para o Brasil, para sairmos da crise, para superarmos a miséria, para diminuirmos a desigualdade crônica, para rumarmos para um plano nacional de desenvolvimento nacional, com soberania, independência nacional que rumo para um sistema de socialismo democrático, sem que percamos aliados os pequenos e médios produtores e mesmo os grandes que mantém contradições com o capitalismo financeiro. Nesse sentido, temos convicções que parte do empresariado nacional virá para essa futura candidatura. Mas não é isso que Dino constrói no momento.

Sei que meu amigo Breno é profundo conhecedor do marxismo e do leninismo. Não arriscaría dizer que ele seja um marxista-leninista. Em 1917, ano da gloriosa revolução de Outubro, que alguns chamam de Socialista (mas não o foi), nós tivemos três momentos dela. Fevereiro (quando cai o czar e forma-se o governo provisório de Kerensky), abril (quando Lênin chega do exílio e publica as suas famosas teses) e agosto (dois meses antes de outubro, quando os bolcheviques passam a ter maioria no Soviet de Operário de Petrogrado e o POSDR a tese "todo poder aos sovietes"). Nós temos "três lênines"? Ou temos três táticos em três momentos distintos de um processo em rápida mudança revolucionária e curso na Rússia?

Aqui no Brasil, muito ao contrário, não temos nenhuma revolução em curso, nem em médio e nem em longo prazo, ainda que algumas forças políticas - bem pequenas é verdade - gritem aos quatro ventos "Fora Bolsonaro", enquanto sua popularidade já bate em 40%. Defender hoje uma "frente de esquerda" ou mesmo uma polarização Lula X Bozzo é fazer mesmo jogo de quem nesta altura do campeonato?

Todos vimos os resultados da última pesquisa CNT/MDA. Eu, como professor de Métodos de Pesquisa por 25 anos, tenho mil motivos para duvidar de sua metodologia. Confio mais na Vox Populi do colega Marcos Coimbra. No entanto, há elementos para aferir que sua base social vem crescendo. Ele tem apoio de TODOS os meios de comunicação. Lula é absolutamente invisível na sociedade. O PT é literalmente odiado não só pela classe média, mas por amplas parcelas do povo pobre, preto e periférico (PPP). Viram os índices de intenção de votos do ex-presidente, do que foi o melhor presidente da história do país (saiu em dezembro de 2010 com 87% de ótimo e bom, o maior da história)? 17%, contra quase o dobre do Bozzo!!! Nós sociólogos, quando fazemos pesquisa, o primeiro índice que olhamos jamais é o de intenção de voto, mas o de rejeição, ou seja, aquela parcela do eleitorado que diz que JAMAIS votará em um candidato. A rejeição ao Lula está alta demais. Pode mudar? Claro que pode. Muita água vai rolar, como se diz popularmente. Mas temos que construir alternativas, preparar planos "B". Criar terceiras vias. Quebrar a polarização.

Peço desculpas pelo texto longo. Sei que eles não são lidos, mas não tinha como ser curto. Faça isso em nome do debate franco e aberto, em especial com pessoas com quem respeito e gozo da amizade fraterna.

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