Engraçadinho

Falou da Ford. Das demissões. E perguntou minha opinião. Não sou nem louca. Saí com um pois é. Ele não se fez de rogado. Disse que era isso mesmo, tem que demitir, que primeiro tem que salvar a empresa, aquelas coisas lá dele. Contou que já passamos o facão? Claro, óbvio. Mandou cortar mais

Engraçadinho
Engraçadinho (Foto: REUTERS/Paulo Whitaker)

Como foi? Saí dessossada. Conte. Feche a porta e não me esconda nada.

Entrei e ele nem me deixou sentar. Que merda é essa, com a planilha na mão. Expliquei que os números eram aqueles. Que não teremos lucros a distribuir em 2019. Ficou zureta.

Previsível. O que ele falou? O de sempre. Que está rodeado de incompetentes, que o relatório não fazia sentido.

Tentei explicar que os clientes sumiram, que as vendas despencaram, que ninguém está com dinheiro, que todo mundo está cortando o supérfluo. Espumava. Supérfluo, engraçado, nossos produtos agora são supérfluos? Maneira de dizer. Troque a equipe de marketing, demita a agência de publicidade, estão todos na zona de conforto e cobram uma pequena fortuna para não entregar o resultado.

E você? Argumentei que não há mercado como consequência do Golpe. Achei que ele ia me avançar. Impeachment, a Dilma caiu porque perdeu as condições políticas de governar, todos contra ela, gritou. Concordei, cabeça baixa, morta de vergonha, eu e minha boca. Esses números estão errados, vocês não entendem de nada. Parece até que torcem contra.

Sabia que ele reagiria mal, e daí? Veio com aquela arrogância de dono-da-verdade, com o sente aí que eu vou te explicar. Uma chatice. Falou que já fizeram a reforma trabalhista, que agora virão as privatizações, que o Mercado está otimista, que reduzirão o déficit público com a Reforma Previdenciária, que os fundamentos macroeconômicos estão corretos, prenderam o Lula, e que, logicamente, blá blá blá, os lucros têm que aumentar.

Expliquei que os números não mentem. Que a lucratividade da empresa não depende, no curto prazo, dos fundamentos. Perdeu a paciência e mandou um recado para você. Se teu chefe não sabe como fazer, trarei outro CEO para tocar o negócio.

Velho lazarento. Já demiti meio-mundo, contratei gente por uma merreca para repor o mínimo, cortei o cafezinho do corredor. Grande coisa, economia de 800 reais no ano. Pare. Custos são como unhas, tem que cortar sempre. Pare você com essa lenga-lenga de manual de autoajuda para administradores medíocres. Posso terminar? Terceirizei o que deu, forcei os advogados e contadores a reclassificarem as contingências, coloquei o meu e o deles na reta ... Colocou o meu também. Não seja frouxa. O que mais?

Falou da Ford. Das demissões. E perguntou minha opinião. Não sou nem louca. Saí com um pois é. Ele não se fez de rogado. Disse que era isso mesmo, tem que demitir, que primeiro tem que salvar a empresa, aquelas coisas lá dele. Contou que já passamos o facão? Claro, óbvio. Mandou cortar mais.

O sacana não entendeu que com o Temer eles destruíram o mercado? Vai lá e explica para ele. Falou que você só está preocupado com teus bônus. Uma enorme injustiça, né. Nem brinque.

Disgracido. Não há mais o que possa ser feito. Sem dinheiro em circulação, todo mundo está fazendo a lição de casa, demitindo quem ganha mais, contratando só o necessário, e pelo piso. Poucas empresas terão lucros esse ano. Os bancos. Não há clientes para produtos que não sejam essenciais. Os nossos eram pessoas de classe média baixa, com todos trabalhando em casa sobrava algum para gastar. E agora, com esse desemprego, com essa compressão da massa salarial, quem vai comprar o que vendemos? Vá lá e diga isso para ele. Engraçadinha.

E se mentíssemos para o Velho? Está louca? Os números não mentem. Foi o que eu disse. Maquiar as previsões, falar o que ele quer ouvir. Não dá. É só repetir o Sardemberg e a Mírian Leitão. O velho não é bobo, sabe que aquilo é conversa mole. Mas ele quer acreditar. Irresponsabilidade.

Não tem jeito mesmo de arrumar um número bem bonito na planilha para acalmar a fera? Como? Está todo mundo vendendo menos, os postos vendem combustível e olhe lá, as lojas de conveniência, vazias. As farmácias só estão conseguindo vender remédio, as padarias, só pão, as lojas estão vazias, não repõem os estoques. O lucro da maioria dos negócios estava nos itens periféricos. A maioria das empresas não terá lucro contábil para distribuir aos sócios. Fazendo arminha com a mão, melhora? O momento não é para ironia. Se não tiverem lucros virão para cima de nós. É. Somos a mão visível do mercado. Demos lucros para eles por quase dez anos. Não mais que nossa obrigação.

Tem algo que não estejamos vendo? Se contratássemos uma consultoria externa, ganharíamos tempo. O que aqueles metidinhos sabem e nós não? Você ouviu o gerente do banco. O capital estrangeiro saiu da bolsa, mais de 12 bilhões, e não voltará tão cedo. Tem medo da baixa institucionalidade, desse judiciário louco. Quando saírem os balanços será um deus nos acuda. A bolsa despencará. O dólar subirá. Colocarão a culpa na desastrosa política econômica da Dilma. Vamos exportar! Quem comprará essas bugigangas que fabricamos? Diga isso para o big boss. Você está muito piadista hoje.

Contou que o banco vai reduzir nossa conta garantida? Depois eu é que sou engraçadinha.

No ano que vem melhora. Tem que melhorar. Não é possível. Vão privatizar, investir em infraestrutura. A economia vai crescer. Parece o velho. A mão invisível pagando salários miseráveis em todos os serotores, os clientes não voltarão. Comprarão só o mínimo, cortarão o supérfluo, mas temos que ser criativos. Ele adora essa palavra, prossiga. Vai melhorar. Não foi o que você disse para a equipe. Direi que fui mal interpretado, ninguém gravou. Os consumidores voltarão. Já estão cortando tudo, tv a cabo, plano de saúde, escola particular dos filhos, até a pizza do domingo. Não terão dinheiro para gastar com produtos e serviços como os nossos. Deles. Sei lá. No tempo do Lula ... Nem venha, o Lula está preso, babaca. Você está azedo, hoje, era bricadeirinha. Provocação.

Não dá. Tenho que tomar uma atitude. Só não posso cortar o salário do Júnior e da Paty. Nem pensar, os boca-abertas do velho são nossos aliados. Começaram como estagiários, têm méritos, guerreiros, e já estão no Conselho. Sarcasmo não pega bem nestes tempos de nervos expostos.

Você está demitida. Como assim, está de sacanagem? Infelizmente, não. Preciso levar uma cabeça na bandeja para a reunião dos sócios. Será a tua, seja profissional. Arrumarei um coach e um head-hunter para te ajudar a conseguir uma colocação. Ganhando metade, não pode fazer isso comigo, você sabe que o peso-morto lá de casa só consegue bicos como consultor. É o mercado. Engraçadinho. Sabe que tenho as prestações do carro, da casa. Você não vai me expor desse jeito, me culpar, não mereço. Já fiz. Melhor para você, quando ligarem pedindo informações darei as melhores referências. Vou te ajudar. Do contrário, iremos os dois para o olho da rua. E ao mesmo tempo. Sejamos pragmáticos. Esse negócio, com irracionalidade ideológica do velho e dos sócios dele, irá para o buraco. Não tem saída. Questão de tempo. Terão que recorrer a bancos, deixarão de recolher os impostos. E nem te ocorra ir ao sindicato. Sou loira mas não sou burra. Olha o manual, sem preconceitos, mocinha.

Engula esse choro, por essas e outras é que não gosto de trabalhar com mulheres. Capitalismo, meu bem. São as regras do jogo. Antes de sair peça para Dona Marta ligar para o contador e para aquele consultor falastrão amigo do Júnior. Tive uma ideia genial. Preciso deles.

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