Entre os generais-ditadores, só Figueiredo aproxima-se de Bolsonaro em deficiência intelectual

Na ditadura militar mentia-se para o povo tanto quanto hoje, quando imperam as fake news? Para Maurice Politi, a prática naqueles tempos era outra. Não existia internet, robôs e algoritmos a replicar invenções estapafúrdias. O que o governo fazia era mais esconder fatos do que mentir. Censurava-se. “As fake news de hoje substituem a censura de ontem. A censura escondia os fatos, as maquininhas de fake news repetem mentiras”, compara.

(Foto: Reprodução)
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A tirania é intrínseca às práticas de Jair Bolsonaro. Mesma gravidade têm sua falta de inteligência e sua incapacidade de compreender as mais corriqueiras tarefas de um presidente da República, das quais resulta o fracasso absoluto do seu governo. Seus modelos, os militares que tocaram o terror de Estado de 1964 a 1985, nem de longe possuíam mentalidade tão rudimentar. Alguns, como Ernesto Geisel, até tinham um projeto de país – no caso, nacionalista – e cercavam-se de quadros técnicos qualificados.  Talvez o único troglodita fardado que se aproxime de Bolsonaro em deficiência intelectual tenha sido João Figueiredo, que encerrou de forma canhestra o ciclo opressivo.

 

      O governo Figueiredo foi desastroso econômica e socialmente. O general deixou o poder pela porta dos fundos do Palácio do Planalto, isolado até dos cavalos cujo odor ele dizia preferir ao cheiro do povo. “Quanto à ignorância, há alguma similaridade entre Figueiredo e Bolsonaro. Mas, quanto à gestão, acho que o atual governo é insuperavelmente ruim”, disse a este jornalista o ativista dos direitos humanos Maurice Politi.

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      O único resquício do período João Figueiredo é o “jornalista” Alexandre Garcia, bolsonarista, defensor da cloroquina, que até outro dia ainda tinha espaço na televisão. Garcia gosta de dizer que Figueiredo, de quem era assessor de imprensa, foi o responsável pela transição da ditadura para a democracia. Mentira grossa. Todos sabem que o fim do regime militar foi urdido e viabilizado pela dupla Ernesto Geisel – Golbery do Couto e Silva. Figueiredo cumpriu tabela.

 

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      Politi, que hoje dirige o Núcleo Memória (Núcleo de Preservação da Memória Política), conhece como poucos a cabeça dos militares que protagonizam aqueles 21 anos de trevas. Aluno da Escola de Comunicações e Artes da USP, participava do movimento estudantil no fim dos anos 60 e acabou por atuar na logística da ALN (Aliança Libertadora Nacional). Capturado pela Oban (Operação Bandeirante) em 1970, aos 21 anos, passou quatro anos preso, tendo conhecido os horrores dos porões do DOI-Codi, do Deops, do Presídio Tiradentes, da Casa de Detenção de São Paulo (Carandiru), da Penitenciária Regional de Presidente Venceslau e do Presídio do Hipódromo. Exilou-se em Israel em 1975 e voltou ao Brasil em 1980, após a promulgação da Lei da Anistia.

 

      “Em termos gerenciais, nenhum general ditador foi tão mau governante quanto Bolsonaro. Figueiredo, que fez um péssimo governo, se aproxima dele na rudeza – ele não tinha conhecimento do que significava ser presidente da República”, recorda Politi. 

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      Conversar com Maurice Politi tem sabor de aula de História. Ele confessa que, em determinado momento do governo Bolsonaro, temeu pela volta da ditatura escancarada. “O que aconteceu nos últimos dois anos, certos pronunciamentos, certas bravatas, remeteu a 1964. Naquela época, o Brasil saiu da democracia para o regime militar em poucos meses. Se eu temi pela volta da ditadura? Sim, mas hoje menos do que há seis meses, pois Bolsonaro está sozinho”. 

 

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      Jair Bolsonaro diminui as Forças Armadas, como prova sua própria história dentro do Exército. Politi não se conforma com o fato de alguns generais e coronéis comportarem-se de modo subserviente a um capitão de tão baixa estatura moral, contumaz afrontador dos princípios militares. A explicação pode estar na estreita relação do presidente com as polícias: “Ninguém imaginava este nível de subserviência das Forças Armadas. Porém, mais perigosa é a influência que Bolsonaro exerceu durante anos nas polícias, desde o tempo em que era deputado, e que ainda exerce. Talvez isso intimide os militares”. 

 

      Comparações entre os Brasis dos anos 70, quando ele foi preso pela ditadura, e de hoje exigem duas réguas distintas, adverte Politi. “Em 70 éramos um país que começava a se urbanizar, em que a imensa maioria da população vivia no campo. Hoje temos uma concentração de pobreza nas cidades muito maior do que naquele tempo. Hoje, com a inépcia deste governo, e com a inépcia específica durante a pandemia, cresceu absurdamente o número de pessoas em situação de extrema pobreza”, avalia.

 

     Na ditadura militar mentia-se para o povo tanto quanto hoje, quando imperam as fake news? Para Maurice Politi, a prática naqueles tempos era outra. Não existia internet, robôs e algoritmos a replicar invenções estapafúrdias. O que o governo fazia era mais esconder fatos do que mentir. Censurava-se. “As fake news de hoje substituem a censura de ontem. A censura escondia os fatos, as maquininhas de fake news repetem mentiras”, compara.

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