Esclarecendo a tão falada questão tibetana

Se ainda restam querelas políticas na região, embora muito menos que há 10 anos, avanços foram conquistados nas últimas décadas que legaram ao povo e à etnia tibetana a soberania de escolher seu credo e ampliar o grau de escolha de seu destino político, algo impensável há um século

Muito se fala sobre o Tibet e o budismo tibetano, no Ocidente, sem de fato conhecer a realidade local e os progressos alcançados pela população da Região Autônoma do Tibet nos últimos 70 anos, desde a fundação da República Popular da China. Se ainda restam querelas políticas na região, embora muito menos que há 10 anos, avanços foram conquistados nas últimas décadas que legaram ao povo e à etnia tibetana a soberania de escolher seu credo e ampliar o grau de escolha de seu destino político, algo impensável há um século. O Brasil 247 se prepara para viajar, no fim de julho, a Gansu, província chinesa que integra o Tibet geográfico, já sob influência cultural da Região Autônoma, e por isso dedica algumas linhas ao budismo e ao esclarecimento sobre a questão tibetana. Mais uma vez, este artigo é escrito com o suporte da China International Press, desta vez com a obra “Pluralism and Harmony in the Religions of China”, do cientista da religião Ye Xiaowen, parceiro acadêmico do notável pensador alemão Hans Kühn.

Primeiro, é importante frisar: tal como o Xinjiang, no noroeste chinês, e a Mongólia Interior, ao norte, o Tibet é uma região autônoma, o que quer dizer que, devido às suas particularidades étnicas, a região goza de princípios administrativos próprios e mais autônomos em relação ao poder central. No caso do Tibet, isso tem foco principalmente no papel conciliador e de convergência de interesses em prol da República Popular exercido pelos lamas, as autoridades religiosas locais. O mais alto líder tibetano, hoje, é o Panchen Lama, que na verdade não é o nome de uma pessoa, mas o ocupante de um cargo que leva esse nome. Acima do Panchen Lama estaria o Dalai Lama, mas o atual ocupante do cargo reivindica a administração local para si, resultando em problemas diplomáticos que fazem de principal vítima a população da região. Atualmente, o 14o Dalai Lama está banido do território chinês e recusa-se a abrir diálogo, o que faz com que a comunidade budista, majoritariamente favorável ao Governo central, aguarde a solução do caso quando vierem a nova geração de líderes. 

A atual conjuntura ainda é impactada pela Revolta Tibetana de 1959, quando os monges, apoiados por potências outrora dominantes na região, pleitearam o rompimento com o sistema comunista de Mao Tsé Tung e o reestabelecimento de uma teocracia comandada pelo Dalai Lama em Lhasa. O modelo desigual e feudal que tinha sido sustentado pelos colonizadores e pela antiga República da China, do Kuomintang, tinha sido rompido pela Revolução Popular, inclusive com a participação de muitos budistas tibetanos. Desta forma, a insurreição fomentada pelo ocidente foi rejeitada pelo então recente Governo popular e, desde então, o atual Dalai Lama não vive mais no Palácio de Potala, o Vaticano dos budistas chineses.  

Hoje, o edifício centenário é um museu dedicado à história dos lamas, cultuada por muitos chineses e tratada como patrimônio material e imaterial pela China. Entretanto, devido à instabilidade política gerada pelas tentativas de ingerência e desestabilização, que vêm de fora na figura de empresas e Governos ocidentais, bem como de algumas lideranças budistas, o território tem hoje acesso limitado. Apesar do patrimônio inegável, perde em absoluto recursos preciosos de turismo, que seriam necessários para o seu maior desenvolvimento.  

Até hoje o principal fato ocorreu em 1995, quando, contra os princípios tibetanos de escolha da sucessão dos Pachen Lamas pelo escritínio da urna dourada, em que o nome de muitos meninos é colocado na urna e um é retirado por um lama ancião, sob inspiração dos espíritos, para revelar aquele destinado a ocupar o cargo, os rebeldes tentaram intervir no processo. O processo remonta ao século XVIII e, hoje, requer também aprovação do Governo central ao nome escolhido, o que na maioria das vezes resulta em mera formalidade, mas faz parte do zelo chinês para evitar o despotismo religioso. Tal modelo foi aprovado, inclusive, pelo 10o Panchen Lama, que morrera para dar lugar ao novo ocupante. Ao findar do processo, um garoto foi escolhido, Gyaincain Norbu, e aprovado pelo Estado. O 14o Dalai Lama, no entanto, contestou a escolha e apontou indiscriminadamente um outro menino, fazendo de sua força política e religiosa um vetor de desestabilização da região, explorando a imagem da criança por ele escolhida. A China interveio, protegeu a criança e levou-a a outro lugar, com outra identidade, para preservar sua integridade física e sobretudo psicológica, visto ser traumática a sua utilização para fins políticos. A questão foi solucionada, mas volta e meia outras manobras ainda são tentadas para desestabilizar o Tibet, com cada vez menos eficácia. 

O fato é que: em nada interessa à região ganhar independência. Trata-se de uma área de imensa altitude e, por isso, de solo pouco fértil, que vive da pecuária de criação de iaque, o bovino local, e do turismo religioso vinculado ao budismo. Uma vez desvinculado da República Popular, viria a ser um dos países mais pobres da Ásia, visto que depende hoje dos investimentos que vêm da economia gerada pelo Leste chinês. Para a população, a restauração do regime teocrático representaria um retrocesso de décadas, perda de direitos civis, trabalhistas, de culto e identitários. Mesmo para os lamas, poderia representar uma separação dolorosa dos milhões de chineses budistas, de etnia han, que vivem nas áreas estáveis do Leste chinês. 

Dito isto, fica latente o quanto o Ocidente desconhece sobre a questão, e o quanto não sabe o que fala quando pede Estado laico e direitos civis dentro de suas fronteiras, mas mostra simpatia por uma autocracia religiosa que ainda insiste, de forma cada vez mais débil, em retomar um Estado religioso no planalto tibetano.

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