Esquerda no labirinto

Bolsonaro faz o que quer, diz o que quer, incentiva manifestações antidemocráticas e nada acontece, não há reação válida dos setores democráticos e muito menos da esquerda. A esquerda está perdida no labirinto da institucionalidade, distanciou-se da população e, como já escrevi aqui no 247, seus quadros estão preocupadíssimos com as próximas eleições

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O livro da jornalista Thais Oyama e o texto do Professor Everton Rodrigo Santos são fundamentais para compreensão da ideologia, dos objetivos do bolsonarismo e de seu método. Sim, o bolsonarismo tem ideologia, objetivos e tem método.

A ideologia do bolsonarismo é a da Escola Superior de Guerra. Fundada em 1949 a ESG é um Instituto de Altos Estudos de Política, Defesa e Estratégia, integrante do Ministério da Defesa do Brasil. 

A ESG seria, segundo o Professor Everton Rodrigo Santos, Doutor em Ciência Política pela UFRGS um “lócus de produção de formas simbólicas de tipo ideológica”, que de 1974 a 1989, durante a transição para a democracia no Brasil, serviu para “sustentar relações de dominação assimétricas duráveis entre civis e militares, cristalizando desta forma o seu caráter ideológico”. 

O bolsonarismo dialoga com a ideologia da ESG e valoriza: (a) a institucionalização do Estado de segurança nacional; (b) a existência de um aparato repressivo; (c) um modelo de desenvolvimento econômico para o país (nesse ponto há certa colidência entre a ideologia da ESG, que é estatista e desenvolvimentista, em relação ao modelo de Paulo Guedes, que é ultraliberal e privatista e voltado ao mercado financeiro). 

Todos os presidentes militares, especialmente Geisel e Figueiredo, trataram de legitimar as sucessões governamentais como uma continuidade da "revolução de 64" (um eufemismo para o Golpe de 64); o projeto era a "institucionalização da revolução", ou seja, incorporar à Constituição os atos institucionais da "revolução", “reforçando relações assimétricas de poder”.  

A ideologia do bolsonarismo tem sustentação ideológica na ESG, busca legitimar o golpe de 1964, o regime autoritário e todas as violências e crimes praticados naquele período. 

Por seu lado a ESG foi articuladora da estratégia psicossocial do regime autoritário, pois visava agir sobre a mentalidade dos cidadãos, buscando fazer com que estes internalizassem valores e ideias que legitimassem as ações, estratégias, política, militar e econômica do regime; por seu turno o bolsonarismo escorado no revisionismo histórico, alavancado pela fábrica de fake news e pelas redes sociais, encontrou um exercito de pessoas que tinham internalizados os valores autoritários que orientou os governos de 1964 a 1985.

Bastava ao bolsonarismo encontrar uma bandeira e um inimigo, elementos necessários à unificação das ações. A bandeira é a da moralidade e do combate à corrupção e o inimigo é o comunismo, o PT e o presidente Lula. Se durante a ditadura militar o inimigo interno, identificado na ESG, era o comunismo internacional, cujo objetivo era a destruição da cultura e da civilização ocidental, hoje o inimigo interno voltou a ser o comunismo, o PT, o presidente Lula e todos aqueles que se opõe aos valores autoritários do bolsonarismo. 

O professor Everton Rodrigo Santos transcreve trechos de documentos da ESG que são autoexplicativos: “Se hoje o comunismo internacional e o anarquismo estão às portas de nossas cidadelas, urge que nos levantemos contra eles”; “A família brasileira através de suas mulheres, fez passeatas públicas de protesto e, por fim, veio a revolução redentora”; “Tudo caminhava para o abismo. O colapso nacional era iminente. O povo começou a sentir e, desse sentir, os rumores chegaram às Forças Armadas. Havia necessidade de uma reação, o que ocorreu em 31 de março de 1964”; “A Revolução de 31 de março de 1964, sem dúvida alguma foi um dos mais importantes acontecimentos de nossa história nesta metade do século XX, (...) resguardou a ordem e a paz social, ao mesmo tempo em que orientou o comportamento dos políticos que viviam em função dos seus interesses pessoais”.

O bolsonarismo usa a mesma retórica de 1964, o mesmo método. Bolsonaro representa um Projeto de Poder de extrema direita, sem compromisso com a democracia, com as instituições ou com a população. Não podemos esquecer que em um jantar com representantes da extrema-direita nos Estados Unidos, Bolsonaro admitiu que chegou ao poder para levar adiante um projeto de demolição e de destruição nacional, nas suas palavras: "O Brasil não é um terreno aberto onde nós iremos construir coisas para o nosso povo. Nós temos que desconstruir muita coisa". No mesmo jantar afirmou que o Brasil caminhava para o comunismo. 

Bolsonaro faz o que quer, diz o que quer, incentiva manifestações antidemocráticas e nada acontece, não há reação válida dos setores democráticos e muito menos da esquerda. A esquerda está perdida no labirinto da institucionalidade, distanciou-se da população e, como já escrevi aqui no 247, seus quadros estão preocupadíssimos com as próximas eleições.

O que fazer? O que a esquerda deve propor e liderar?

Primeiramente cabe ao PT, PDT, PSOL, MST, PSB, PSDB, DEM, MDB, FIESP, CUT, CGT, FEBRABAN, OAB, ABI, AJUFE, AJD, Forças Armadas e tantas outras forças democráticas da esquerda à direita, sentarem à mesma mesa e propor um caminho de unidade que garanta a paz institucional ao país. Hoje a paz institucional e o desenvolvimento social e econômico passam pelo afastamento do Presidente Jair Bolsonaro.

Depois disso cada um segue seu caminho e buscando afirmar sua ideologia, dentro das regras do jogo democrático.

Nas palavras de Roberto Mangabeira Unger temos que aproveitar o momento, pois as “Crises elavam a temperatura da política e ajudam a derreter definições congeladas (...). Privada da ajuda da crise, a esquerda parece condenada a um compasso de espera (...)”. Não podemos permanecer nesse labirinto, não podemos esperar e a “conta” não pode ser as próximas eleições, mas o projeto democrático de nação.

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