Esquerdistas do mundo, traduzi-vos

O expressivo aumento da renda da população brasileira nos últimos anos (fruto de um governo dito de esquerda) tem o ônus sociológico de tornar a população mais conservadora, já que agora, mesmo que lentamente, ela cada vez mais se torna proprietária

O expressivo aumento da renda da população brasileira nos últimos anos (fruto de um governo dito de esquerda) tem o ônus sociológico de tornar a população mais conservadora, já que agora, mesmo que lentamente, ela cada vez mais se torna proprietária
O expressivo aumento da renda da população brasileira nos últimos anos (fruto de um governo dito de esquerda) tem o ônus sociológico de tornar a população mais conservadora, já que agora, mesmo que lentamente, ela cada vez mais se torna proprietária (Foto: Francisco Miguel)

Todos os que lêem noticiário político já devem ter se deparado por aí com as opiniões de “figurões” da chamada “nova direita”, emitindo aos quatro ventos suas “asneiras”. Esses mesmo leitores, por certo, já devem ter lido ou feito críticas, eles mesmos, a esses “figurões”: “historiador que ninguém sabe o que publicou!” ou então “jornalista que não checa as fontes!” ou, nas rodas mais universitárias, “o economista que não entendeu nada do liberalismo de Adam Smith!”. Os mais exaltados os chamam sem pudores de “estúpidos”, “imbecis”, “ignorantes”, “patéticos neocons”, “cegos pela religião” e tudo o que o vocabulário permitir, acreditando que esses golpes têm algum efeito.

Nos últimos anos, essas celebridades da "direita patética" ganharam cada vez mais destaque e mais compartilhamentos nas redes sociais. E por pessoas comuns, como a minha tia, a sua prima, aquele nosso colega de trabalho mais “reaça” e, para nossa surpresa, até por aquela faxineira “evangélica”, que para nós o empobrecimento a tinha feito uma força latente da revolução. Mas se a parte engajada e conectada da esquerda pensa que irá vencer esses “hipócritas” desacreditando suas credenciais acadêmicas ou expondo suas falhas lógicas, pode esquecer! Eles são mestres no que a intelectualidade de esquerda desaprendeu (ou nunca soube fazer muito bem): eles sabem passar a mensagem.

É, amigo, não adianta muito ir para timeline lamentar ou ridicularizar o ostracismo acadêmico desses formadores de opinião conservadores, que passaram sem grandes feitos pela universidade. Meu caro leitor, entenda, também não resolverá muito apontar a “contradição” do pastor-deputado que pela defesa da vida é contra a legalização do aborto e a favor da pena de morte. Ou do senador que é usuário de cocaína e defende a manutenção da guerra às drogas. Academicismos e desconstruções lógicas na internet não funcionam muito bem em uma sociedade, que, primeiro, lê pouco e está em minoria na internet; que, segundo, possui uma sofrida escolarização; e, terceiro, que possui uma cultura democrática recente e cambaleante.

A intelectualidade de esquerda, em todo o sul global, se viu perplexa quando o desencantamento do mundo previsto pelo capitalismo se mostrou a grande falácia do século XX. Espere, muito acadêmico, né? É um vício nosso, tentemos – urgentemente – nos traduzir: A explosão das religiões por todo o mundo (representadas principalmente pelos novos neopentecostalismos e novos islamismos), que ganham adeptos em escalas planetárias velozes, não pode ser explicada somente pela “idiotização mundial dos adeptos da bíblia, um livro cheio de histórias fantasiosas” ou, no oriente, pela “inescrupulosidade de jovens terroristas que se juntam ao EI contra os direitos humanos”. Quem continuar com essa narrativa vai perder feio o jogo de conquista das mentes e dos corações do povo.

Uma boa-nova chegou sim para a grande massa do proletariado, e não fomos nós que a trouxemos, aceite! Pelo menos no Brasil, o neopentecostalismo arrancou do sofá milhões de famílias pobres de seus lares empobrecidos, prometendo um paraíso não no céu – como os católicos insistem em vender e por isso colapsam – mas na terra, agora, já! Se entregam o que vendem, eu não sei. Mas a "ilusão" já é o suficiente para engajar pessoas, enchendo auditórios de dar inveja à sindicalista. Porque “quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta de luxo” – já tentou nos ensinar Joãozinho Trinta (mas parece que só o bispo entendeu). Alguns neopentecostalismos conseguiram vender a ideia de que estudar a bíblia é mais importante do que ler ciência, de que dízimo é investimento e de que Deus conforta os males do capitalismo. A igreja do bispo “picareta” conseguiu o que a esquerda pena: oferecer uma cartilha simplificada, mobilizar e guiar multidões. A esquerda vê com tristeza e lamenta, porque a obra de deus que está na garagem enche mais os olhos do que a revolução de Marx. Agora é a vez dos “neocons”, que estão também oferecendo uma nova religião, e lamento informar, mas ela está tendo adesão massiva.

Tudo bem, o expressivo aumento da renda da população brasileira nos últimos anos (fruto de um governo dito de esquerda) tem o ônus sociológico de tornar a população mais conservadora, já que agora, mesmo que lentamente, ela cada vez mais se torna proprietária. Nem que seja do microondas ou do plano de saúde que a intelectualidade de esquerda no fundo acha pouco, mas que para uma massa empobrecida não o é.

Para os trabalhadores contemporâneos, que só tem como sistema simbólico disponível a fé num deus provedor e a lógica da meritocracia capitalista, seu sucesso é a realização mais objetiva e concreta de seu deus e de sua capacidade individual. Ponto para aquela “revista mentirosa” e para a teologia da prosperidade, uma das poucas que entendeu, num intervalo de pelada de futebol, como o jogo do convencimento acontece.

Nossa incapacidade é global. Para o francês que vai para Síria, o reencantamento do mundo jihadista é muito melhor do que a droga do arrondissement que ele mora e do que a promessa revolucionária que o caquético professor de esquerda o ensinou na école. O feminismo tinha em suas mãos a boa nova da libertação dos corpos, mas perdeu vergonhosamente no sul global para o discurso da submissão feminina, como promessa de um mundo melhor, porque não incluiu nas suas teses as mulheres não-brancas e as chefes de família das periferias.

É preciso que a crítica ao academicismo, ao capital, ao etnocentrismo, ao classismo, ao desenvolvimentismo, ao heterossexualismo compulsório e à branquidão – inclusive de nós mesmos de esquerda – seja traduzido para uma crítica de linguagem concreta, dialogável com os esquemas culturais que pretendemos transformar. Temos que traduzir nossas bíblias, nos fazer entender. A “coxinha” pegou nos nichos jovens universitários, mas a “esquerda-ova-de-peixe” está na boca de toda a classe média, que cresce. Nessa batalha, a gente não vai chegar a lugar algum com nosso discurso ultrapassado, sem qualquer técnica de marketing que dialogue com nossos tempos. Precisamos, em um mundo capitalista, vender esperança. Chamem-me de neocolonial de esquerda, mas ou criamos uma boa-nova cativante que integre o smartphone, ou vamos ver no Brasil, incrédulos, nosso congresso com cada vez mais “bíblia, bala, e boi”.

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