Estamos desregulados tais quais o sabiá

O humor já era, quando dou risada é forçoso e todos notam, é por algo que deveria chorar

www.brasil247.com - Reserva de Mamirauá, Tefé, AM
Reserva de Mamirauá, Tefé, AM (Foto: Rubens Ramos Mendonça)


Quase todo mundo meio desequilibrado, afetado certamente. Todos sentiram, muitos de forma mais aguda, ficaram traumatizados. A pandemia nos desregulou, um fuso horário anual, perdeu-se a exata noção do tempo transcorrido.

  O galo canta de madrugada, alguns deles se antecipam, cantam às três horas, vizinhança já acostumada, mas que perdia o sono quando das primeiras audições. Você tinha por hábitocomeçar um projeto após o carnaval, suspenso, jantar com o companheiro no lugar tal em seu aniversário, suspenso, fazer todo o ritual de preparação para o novo uniforme e material escolar do ano na escolinha da filha, suspenso, consultar a dentista, suspenso, encontrar mensalmente as amigas, suspenso.

  Biólogos atestam alterações comportamentais em animais. Quaisquer animais. No Pantanal brasileiro guias turísticos atiram peixes frescos nas margens de rios, para atrair onças a serem avistadas por madames eufóricas envolucradas herméticas às intempéries. O bicho associa o ruído dos motores de popa das lanchas ao alimento, passa a se comportar erraticamente.

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  Em mares da África do Sul corajosos mergulhadores buscam horários de suposta digestão pesada de tubarões-brancos e os fazem companhia sem jaula de proteção, portando apenas uma lança pontuda na mão. Posam para fotos ao lado de monstros devoradores de mamíferos. Oceanógrafos discordam, defendem que os bichos passam a se acostumar, o que interferiria em seus hábitos comportamentais.

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  Sabiás-laranjeira, outros pássaros também, mas estes os mais verificados, em cidades passam a cantarolar em pleno início de madrugada, muito antes de qualquer sinal de raiar solar. Você até guarda na mente o som de um deles, de tanto escutar toda madrugada desde seu quarto de dormir. Os cantos variam de um a outro, na sua cabeça um "Tia-tia-tia-turu-tu-tiri" duas vezes, seguido, às vezes ainda por um outro único "tu" mais tímido.

  Pobres aves desreguladas, assim se comportam, dizem, devido às luzes noturnas em excesso, devido ao ruído incessante de veículos das cidades, próximo às vias de grande movimento, ruído de carros, carretas, e mesmo a grande distância o ruído estridente de motos, aquele zumbido incessante de abelhas longínquas onipresentes.  

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  Em geral os sabiás macho cantam, em corte de acasalamento, por territorialidade, em época do ano propícia. Dizem que sabiá cantando é sinal de chuva iminente, a época do ano, época mais adequada a acasalar e ter mais alimento para nutrir a prole, folhas brotando, flores desabrochando, frutos, a explosão de insetos. Após o ninho feito o pássaro evitar cantar e piar, chamaria predadores. Muito bem pensado, senhor sabiá, chamaria o mais implacável e sem dúvida predatório deles, o homem.

  Outras sensibilidades ainda em estudo. Tartarugas-marinhas voltam para a desova às praias de onde eclodiram de seus ovos, dezenas de anos atrás, guiadas de acordo com o magnetismo do planeta e os astros do céu noturno, uma hipótese coesa.  

  "Tá tudo bagunçado" a moça diz, segundo ela seus hormônios internos mensais, e várias outras coisas, desregularam significativamente em seu corpo na pandemia. O humor desmoronou, "Quando dou risada é forçoso e todos notam, é por algo que deveria chorar".  

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  "Antes se aparecesse na rua alguém se dizendo nazista, com o braço esticado em continência, todo mundo estranhava. Hoje não mais. Um rapaz aqui do bairro se diz assim, dizem que ele tem toda as costas tatuada com os símbolos lá deles. Uma afirmação de ódio social explícito hoje, estamos em outros tempos, não dá pra comparar com outras coisas, por exemplo com gente mudando de sexo hoje em dia, estes amam, não odeiam".  

  "Estamos desregulados, é muita mentira em meio à verdade, nem dá mais pra saber direito. Eu, como bióloga, tive que estudar e ler muito Darwin, Lamarck. Enquanto lia na faculdade ia comparando o que via nas ruas e testemunhava de gente próxima. Há muito tempo se fala e se crê de forma imperiosa que há o criacionismo, que Deus pegou mesmo um osso de costela de Adão e criou a mulher, que os fósseis de dinossauros são pra nos confundir".   

  "Só que hoje tá muito mais, agora é terra plana, daqui a pouco vão inventar outra coisa, ou requentar estórias antigas, vão embarcar no blefe infantil de Mussolini que dizia que os comunistas comiam mesmo a carne dos combatentes tombados dos exércitos inimigos".  

  "Ontem de madrugada ouvi de novo o sabiá, havia tempos não ouvia, mas ontem foi forte o canto, alto que só, duas da matina, isto lá é hora de passarinho cantar pro raiar do sol de um novo dia? Estão desregulados, luzes em excesso nas ruas. Bem ao lado de onde eles ficam nas árvores à noite, uma luz forte do poste de rua, também muito ruído, a cidade moldou ao rural uma nova biologia, uma nova etologia. Os sabiás-laranjeira das cidades cantam nas madrugadas quase desesperadamente em certa época do ano, cada vez se vê mais disto".  

  "Acho que eu estou meio assim, meio sabiá-laranjeira, meio abestalhada, acho que todo mundo tá um pouco assim. Pandemia, guerra no Leste Europeu, inflação que voltou, briga feia com parente por causa de política".

  "Viramos sabiás. Eles não se consertarão se permanecerem procriando em plena cidade grande. Será que nós iremos nos consertar algum dia? Se o ambiente ao redor e o contexto todo mudar, talvez. Talvez esta onda neofascista passe, perca um pouco da alta temperatura, nem que seja por algum período, um alívio de algum tempo ao menos. Quem sabe? Até lá estarei tal qual o sabiá".

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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