Eu, um aplicativo!

Um telefone, de fato, bastou apenas um telefone com alguns programas/aplicativos, para sermos inexoravelmente, catapultados para uma lógica civilizacional completamente nova e de difícil compreensão

Eu, um aplicativo!
Eu, um aplicativo! (Foto: Andressa Anholete / 247 - 06.12.2011)

Já são antigas as críticas àquelas pessoas que, estando em qualquer lugar ou evento, contrariam a boa educação e sacam compulsivamente do bolso um rebuscado telefone celular e põem-se a fazer mil conexões. Uma simbiose homem/máquina de unidade absolutamente original é ali realizada. Não é algo banal e jamais devemos identificar esse movimento, global e mundializado diga-se de passagem, como algo trivial, corriqueiro e inocente. Não é!

Tal gesto, digamos, prosaico e rotineiro, acontece em todos os lugares e quadrantes do planeta. Ao acionarmos nosso telefone e que, de verdade, já não é mais mero telefone mas é, sobretudo, uma forma ou possibilidade de integração global, um distinto tipológico de ser/estar no mundo; é efetivo portal multidimensional, imagético, simbólico, representativo, afetivo, sensualizado, comunicacional e que, admitamos ou não, refunda sociabilidades, inaugura valores, forja estéticas, desencadeia encontros e rupturas e garante forma e movimento para novos padrões de comunicação; a info-comunicação é experiência singular, afirmativa e auto-afirmativa que nos lega dosagens de onipresença/onipotência/onisciência.

De repente, não mais que de repente, nos tornamos espécies de deuses. Deuses ou "info-deuses", "bit-deuses", quem sabe, "giga-deuses", tudo depende muito da memória do telefone/computador e da frequência do seu processador. De qualquer modo, nos tornamos deuses profanos habitantes de um templo sem tempo, carente de valor ou de doxa humano-cêntrica.

É um dos legados da nova revolução industrial ou info-industrial e seus impactos são tremendos. Sempre é razoável refletir pouco mais sobre os lastimosos efeitos de toda essa ampla quinquilharia de maquinações no cotidiano das pessoas. Um telefone, de fato, bastou apenas um telefone com alguns programas/aplicativos, para sermos inexoravelmente, catapultados para uma lógica civilizacional completamente nova e de difícil compreensão; gravitante entre a ativa esquizofrenia de sermos, ao menos de nos acharmos, deuses profanos e seres telúricos devoradores contumazes de ansiolíticos e antidepressivos, abertamente ameaçados na ensandecida marcha de uma vida sumamente salarial e que avança sendo desmantelada de cabo a rabo, de fio a pavio e de uma ponta a outra. A terceirização de contratos de trabalhos é idéia-força absolutamente irrevogável e é o aspecto mais visível dessa trágica combinação. Minto: não se terceiriza apenas o trabalho... É a vida que está sendo terceirizada!

Desde os anos de 1970 as formas produtivas seguem em franco metamorfoseamento; as reestruturações produtivas que obrigam o enxugamento das plantas e unidades de produção; a necessária redução da presença física da mão-de-obra nos processos produtivos; a re-territorialização da produção onde a China é o principal expoente dessa nova lógica sócio-produtiva; a desregulamentação dos processos de produção onde legislações que conferiam algum equilíbrio para a abissalmente injusta relação entre capital e trabalho se tornam, a partir das conclusões das reengenharias empresariais, graves e notáveis custos econômicos e produtivos.

É o pior dos mundos! Nos tornamos aplicativos que podem ser instalados/desinstalados, potencializados/minorados ou subsumidos nas teias da atual lógica produtiva local/global. Não bastasse a maquinaria e os processos produtivos revolucionantes e que ocuparam os campos com suas lavouras exigindo, por sinal, novas fronteiras agrícolas; fábricas; indústrias; empresas familiares e públicas e; mesmo o comércio informal e que, como consequência, pipocou a maior onda de desemprego, subemprego e degradações laborais correlatas em toda a história e que como evidente e mais consequência conferiu as mais elevadas taxas de lucros para o patronato em todo o capitalismo global, surge ainda, com força e muito poder de convencimento a "necessidade" de banir, de uma vez por todas, o trabalho da atividade produtiva por meio do "ovo de Colombo" da terceirização.

O resultado está aí, estampado nas principais mídias do mundo! Não foi um acaso que Manon Aubry, porta-voz da ONG britânica OXFAM, em reunião no Fórum Econômico Mundial, em Davos, denunciou que: "oito pessoas no planeta possuem tanta riqueza quanto a metade mais pobre da população mundial." [Ver relatório "Uma economia a serviço dos 99%", disponível na internet].

Da mesma forma que um telefone altera o comportamento e a sociabilidade de uma pessoa conduzindo-o para planos ou realidades que ele jamais poderia imaginar; o movimento global e trans-humano e que um singelo telefone representa é o mesmíssimo que, alterando formas produtivas, modifica grupos humanos, bairros, cidades, províncias, nações e, é claro, o mundo. Desgraçadamente, para muito pior.

Em síntese, não existe inocência nos arranjos, intercâmbios, ajuntamentos e formas de integração nesta globalização que cinicamente, reapresenta para nós, indígenas e caboclos, o que é de fato, a carne e o sangue da atual globalização: mais exploração e degradação da muito ameaçada vida humana.

Conheça a TV 247

Ao vivo na TV 247 Youtube 247