Extra! Extra! Extra! Venham ver a raça humana morrer

Qualquer semelhança entre a sua atitude violenta e desproporcional contra o jovem por ele assassinado e o discurso do candidato que ele ajudou a eleger não é mera coincidência. É a ode à barbárie

Extra! Extra! Extra! Venham ver a raça humana morrer
Extra! Extra! Extra! Venham ver a raça humana morrer (Foto: Reprodução)

"Eu, tu e todo mundo, no fundo tememos por nosso futuro. E.T e todos os santos, valei-nos! Livrai-nos desse tempo escuro." Gilberto Gil, um dos nossos gênios da MPB, compôs os versos com os quais iniciei esse texto. Eles fazem parte da música "EXTRA", faixa homônima do título do seu disco, lançado em 1983. No ano seguinte, Gil lançou o disco "Raça Humana", e gravou uma espécie de continuação da mesma composição. "EXTRA 2 – O rock do segurança" é a música que abre o álbum, que entre outras faixas, tem "Pessoa Nefasta", "Feliz por um triz" e "A mão da limpeza", que aborda o nosso racismo estrutural com um realismo poético, que só o mestre Gil poderia fazer.

Falando em "extra", segurança e raça humana, presenciamos na tarde da última quinta-feira no Rio de Janeiro mais um crime brutal praticado com os requintes da legitimidade que o pacote anti crime do ministro da justiça propõe. Um segurança de uma das lojas da rede de hipermercados EXTRA, localizado na Barra da Tijuca, aplicou um "mata leão" em um jovem que, supostamente, teria tentado roubar a sua arma. A imagem é chocante. No vídeo, o funcionário, digo, o assassino, está sobre o jovem – a esta altura totalmente imobilizado e sem representar nenhum risco aos presentes ao estabelecimento – o asfixiando por estrangulamento, apesar dos apelos de muitos dos presentes para que ele soltasse o rapaz, que já estava desfalecendo.

Ao contrário do que diz a letra da canção de Gil, o segurança desse EXTRA não pediu o crachá ao jovem. Talvez porque o mesmo já estive identificado pela cor de sua pele. Nesse caso, a mão da limpeza também era preta, como os capitães do mato de outrora, e não reconheceu no outro um espelho que poderia refletir a sua imagem, caso não ele não estivesse usando o seu crachá. Há quem esteja batendo palmas para o segurança, entendendo que ele fez o seu papel. Os justiceiros de plantão, mesmo não sabendo ao certo quem era o jovem assassinado, concluíram que ele pudesse estar errado.

A cada dia que passa, a nossa estrutura social tem feito mais vítimas do achismo e de outros "ismos", que infestam a mente impoluta e insana, dos cidadãos de bem desse país. O racismo tem o seu lugar cativo entre esses casuísmos plantados feito sementes, pelas mãos do colonizador. Essa ideia enganosa, tipifica o ser preto como uma espécie de crime contra a sociedade escravocrata. O que, automaticamente, o faz ser rotulado, ou até condenado, ainda que não seja culpado de nada. Mais uma vez, recorro aos versos do genial e preto, Gilberto Gil, para mostrar como ser preto num país racista, é ser feliz por um triz.

"Sou feliz por um triz. Por um triz sou feliz. Mal escapo à fome. Mal escapo aos tiros. Mal escapo aos homens. Mal escapo ao vírus. Passam raspando tirando o meu verniz." O nosso racismo estrutural é tão podre e convincente, que até pretos apresentam-se como voluntários para colaborar com a eugenia racial tão sonhada por boa parte da nossa elite branca e escravagista. A injustiça social instituída, faz com que pobres odeiem-se e culpem-se uns aos outros, pelo caos social promovido pela omissão do estado. A normatização da morte, está fazendo com que muitos sintam-se no direito de matar, para restabelecer a ordem, a moral e os bons costumes.

A raça humana, que é uma semana do trabalho de Deus, deve estar provocando uma imensa tristeza em seu criador. O que era para ser uma beleza tem resumido-se em ferida acesa e podridão, expostas num gesto de desumanidade que estrangula impunemente, o direito que o outro tem à vida. O segurança do Extra já está nas ruas. Pagou a sua fiança e foi liberado. Se não fosse um pobre preto o assassinado, ele ainda estaria preso e inafiançável pela sociedade. O jovem estava drogado. Dizem. O jovem tinha problemas mentais. Dizem. O jovem tentou roubar a loja. Dizem. O jovem mereceu morrer. Dizem. O jovem não representava mais riscos. Dizem. Ao mesmo tempo, tudo e nada do que dizem, justifica a sua morte.

Ei! Pessoa nefasta! Não te dói no peito a dor da morte cruel e covarde de outro ser humano? Não? Será que o que tens dentro de si é aquilo que "de resto restaria aos urubus"? Em sua foto de perfil no Facebook, o segurança posa apontando uma arma para a lente da câmera, enquanto um tema de apoio ao presidente eleito, emoldura a sua imagem. Qualquer semelhança entre a sua atitude violenta e desproporcional contra o jovem por ele assassinado e o discurso do candidato que ele ajudou a eleger não é mera coincidência. É a ode à barbárie. É a exaltação da estupidez. É a entronização da violência contra a vida.

Parece que boa parte da raça humana brasileira, é fruto de 45 dias do trabalho de um messias que não gosta de paz.

Ô, raça!

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