Facebook: o mercado da felicidade

Se um sujeito "publica" que está triste, à beira do suicídio, logo surgem os "comentários": "isso passa"; "fé em Deus"; "amanhã é outro dia"; etc., sugerindo que a alegria e a felicidade permanente deva ser a medida de todas as coisas

Tela o Grito, de Edvard Munch
Tela o Grito, de Edvard Munch (Foto: Cássio Vilela Prado)

A maior rede social do mundo – Facebook –, criada pelo programador e empresário norte-americano, Mark Elliot Zuckerberg (1984), revela-se um grande mercado capitalista, onde a lógica mundial neoliberal globalizada é prevalente e sutilmente atravessada diuturnamente. Contudo, além de ser um grande mercado comercial estampando a propaganda mercantil direta e em súbitos "flashes de marketing digital", poluindo os textos e as imagens, o Facebook é também, e sobretudo, uma grande "economia libidinal", para não perder o bonde psicanalítico.

Há uma grande oferta que traz em si mesma uma enorme demanda entre os habitantes sociais da rede comercial e libidinal facebookiana.
Vende-se tudo aquilo que pulsa nos sujeitos sociodigitais assim como compra-se as mais exóticas e escabrosas ofertas, num processo contínuo de desejos sexualizados expostos nesse mercado digital em rede, denunciando o desejo inconsciente como fantasia erigida sobre uma falta indelével.

Além de sensuais imagens corpóreas, oferta-se um variado repertório de postagens múltiplas: fotografias amorosas e afetivas, inclusive com 'animais-fetiches'; textos sobre o tudo e sobre o nada; gastronomia familiar; lindos passeios municipais, estaduais e internacionais; queixas múltiplas; leituras humanas e sociopolíticas fascistas, comunistas, anarquistas, etc.; alegres datas festivas regadas à cerveja, vinho, whisky, scotch, bourbon das mais variadas grifes, com efêmeros e insuspeitos sorrisos de felicidade eterna... O "menu" neoliberal capitalista explícito à economia libidinal subjacente a procura de compradores das fantasias do Outro, através das 'moedas de troca': "curti", "amei", "sorri", "entristeci" e "zanguei". É o "trenzinho da alegria facebookiano".

Se um sujeito "publica" que está triste, à beira do suicídio, logo surgem os "comentários": "isso passa"; "fé em Deus"; "amanhã é outro dia"; etc., sugerindo que a alegria e a felicidade permanente deva ser a medida de todas as coisas. É proibido ser o que se é, pelo menos assim se manifestar. A ilusão da felicidade eterna é a norma, contrário a isso, se está por fora.

Ser diferente consoante às vias democráticas do desejo e da cidadania, mediante o discurso singular, tornou-se uma 'aberração', uma afronta ao império do 'establishment', no Brasil, violentamente recrudescido após o Golpe de 2016 e a implantação do sórdido Estado de Exceção.

As subjetividades tornaram-se reféns do 'modus vivendi' e 'operandi' da elite obtusa mundial. É, nas palavras de Mattos1: "O encurralamento do Campo Discursivo (subjetividades, sociedades e culturas) pela cópula entre o Capital e a Ciência (Tecnociência).".
Assim, são as regras do mercado capitalista que inundam as subjetividades sociais e sociodigitais, embora a "economia libidinal" possa dissimular bem outras coisas: "Se você não me curte, então você me odeia". Algo "paranoide". É o mercantilismo liberal seletivo, promovendo "guetos digitais" de "pertencimentos" aos iguais.

Conforme o poeta e psicanalista, José Marcus de Castro Mattos2: "talvez seja possível dizer que a 'era da felicidade enganosa' (...) seja a própria pulsão-de-morte (Todestrieb) e não algo diferente ou contrário dela... Esse 'mercado da felicidade' é uma Banda de Möbius, na qual se passa ininterruptamente do tamponamento da angústia (via narcisismo) à angústia, sem que se perceba a passagem..."1.

Viva! É a era da felicidade enganosa à procura da imagem especular perfeita (espelhos)...

Feliz Ano Novo, se possível for!!!

1. http://www.retornalacan.blogspot.com.br/

2. Idem.

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