Falando sério sobre 2022



1) Alguém em sã consciência acha mesmo que o governador de São Paulo, João Dória, pode abrir mão de sua candidatura a presidente, depois do advento da coronavac, um grande feito sem dúvida, e dos seguidos embates com Bolsonaro?

2) É mais fácil a praia de Iracema, em Fortaleza, subitamente secar do que Ciro Gomes abdicar de sua quarta tentativa de chegar à presidência da República. Seu ego superdimensionado e o componente autoritário de sua personalidade são barreiras intransponíveis para um gesto de desprendimento de sua parte.  

3) Entre os signatários do texto assinado pelos ilustres eleitores arrependidos de Bolsonaro, que está sendo chamado pela mídia comercial de “manifesto dos presidenciáveis”, três estão dispostos a deixar de lado suas ambições presidenciais em nome de uma costura da direita liberal, que no Brasil adota o epíteto de centro: Huck, Mandetta e Amoêdo. Um porque está cada vez mais próximo da vaga de Faustão nos domingos da Globo, outro por ser considerado “pato novo” no jogo comandado pelos caciques e o terceiro por falta de expressão política pura e simples. Para ser fiel ao título deste artigo, evito comentários sobre a pretensão de Eduardo Leite, governador tucano do Rio Grande do Sul.  

4) Ainda sobre o manifesto, o principal fato político que dele emerge é a formalização de Ciro como integrante do bloco de direita, conversão há muito visível através de seu antipetismo doentio e das ofensas a Lula.

5) O grande drama da terceira via para se viabilizar é o natural e necessário movimento de Lula para angariar apoios fora do campo da esquerda, independentemente de se refletir ou não na formação da chapa do ex-presidente. Para se ter uma ideia da força potencial de atração de Lula sobre esses setores, decorrido pouquíssimo tempo da recuperação de seus direitos políticos, várias personalidades insuspeitas de serem de esquerda já manifestaram seu apoio, entre os quais o influenciador digital Felipe Neto e o ex-ministro Delfim Neto.

6) Cada eleição é uma história e surpresas estão sempre à espreita. Vejo como pouco provável, mas não descartável de pronto, o derretimento de Bolsonaro a ponto de não chegar nem mesmo ao segundo turno. Mas se tivesse dez fichas, apostaria pelo menos oito em um segundo turno entre Lula e Bolsonaro, com amplas chances de vitória de Lula.

7) Esse cenário, porém, sofreria uma hecatombe diante de um eventual  impeachment de Bolsonaro. É de se imaginar Mourão adotando um discurso de conciliação nacional, de governo de transição constitucional, o que certamente atrairia a direita liberal. Essa hipótese remota só vira objeto de analise dada a capacidade infinita de Bolsonaro de produzir fatos negativos, afrontando até os militares. Sua imensa responsabilidade no morticínio em curso no Brasil pode ter consequências imprevisíveis.

8) Como a política preside tudo na vida, a mudança de direção dos ventos bloqueia praticamente todos os caminhos para que o establishment opere uma reviravolta judicial que impeça a candidatura de Lula. Mas, convém manter um olho no padre, outro na missa, pois a história ensina que não há limites para a canalhice da elite brasileira.

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